A semana que começa
Tensões geopolíticas, inflação e emprego
Preocupações geopolíticas, inflação na Zona Euro e dados do mercado de trabalho nos Estados Unidos da América, irão estar no centro das atenções na primeira semana completa de 2026.
A primeira semana de 2026 irá contar com um conjunto alargado e relevante de indicadores económicos a nível global. Como sempre, as atenções irão estar principalmente nos dados norte-americanos e europeus.
Nos Estados Unidos serão os números do relatório do mercado de trabalho que irão estar no palco central, enquanto na Europa serão os dos preços. Ambos irão ter um impacto directo nas expectativas do mercado relativamente a futuras decisões de política monetária tanto da Reserva Federal dos Estados Unidos como do Banco Central Europeu.
O ano começa com mais um foco de preocupação com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela.

Venezuela, Ucrânia e Taiwan: o precedente geopolítico que pode mudar as regras do jogo
A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que terá resultado na captura de Nicolás Maduro, representa um dos momentos geopolíticos mais delicados e potencialmente transformadores dos últimos anos. Mais do que um episódio isolado na América Latina, esta operação estabelece um precedente que poderá ter implicações profundas no equilíbrio internacional, nomeadamente na guerra da Ucrânia, na questão de Taiwan e noutras disputas estratégicas globais.
A reacção internacional foi imediata. Diversos líderes latino-americanos condenaram a operação, com a excepção notória do Presidente argentino Javier Milei. A Rússia reagiu com veemência, exigindo esclarecimentos e classificando a acção como uma agressão injustificável, embora sem avançar com qualquer apoio militar a Caracas. A China, por seu lado, limitou-se a críticas diplomáticas, evitando qualquer escalada.
Este comportamento de Moscovo e Pequim revela uma realidade incómoda: nem a Rússia, nem a China parecem dispostas a colocar em risco interesses estratégicos mais amplos por causa da Venezuela. Para ambos, Caracas sempre foi sobretudo um activo táctico — energético, político e simbólico — e não um compromisso existencial.
Contudo, o verdadeiro impacto desta intervenção reside naquilo que vários analistas designam como a “jurisprudência geopolítica” que ela cria. Ao capturar um chefe de Estado estrangeiro em território soberano, sem mandato internacional nem declaração de guerra, Washington enfraquece significativamente o argumento normativo do Ocidente quando exige respeito pela soberania ucraniana ou contenção chinesa no Indo-Pacífico. A mensagem implícita é perigosa: a força pode, mais uma vez, sobrepor-se às regras.
Este precedente é observado atentamente por Moscovo e, sobretudo, por Pequim. O Presidente Xi Jinping, que voltou recentemente a reafirmar a prioridade estratégica da “reunificação” com Taiwan, poderá interpretar este episódio como uma legitimação tácita do uso de métodos de força para alcançar objectivos políticos e territoriais. Se os Estados Unidos podem intervir directamente na Venezuela sob o pretexto de segurança e narcotráfico, por que razão a China não poderia usar uma lógica semelhante no Estreito de Taiwan?
Na frente europeia, a Rússia encontra uma oportunidade retórica neste episódio. Moscovo pode agora argumentar que a lógica utilizada por Washington na Venezuela não difere substancialmente da que o Kremlin invocou para a invasão da Ucrânia. Esta equivalência, ainda que falaciosa do ponto de vista jurídico, é politicamente útil e fragiliza o discurso ocidental sobre legalidade internacional.
Ao mesmo tempo, o episódio expõe a natureza profundamente transaccional da política externa de Donald Trump. O seu histórico demonstra que os compromissos estratégicos são vistos como activos de negociação. Neste contexto, não é descabido admitir que dossiers como a Venezuela, a Ucrânia e Taiwan passem a integrar uma mesma equação de poder, em que concessões num teatro de operações possam servir de moeda de troca noutro.
É nesta lógica que ganham relevo episódios aparentemente desconexos, como a obsessão recorrente de Trump com a Gronelândia. Mais do que uma excentricidade, trata-se da expressão de uma visão geopolítica centrada em território, recursos naturais, controlo de rotas estratégicas e afirmação de poder directo. A Venezuela, com as maiores reservas de petróleo do mundo, encaixa perfeitamente neste modelo de actuação.
O factor energético é, aliás, absolutamente central. O futuro do petróleo venezuelano terá impacto directo nos mercados globais, na estabilidade de regimes aliados da Rússia, como Cuba e Nicarágua, e no próprio equilíbrio das relações internacionais. Uma abertura total da produção poderia provocar uma queda abrupta dos preços globais, redesenhando o mapa energético e financeiro.
Em suma, a operação na Venezuela não é apenas sobre Caracas. É sobre a redefinição silenciosa das regras do jogo internacional. E as suas consequências poderão sentir-se muito para além da América Latina — na Ucrânia, em Taiwan, no Árctico, em África e em qualquer região onde o poder, os recursos e a geopolítica se cruzem.
O mundo entra, assim, numa fase em que as fronteiras entre diplomacia, coerção económica e intervenção directa se tornam cada vez mais difusas, exigindo dos decisores e dos investidores uma leitura muito mais cuidadosa dos riscos sistémicos globais.
Implicações para os mercados financeiros e para o mercado cambial
Este novo enquadramento geopolítico tem reflexos directos e imediatos nos mercados financeiros. A incerteza política e a erosão das regras da ordem internacional tendem a aumentar os prémios de risco, a reforçar a volatilidade e a tornar os fluxos de capitais mais sensíveis a qualquer alteração na percepção de estabilidade global.
Nos mercados accionistas, este tipo de ambiente favorece movimentos mais selectivos, com os investidores a privilegiarem sectores defensivos, empresas ligadas à energia, defesa e matérias-primas, bem como activos considerados de refúgio.
No mercado obrigacionista, a incerteza geopolítica soma-se às preocupações orçamentais e monetárias, contribuindo para uma maior pressão sobre as taxas de juro de longo prazo, em especial nas economias mais expostas ao risco político e energético.
No mercado cambial, o impacto é ainda mais evidente. O dólar tende a beneficiar em fases iniciais de tensão, pela sua natureza de activo de refúgio e moeda de reserva global, embora essa força possa tornar-se mais instável se o próprio papel dos Estados Unidos como garante da ordem internacional começar a ser questionado. O euro permanece vulnerável, condicionado pela proximidade do conflito ucraniano e pelas fragilidades políticas internas da Zona Euro. As moedas emergentes, em particular as mais dependentes de energia e financiamento externo, tendem a sofrer maior pressão em contextos de escalada geopolítica.
O episódio da Venezuela reforça a ideia de que o risco geopolítico voltou a assumir um papel estrutural na formação de preços dos activos financeiros. Para investidores e operadores de mercado, em particular no mercado cambial, isto traduz-se na necessidade de uma leitura permanente do contexto político internacional, de uma gestão de risco rigorosa e de uma abordagem cada vez mais disciplinada e estratégica.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
As atenções voltam-se de novo para os importantes dados do mercado de trabalho, com a divulgação dos nonfarm payrolls no último dia da semana.
Os mercados estimam que em Dezembro a economia norte-americana tenha aumentado em cerca de 55 mil os postos de trabalho, com a taxa de desemprego a cair dos 4,6% de Novembro, a mais elevada em mais de quatro anos, para 4,5%, e o crescimento salarial por hora de trabalho a acelerar do crescimento de 0,1% em Novembro, para 0,3%.
Antes, iremos ter logo na segunda-feira, a divulgação do ISM PMI manufactureiro que, segundo as estimativas, deverá mostrar uma subida ligeira de 48,2 para 48,3. O mercado irá estar atento aos subíndices do emprego e dos preços, onde as previsões apontam também para subidas ligeiras.
Na quarta-feira, os mercados irão estar atentos aos primeiros dados do mercado de trabalho, com a divulgação dos números de postos de trabalho do sector privado, ADP, onde as estimativas mostram um aumento de 47 mil no mês de Dezembro, após a redução de 32 mil empregos em Novembro. Teremos também os números das vagas de emprego JOLTS, onde as estimativas apontam para um ligeiro crescimento de 7,67 milhões de vagas para 7,69 milhões. Teremos também os dados do ISM para a actividade de serviços, com as estimativas a apontarem para uma queda do índice de 52,6 para 52,3, mantendo-se em expansão. Teremos ainda os números das encomendas às fábricas que, após um aumento ligeiro de 0,2%, as previsões apontam agora para uma redução de 1,1%.
Quinta-feira é a vez de termos os números semanais dos novos pedidos de subsídio de desemprego que, segundo as estimativas, deverão subir dos 199 mil da última semana de 2025, para 216 mil. Teremos também os dados atrasados dos custos laborais do terceiro trimestre e os números da balança comercial de Outubro devido ao shutdown governamental. Os primeiros deverão mostrar um aumento de 0,5%, abaixo dos 1% do trimestre anterior, e os segundos um défice de 58,5 mil milhões de dólares, após o défice de 52,8 mil milhões do mês anterior.
Na sexta-feira, além dos importantes nonfarm payrolls, a semana terminará com a divulgação dos dados preliminares da Universidade de Michigan da confiança do consumidor e das expectativas da inflação. O primeiro deverá, segundo as estimativas, subir de 52,9 para 53,5, enquanto as expectativas de inflação deverão manter-se em torno dos recentes níveis, com as de curto prazo a ficarem nos 4,2% e as expectativas a cinco anos a caírem de 3,2% para 3,1%. Teremos ainda os dados do mercado imobiliário de Setembro e Outubro das licenças de construção e do início de construção de imóveis.
Zona Euro
Por aqui as atenções vão para os dados dos preços. As estimativas apontam para que os preços em Dezembro tenham aumentado 0,3%, após a redução de 0,3% em Novembro, com a inflação total em termos anuais a manter-se nos 2,1% e a inflação nos 2,4%.
Antes dos dados da inflação da Zona Euro iremos ter na terça-feira os da Alemanha, onde as previsões apontam para um crescimento mensal dos preços de 0,3% e a inflação anual a cair de 2,3% para 2,0%. Os dados de França deverão mostrar um crescimento mensal dos preços de 0,2%, com a inflação anual a manter-se nos 0,9%.
Teremos também os dados da inflação à porta das fábricas, onde as estimativas apontam para que o Índice de Preços do Produtor mostre um aumento mensal de 0,4%, acelerando dos 0,1% do mês anterior.
Esta semana na Zona Euro teremos ainda os dados finais do PMI de serviços, onde não são esperadas alterações ao número preliminar de 52,6, a taxa de desemprego que se deverá manter nos 6,4%, e os números das vendas a retalho que, após a estagnação verificada em Setembro, deverão mostrar um crescimento anémico de 0,1% em Novembro.
A nível regional:
Em Itália, a taxa de desemprego em Novembro deverá manter-se nos 6,0% e as vendas a retalho a mostrarem uma desaceleração de 0,5% do mês anterior para 0,3%.
Na Alemanha iremos ter os números das vendas a retalho que deverão mostrar um crescimento de 0,2%, recuperando parte da queda anterior de 0,3%. A taxa de desemprego deverá manter-se nos 6,3%. As encomendas às fábricas de Novembro deverão mostrar uma redução de 0,7%, após o aumento de 1,5% no mês anterior, e os números da produção industrial deverão mostrar uma queda de 0,3% em Novembro, após o crescimento de 1,8% em Outubro. A balança comercial, segundo as previsões, deverá reduzir marginalmente o excedente anterior de 16,9 mil milhões de euros para 16,7 mil milhões.
Em França, o défice da balança comercial de 3,9 mil milhões de euros anterior, deverá aumentar para 4,2 mil milhões, a produção industrial deverá estabilizar, após o crescimento anterior de 0,2%, e a confiança do consumidor deverá mostrar uma ligeira melhoria, com o índice a subir de 89 para 90.
Reino Unido
Uma semana relativamente tranquila por aqui onde iremos ter a leitura final do PMI de serviços e o PMI da construção onde as estimativas apontam para uma subida de 39,4 para 42,7.
Teremos os números da aprovação de hipotecas, com as previsões a apontarem para uma ligeira diminuição de 65 mil para 64 mil, e os empréstimos líquidos a particulares a caírem de 5,4 mil milhões de libras para 5,2 mil milhões.
Iremos ter o índice de vendas a retalho like-for-like do BRC, que deverá, segundo o consenso, mostrar uma desaceleração nas vendas dos 1,2% anterior para 0,6%.
O índice de preço das casas Halifax deverá mostrar um crescimento de 0,1%, após a estabilização mostrada no mês anterior.
Canadá
Por aqui é também a semana de dados do mercado de trabalho. Segundo as previsões, a taxa de desemprego deverá subir de 6,5% para 6,7%, mas com a taxa de participação a aumentar de 65,1% para 65,3%. O número de novos postos de trabalho, segundo as previsões, deverá mostrar uma redução de 5 mil empregos.
Teremos também o número da balança comercial, onde as previsões apontam para um défice de 1,5 mil milhões de dólares canadianos, após um excedente de 200 milhões no mês anterior.
O índice Ivey PMI deverá subir de 48,4 para 49,5.
Suíça
As atenções vão para a divulgação dos dados da inflação, com as previsões a apontarem para uma subida em Dezembro de 0% para 0,1%, em termos homólogos, com os preços em termos mensais a estabilizarem após a queda de 0,2% no mês anterior.
Logo no início da semana teremos os dados das vendas a retalho que deverão mostrar um aumento mensal em Novembro de 0,1%, desacelerando dos 0,7% no mês anterior, onde em termos homólogos deverão mostrar um aumento de 2,5%, após os 2,7% no mês anterior.
Teremos ainda a taxa de desemprego que se deverá manter nos 3% e ainda os números das reservas em moeda estrangeira do Banco Nacional da Suíça.
China
A inflação será o destaque da semana, onde as previsões apontam para que mostre uma ligeira aceleração de 0,7% para 0,8% em termos anuais e onde a inflação à porta das fábricas continue a mostrar um valor negativo, mas desacelerando dos -2,2% do mês anterior para -1,5%.
Iremos ter também o índice PMI de serviços da RatingDog, com as estimativas a apontarem para um ligeiro recuou de 52,1 para 52,0.
Japão
Iremos ter os dados da média de ganhos salariais, que deverão mostrar um aumento de 2,3%, desacelerando dos 2,6% mostrados no mês anterior.
Teremos os dados da confiança do consumidor, onde as estimativas apontam para uma ligeira melhoria de 37,5 para 37,8.
Teremos ainda os dados da despesa das famílias que deverão mostrar de novo uma queda, desacelerando dos -3,0% do mês anterior para -1,0%.
Austrália
As atenções voltam-se para os dados da inflação, com as previsões a apontarem para uma queda ligeira dos 3,8% do mês de Outubro para 3,7% em Novembro. Em termos mensais, os preços deverão mostrar uma subida de 0,4%, após a estabilização mostrada no mês anterior, com a medida mais observada pelo RBA, a Trimmed Mean, que exclui 30% dos itens mais voláteis, a poder mostrar, segundo as previsões, uma queda dos 3,3% para 3,1%.
Iremos ter os dados das licenças de construção de Novembro, que deverão mostrar um aumento de 2,1%, após a redução anterior de 6,4%.
Teremos ainda os números da balança comercial de Novembro que deverão mostrar um excedente de 5,2 mil milhões de dólares australianos, após os 4,4 mil milhões apresentados no mês anterior.