A semana que começa
Médio Oriente e inflação
Entre ameaças de escalada e negociações frágeis, Estados Unidos e Irão continuam a ditar o rumo do petróleo, da inflação e do sentimento dos mercados globais.
A semana que começa traz dois temas dominantes que, embora à primeira vista pareçam distintos, estão mais ligados do que parece. No Médio Oriente, a questão é saber se os esforços diplomáticos resistem à pressão crescente ou se o conflito volta a ganhar força. Nos mercados, a questão é outra mas não menos urgente: perceber se a inflação, que continua a incomodar dos dois lados do Atlântico, está prestes a piorar ainda mais.

Médio Oriente: acordo ou escalada?
A trégua entre Estados Unidos e Irão continua envolta em enorme incerteza, numa altura em que os sinais diplomáticos se misturam com ameaças de nova escalada militar. Donald Trump admitiu este fim-de-semana que as probabilidades estão “50/50” entre alcançar um acordo com Teerão ou avançar para um ataque de grande dimensão, reforçando a pressão sobre as negociações.
Apesar do tom agressivo vindo de Washington, ambos os lados parecem estar mais próximos de um entendimento. O Irão admite que as posições “convergiram” nas últimas semanas e os mediadores continuam a trabalhar num prolongamento do cessar-fogo por mais 60 dias.
Segundo várias informações, o novo acordo poderá incluir uma reabertura gradual do Estreito de Ormuz e negociações em torno das reservas de urânio enriquecido iranianas, enquanto os Estados Unidos poderão aliviar algumas sanções e reduzir a pressão naval sobre Teerão.
Ainda assim, o ambiente permanece extremamente frágil. O exército iraniano garantiu já estar preparado para responder “de forma decisiva” a qualquer ameaça, numa altura em que continuam os receios de um eventual regresso do conflito.
Os mercados deverão continuar atentos a qualquer avanço diplomático, mas também preparados para uma nova escalada no Médio Oriente, com impacto directo no petróleo, no gás natural e no sentimento global de risco.

Pressões inflacionistas: CPI na Europa e Core PCE nos EUA
A semana volta a ser marcada pela pressão inflacionista dos dois lados do Atlântico, num contexto em que a energia continua a desempenhar um papel central na evolução dos preços.
Na Europa, os dados preliminares de inflação de Maio serão divulgados pelas maiores economias da Zona Euro, depois de um mês de Abril que confirmou uma subida para 3% no seu agregado, o nível mais elevado desde finais de 2023. A aceleração dos preços da energia, fortemente influenciada pela tensão no Médio Oriente, voltou a atingir as principais economias europeias, levantando a dúvida sobre se Maio trará algum alívio ou apenas continuidade da pressão.
Nos Estados Unidos, o destaque vai para o Core PCE, que continua bem acima do objectivo da Fed, sinalizando que a inflação permanece mais persistente do que o desejado. Apesar de alguma expectativa de desaceleração ao longo do ano, o discurso da Reserva Federal mantém-se cauteloso, num contexto em que a energia e as tarifas continuam a condicionar a evolução dos preços.
O quadro geral permanece, assim, pouco confortável: crescimento a abrandar, inflação ainda elevada e bancos centrais sem margem clara para aliviar a política monetária. Enquanto a tensão geopolítica no Estreito de Ormuz persistir, o risco é de a inflação continuar a encontrar suporte no lado energético da equação.

Os banqueiros centrais tomam a palavra
A semana será marcada pela comunicação dos bancos centrais, com vários discursos de membros da Fed e do BCE a ajudarem a calibrar expectativas antes das próximas reuniões de política monetária em Junho.
Na Europa, o BCE enfrenta um dilema cada vez mais evidente: apesar de manter os juros em 2% em Abril, o aumento dos preços da energia continua a manter a inflação acima do objectivo, alimentando uma forte possibilidade de subida em Junho. Ainda assim, dentro do Conselho, persistem visões divergentes, com sinais mais hawkish a contrastarem com posições mais prudentes. Os mercados estarão atentos esta semana a sinais relativamente à reunião de Julho, se uma pausa, ou pelo contrário, uma nova possível subida de taxas.
Nos Estados Unidos, a Fed continua dividida, num dos cenários mais fragmentados das últimas décadas, com discussões internas sobre cortes e sobre o próprio rumo da política monetária. Os próximos dados de inflação serão fundamentais para enquadrar o tom dos discursos desta semana.
No fundo, apesar da tentativa de controlo da narrativa por parte dos bancos centrais, o pano de fundo permanece o mesmo: a evolução da inflação continua altamente dependente do contexto geopolítico, em particular da situação no Médio Oriente e do impacto no preço da energia.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
Uma semana relativamente tranquila de indicadores económicos, onde os mercados irão estar particularmente atentos aos dados da inflação, com a divulgação da medida preferida da Fed, o Core PCE Price Index.
Após o feriado do Memorial Day, logo na segunda-feira, a semana começa com dados do mercado imobiliário. O índice de preço dos imóveis S&P/Case Shiller deverá mostrar uma aceleração dos 0,9% em Fevereiro, para 1% em Março. O índice de confiança do consumidor da Conference Board, segundo as estimativas, deverá cair de 92,8 para 91,9. Teremos ainda o índice de actividade nacional da Fed de Chicago, com as estimativas a apontarem para uma queda de -0,2 para -0,3, enquanto o índice manufactureiro da Fed de Dallas deverá subir de -2,3 para -1.
Na quarta-feira teremos os dados semanais do emprego da ADP e ainda o índice manufactureiro de Richmond, onde as estimativas apontam para uma subida de 3 para 5.
Na quinta-feira teremos um dia bem mais preenchido de indicadores, onde as atenções irão estar especialmente nos dados da inflação do Core PCE. Segundo as previsões, os preços em Abril deverão mostrar um aumento de 0,3%, em linha com o mês anterior, com a medida anual a registar uma subida de 3,2% para 3,3%. O PCE deverá mostrar uma desaceleração dos 0,7% em Março, para 0,5% em Abril, onde a medida anual deverá acelerar dos 3,5% para 3,8%. As despesas pessoais em Abril deverão mostrar um crescimento de 0,6%, desacelerando dos 0,9% do mês anterior, assim como os rendimentos pessoais, que deverão desacelerar de 0,6% em Março, para 0,5% em Abril. Teremos a segunda leitura do PIB relativo ao primeiro trimestre deste ano, onde os mercados não esperam qualquer alteração do crescimento de 2% mostrado pelos números preliminares. Iremos ter os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, que deverão manter-se em torno dos 210 mil. Teremos os números das encomendas de bens duradouros que deverão mostrar um crescimento de 0,4% em Abril, após os 0,8% em Março, onde sem os itens de transportes deverão mostrar um aumento de 0,5%, desacelerando dos 0,9% do mês anterior. Ainda teremos dados do mercado imobiliário, com a divulgação dos números das vendas de imóveis novos de Abril, onde as estimativas apontam para uma queda de 3,2%, após o aumento de 7,4% registado no mês anterior.
A semana termina com os dados da balança comercial de bens, que deverá apresentar em Abril um défice de 89 mil milhões de dólares, acima dos 87,5 mil milhões do mês anterior, com os números preliminares dos inventários grossistas que deverão mostrar um aumento de 0,5%, e ainda o índice Chicago PMI que deverá mostrar uma subida de 49,2 para 51,3.
Zona Euro
Uma semana, que começa também com um feriado, o de Pentecostes, e onde os mercados estarão atentos principalmente aos primeiros dados da inflação deste mês de Maio, que irão ser divulgados nas maiores economias da Zona Euro.
Em França, os preços deverão mostrar uma subida mensal de 0,3%, abrandando dos 1% no mês anterior, com a inflação anual a subir de 2,2% para 2,6%.
Em Espanha, a inflação deverá mostrar uma subida dos 3,2% para 3,5%, com os preços em termos mensais a apresentarem uma subida de 0,4%, em linha com o mês anterior.
Na Alemanha, os preços em termos mensais deverão abrandar do aumento de 0,6% no mês de Abril, para 0,3% em Maio, com a inflação anual a cair de 2,9% para 2,8%.
Em Itália, segundo as previsões, a inflação anual deverá subir de 2,7% para 3,2%, com os preços em termos mensais a subirem 0,4%, bem abaixo da subida de 1,1% em Abril.
Teremos também o índice da confiança económica da Comissão Europeia que deverá mostrar um ligeiro recuo dos 93 para 92. E ainda, na Alemanha, a divulgação da taxa de desemprego que deverá manter-se inalterada nos 6,4%.
Reino Unido
Esta semana será bastante tranquila, onde iremos ter o índice BRC Shop Price que, segundo as estimativas, deverá mostrar uma ligeira aceleração dos preços nas lojas de retalho, de 1% para 1,1%, e ainda o índice CBI Realized Sales, que deverá apresentar uma recuperação dos -68 para -52.
Canadá
As atenções irão estar no último dia da semana, onde teremos a divulgação dos números do PIB do primeiro trimestre. Segundo as previsões, a economia deverá mostrar um crescimento trimestral de 0,1%, após a contracção de 0,2% no trimestre anterior, com um crescimento anual de 0,7%, face à contração de 0,6% apresentada no trimestre anterior. Em termos mensais, em Março, o PIB deverá mostrar um crescimento de 0,1%, desacelerando dos 0,2% no mês anterior, com as previsões a apontarem uma contracção de 0,1% para o PIB preliminar de Abril.
Teremos também os números da conta corrente do primeiro trimestre, que segundo as estimativas, deverá mostrar um défice de 1,9 mil milhões de dólares canadianos, após os 700 milhões do trimestre anterior.
Suíça
O índice de confiança económica da UBS deverá mostrar uma subida dos -30,3 para -24, assim como o barómetro económico KOF, que deverá registar uma ligeira subida de 97,9 para 98.
Japão
Os dados económicos estão guardados para o último dia da semana, que será bastante bem preenchido de indicadores relevantes.
O índice de preços no consumidor da área de Tóquio, segundo as previsões, deverá mostrar uma aceleração dos 1,5% em Abril, para 1,7% em Maio, onde a inflação subjacente, sem alimentos frescos, deverá manter-se inalterada nos 1,5%.
A taxa de desemprego deverá também manter-se inalterada, nos 2,7%.
Os números preliminares mensais da produção industrial de Abril deverão apresentar uma queda de 0,3%, desacelerando da queda de 0,5% no mês anterior.
As vendas a retalho de Abril deverão mostrar um aumento de 1,4%, desacelerando do crescimento de 1,7% no mês de Março.
O índice de confiança do consumidor deverá mostrar uma pequena subida de 32,2 para 32,5.
Finalmente, o número de início de construção de imóveis deverá mostrar um crescimento de 14,7%, após a queda de 29,3% no mês anterior.
Nova Zelândia
Uma semana quase vazia de indicadores económicos, onde teremos o índice de confiança empresarial ANZ, que deverá mostrar uma subida de -10,6 para -8.
Austrália
Por aqui as atenções voltam-se para a inflação. Os preços em Abril deverão mostrar uma subida de 0,6% em termos mensais, desacelerando dos 1,1% no mês anterior, com a inflação anual a cair de 4,6% para 4,4%. A RBA trimmed mean, a medida observada mais de perto pelo banco central, deverá mostrar uma subida mensal de 0,4%, acelerando de 0,3% no mês anterior, com a medida em termos anuais a subir de 3,3% para 3,4%.
Teremos também os números das Obras de Construção Realizadas no primeiro trimestre, que deverão mostrar um aumento de 0,8%, após a redução de 0,1% no trimestre anterior.
A despesa das famílias em Abril deverá mostrar uma contracção de 0,3%, após o crescimento de 1,6% em Março, e a despesa de capital privado deverá mostrar uma subida de 1,2%, acelerando o de 0,4% apresentado no trimestre anterior.
Em Abril, o crédito no sector privado deverá mostrar um aumento de 0,6%, após o de 0,7% no mês anterior.
Bancos Centrais

O Reserve Bank of New Zealand
Na Nova Zelândia, a inflação tem vindo a desacelerar de forma gradual, mas permanece acima do intervalo-alvo de 1–3%, mantendo a pressão sobre o banco central para preservar uma postura prudente. Ao mesmo tempo, os sinais de abrandamento na actividade doméstica, particularmente no sector imobiliário e no consumo, reforçam o argumento para uma eventual flexibilização ao longo de 2026.
O consenso de mercado aponta para a manutenção da taxa directora nesta reunião, prolongando a pausa já observada nos últimos encontros. No entanto, o verdadeiro foco estará na comunicação do RBNZ, especialmente na forma como o banco central actualiza o seu balanço de riscos entre inflação persistente e crescimento enfraquecido.