A semana que começa
Uma semana mais tranquila … ou não!

A semana que começa Uma semana mais tranquila … ou não!

A primeira semana completa de Agosto traz uma agenda económica mais leve, mas com um banco central do G10 em destaque. Será finalmente tempo de férias… ou?

A semana apresenta uma agenda macroeconómica relativamente leve, com ausência de indicadores de primeira linha tanto na União Europeia como nos Estados Unidos. No Reino Unido, o destaque vai para a reunião do Banco de Inglaterra, a última antes da habitual pausa estival. A época de resultados empresariais prossegue a bom ritmo, mas as incertezas persistem, alimentadas pelas políticas comerciais (e não só!) imprevisíveis de Donald Trump, que continuam a desafiar a estabilidade dos mercados e a adiar um verdadeiro período de férias.



Donald Trump e o risco da distorção institucional

Os últimos desenvolvimentos em torno da divulgação dos números de emprego nos Estados Unidos voltam a lançar um alerta sério sobre o rumo institucional da maior economia do mundo sob a liderança de Donald Trump. Após a publicação dos dados do Bureau of Labor Statistics (BLS), que revelaram não só um crescimento muito inferior ao esperado dos nonfarm payrolls em Julho, como também fortes revisões em baixa dos meses anteriores, a reacção da Casa Branca não se fez esperar. Longe de reconhecer o abrandamento evidente do mercado de trabalho, Trump optou por apontar o dedo à entidade responsável pelos dados, exigindo mesmo a demissão da comissária do BLS, Erika McEntarfer.

É mais um episódio que se insere numa linha de actuação cada vez mais preocupante: a tentativa de subjugar entidades independentes ao controlo político directo, minando a confiança na qualidade e integridade da informação pública. Tal como já tinha feito em relação à Reserva Federal, onde os ataques ao presidente Jerome Powell se tornaram recorrentes, Trump prossegue a sua estratégia de pressionar, descredibilizar ou substituir qualquer figura que não alinha com a sua narrativa. Uma postura que não só perturba o funcionamento técnico das instituições, como compromete a credibilidade do país junto dos investidores e da comunidade internacional.

No caso específico do BLS, os dados laborais norte-americanos são uma referência global, influenciam mercados, decisões de política monetária e estratégias empresariais em todo o mundo. Questionar abertamente a sua veracidade ou ameaçar os seus responsáveis pode ter efeitos muito mais profundos do que uma simples crise política interna.

Num momento em que a economia dos Estados Unidos dá sinais de desaceleração e em que os mercados já acusam nervosismo com o regresso de medidas comerciais disruptivas, a instabilidade gerada pelo próprio presidente só acrescenta ruído e incerteza. A tentativa de reescrever os factos a seu favor, por mais conveniente que seja do ponto de vista político, é um caminho perigoso que pode corroer os próprios alicerces do sistema económico e democrático.





A época de resultados prossegue esta semana a bom ritmo, com destaque para a divulgação das contas do segundo trimestre por parte de gigantes dos sectores energético, tecnológico, farmacêutico, industrial e financeiro. Entre os nomes em foco estão Aramco, Berkshire Hathaway, Palantir, AMD, McDonald's, Walt Disney, Caterpillar, Siemens, Deutsche Telekom, Allianz, Gilead Sciences, Pfizer, ConocoPhillips, Rheinmetall, BP, Petrobras, Airbnb, Diageo, Infineon, Glencore, Honda Motor, Commerzbank, Bayer, Maersk, Beiersdorf, Ralph Lauren e Uber, entre muitos outros.

Os investidores estarão atentos não só à evolução das receitas e dos lucros, mas sobretudo às perspectivas para o segundo semestre, num contexto de crescente incerteza geopolítica, impacto das tarifas e dúvidas quanto à resiliência da procura global.



Dados Económicos



Estados Unidos da América
Temos pela frente uma semana bastante mais ligeira de dados económicos do que a anterior, onde as atenções, após o choque dado pelos dados do emprego na passada sexta-feira, irão certamente recair sobre os números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego e no PMI de serviços do ISM, particularmente no subíndice do emprego.
Esta semana iremos ter a divulgação trimestral do “Loan Officer Survey”, que nos poderá dar uma melhor ideia da saúde do sistema financeiro e a confiança dos bancos na economia.
A semana começa com a divulgação dos números das encomendas às fábricas do mês de Junho, com as estimativas a apontarem para uma quebra de 5,2%, após o crescimento de 8,2% no mês anterior.
Na terça-feira, as atenções vão para índice PMI de serviços do ISM, onde o consenso aponta para uma subida de 50,8 para 51,5, e onde o mercado estará especialmente atento ao subíndice do emprego, com as estimativas a apontarem para uma subida de 47,2 para 48. Iremos ter também a leitura final do índice de serviços da S&P Global que deverá confirmar a leitura preliminar de 55,2. Teremos ainda os números da balança comercial de Junho que deverão apresentar um défice de 62,6 mil milhões de dólares, continuando a diminuir dos 71,5 mil milhões do mês anterior. O índice de optimismo económico RCM/TIPP deverá mostrar uma subida de 48,6 para 49,2.
Na quinta-feira iremos ter os habituais números semanais de ovos pedidos de subsídio de desemprego, onde as estimativas mostram uma subida dos 118 mil da semana anterior para 221 mil, e ainda números do crédito ao consumo de Junho que deverão mostrar, segundo as estimativas, um aumento dos 5,1 mil milhões de dólares do mês anterior, para 7,2 mil milhões de dólares.

Zona Euro
Teremos também por aqui uma semana mais tranquila, com a divulgação de alguns indicadores de segunda linha.
A semana começa com o indicador de confiança do investidor Sentix, onde o consenso aponta para uma subida de 4,5 para 6,2.
Na terça-feira iremos ter o índice de preços no produtor de Junho, que deverá, segundo as previsões, mostrar um aumento dos preços em 0,9%, após a contracção de 0,6% no mês de Maio. Teremos ainda a leitura final do PMI de serviços da S&P Global, que deverá confirmar a leitura preliminar de 51,2.
Na quarta-feira teremos os números das vendas a retalho de Junho que deverão mostrar um crescimento mensal de 0,4%, recuperando parte da queda do mês anterior de 0,7%.
A nível regional teremos:
Na Alemanha, as encomendas às fábricas deverão mostrar um aumento de 1%, a produção industrial que, segundo as previsões, deverá cair 0,6%, e a balança comercial que deverá manter em Junho um excedente de 18,3 mil milhões de euros, ligeiramente abaixo do mês anterior.
Em França a produção industrial deverá, segundo as previsões, aumentar 0,8%, após a queda de 0,5% no mês anterior, e a balança comercial deverá apresentar um défice de 7,5 mil milhões de euros, ligeiramente abaixo do défice anterior de 7,8 mil milhões de euros.
Em Itália, a produção industrial, após a queda de 0,7% no mês de Maio, deverá mostrar em Junho uma queda de 0,1%.
Em Espanha, o número de desempregados em Julho deverá reduzir-se em 21,3 mil, uma redução inferior à do mês de Junho de 48,9 mil.

Reino Unido
Uma semana bastante ligeira de dados económicos, onde iremos ter a leitura final do PMI de serviços da S&P Global e o PMI da construção, onde o consenso aponta para uma subida de 48,8 para 49,2, e índice de preço dos imóveis do Halifax do mês de Julho, com as estimativas a apontarem para uma subida de 0,1%, após a estabilização no mês de Junho.

Canadá
Por aqui as atenções vão para os dados do emprego, a divulgar no último dia da semana.
O mercado prevê que a economia canadiana mostre uma redução de 15 mil postos de trabalho em Julho, divididos entre uma queda de 3000 postos a tempo inteiro e 12 mil a tempo parcial. A taxa de desemprego deverá subir de 6,9% para 7%, com a taxa de participação a manter-se inalterada nos 65,4%.
Teremos também números da balança comercial de Junho, com as previsões apontarem para um défice de 1,6 mil milhões de dólares canadianos, reduzindo substancialmente o do mês anterior de 5,9 mil milhões.
Teremos ainda a divulgação do índice Ivey PMI, onde o consenso aponta para uma subida de 53,3 para 55,2.

Suíça
As atenções começam por ir para os dados da inflação, logo nas primeiras horas da semana. Os preços em Julho, em termos mensais, deverão mostrar uma queda de 0,2%, anulando a subida registada do mesmo valor no mês de Junho, com a inflação em termos anuais a manter-se nos 0,1%.
Iremos ter também o índice PMI manufactureiro, que deverá mostrar uma subida de 49,6 para 49,8.
Teremos ainda a divulgação da taxa de desemprego, que se deverá manter nos 2,9%, e o índice de confiança do consumidor SECO, que deverá mostrar uma subida de -332 para -30.

China
As atenções esta semana estarão focadas nos números de Julho da balança comercial e da inflação.
Antes iremos ter o PMI de serviços da S&P Global, que deverá também mostrar um arrefecimento na actividade de serviços, com o índice a recuar de 50,6 para 50,4.
A balança comercial deverá, segundo as previsões, mostrar um recuo dos 114,7 mil milhões de dólares no mês de Junho, para 103,5 mil milhões em Julho, com as exportações a desacelerarem de 5,8% para 5,1% e as importações a aumentarem de 1,1% para 1,3%.

Já com os mercados financeiros encerrados, nas primeiras horas de sábado, iremos ter os dados da inflação. As previsões apontam para uma inflação negativa em termos anuais de -0,1%, caindo dos 0,1% do mês anterior, com os preços em termos mensais a mostrarem um aumento de 0,3%, após a queda de 0,1% no mês de Junho. O índice de preços no produtor deverá continuar a mostrar deflação, aumentando de -3,6% para -3,8%.

Japão
Uma semana com alguns dados económicos de relevo começando com os ganhos salariais médios, com as previsões a apontarem para uma aceleração de 1,4% do mês anterior, para 3,2% em Junho.
Teremos também os dados da despesa das famílias, que deverá mostrar um abrandamento em termos homólogos de 4,7% para 2,6%, com a medida em termos mensais a mostrar uma queda de 3%.
Os números da conta-corrente deverão cair dos 3436 mil milhões de ienes em Maio, para 1480 mil milhões em Junho.
Por fim, o índice da confiança dos observadores económicos deverá mostrar em Julho uma subida ligeira de 45,0 para 45,5.

Nova Zelândia
Esta semana o destaque vai para os números do mercado de trabalho, com as atenções a serem ainda divididas entre os dados das expectativas de inflação e do índice de custo laboral.
A taxa de desemprego no segundo trimestre deverá subir dos 5,1% do trimestre anterior, para 5,3%, com a taxa de participação a cair de 70,8% para 70,7%, e com o número de postos de trabalho a cair 0,2%, após o crescimento de 0,1% no trimestre anterior. O índice de custo laboral deverá mostrar uma aceleração dos 0,4% para 0,5%.
Teremos ainda as expectativas de inflação para este terceiro trimestre, onde as estimativas apontam para um abrandamento dos 2,29% do trimestre anterior, para 1,8%.

Austrália
O destaque vai para a divulgação dos números da balança comercial de Junho, onde as previsões apontam para um excedente de 3,25 mil milhões de dólares australianos, um crescimento face aos 2,24 mil milhões do mês anterior.



Bancos Centrais



The Bank of England
O Banco de Inglaterra reúne-se esta semana e é amplamente expectável que reduza a taxa de juro directora em 25 pontos base, para 4%, dando seguimento ao ciclo de cortes trimestrais que tem vindo a adoptar. No entanto, por detrás desta decisão aparentemente consensual, crescem as divisões internas entre os decisores de política monetária. Espera-se uma votação repartida, com alguns membros a defenderem a manutenção das taxas, outros a apoiarem um corte de 25 pontos base e ainda uma ala mais dovish a favor de uma redução mais agressiva de 50 pontos. Este cenário sublinha as divergências quanto à avaliação da evolução da inflação e da resiliência da economia britânica.

O Banco Central do México
Após o último corte de taxas de 50 pontos base que trouxe a taxa de juro directora para os 8%, deverá esta semana continuar o ciclo de flexibilização da política monetária, perante sinais de desaceleração económica e de incertezas causadas pelas tarifas norte-americanas.


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