A semana que começa
Bancos centrais, emprego e resultados

A semana que começa Bancos centrais, emprego e resultados

Na primeira semana de Fevereiro as atenções irão estar especialmente dirigidas para a reunião de política monetária do BCE, para os dados do emprego nos Estados Unidos e para mais resultados empresariais de grandes tecnológicas

As tensões geopolíticas, a volatilidade no mercado dos metais, o “debasement trade” irão estar na linha da frente das preocupações dos mercados logo no início da primeira semana de Fevereiro. Uma semana que irá contar com uma bem preenchida agenda económica, onde o foco estará nos dados do emprego nos Estados Unidos e nos da inflação da Zona Euro. A acrescentar iremos ter as primeiras reuniões de política monetária na Zona Euro e no Reino Unido. Tudo isto quando continuam em força as apresentações de resultados corporativos.




Trump, Irão, Cuba e risco tarifário

No plano geopolítico, os mercados seguem de perto a escalada retórica de Donald Trump face ao Irão, num momento em que as tensões internas e regionais aumentam o risco de incidentes com impacto no petróleo. Os prémios de risco no crude têm reagido a cada oscilação na probabilidade percebida de conflito, num mercado que continua a equilibrar riscos de oferta com sinais de abrandamento da procura global.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca abriu uma nova frente com Cuba, através de uma ordem executiva que prevê tarifas adicionais sobre bens provenientes de países que forneçam petróleo à ilha, medida que visa sobretudo pressionar o México e outros fornecedores. Esta estratégia insere‑se na linha dura retomada por Trump em relação a Havana, com o reforço do embargo e a caracterização do regime cubano como ameaça “extraordinária” para a segurança dos EUA. O risco para os mercados é que esta lógica de coerção económica se alargue, com a Administração a usar a ameaça tarifária de forma mais abrangente.





“Debasement trade”, metais e dólar

Num contexto em que os bancos centrais caminham para a fase final do ciclo restritivo, ganham expressão as preocupações com o chamado “debasement trade”, a tese de que níveis elevados de dívida pública, défices persistentes e maior tolerância à inflação próxima (ou ligeiramente acima) da meta acabam por corroer, lentamente, o valor real das principais moedas. Esta narrativa continua a alimentar a procura por activos reais, como ouro e outros metais, ao mesmo tempo que reforça o apelo relativo de activos tangíveis em detrimento da dívida de longo prazo.

A volatilidade nos metais poderá manter-se elevada, num quadro em que os mercados cruzam factores macro (inflação, taxas reais, dólar) com riscos geopolíticos crescentes, em particular no Médio Oriente. Se os dados norte‑americanos reforçarem a percepção de que a Fed poderá cortar mais cedo ou mais agressivamente, o dólar pode voltar a perder fôlego, reavivando fluxos para moedas cíclicas e activos sensíveis ao ciclo global.





Esta semana arranca uma nova e intensa ronda de resultados empresariais, com gigantes como Amazon, Alphabet, Qualcomm, Palantir, AMD e Walt Disney no radar dos investidores, procurando sinais sobre consumo, publicidade digital e inovação tecnológica.
No sector farmacêutico, Merck, Pfizer, Amgen, Eli Lilly e AbbVie divulgam dados que poderão revelar a resiliência das vendas, pipelines de medicamentos e impactos regulatórios, enquanto empresas de consumo e serviços como PepsiCo, Uber e Philip Morris oferecem pistas sobre padrões de gasto e adaptação a custos elevados.



Dados Económicos



Estados Unidos da América
A primeira semana de Fevereiro será bastante bem preenchida de indicadores económicos, com as atenções a irem especialmente para os do relatório do mercado de trabalho a divulgar no último dia da semana.
A semana começa com o ISM manufactureiro, onde o consenso do mercado aponta para uma subida de 47,9 para 48,3, com o subíndice do emprego a manter-se inalterado em torno de 44,9.
Na terça-feira é a vez de termos os números do JOLTS, das vagas de emprego, onde as previsões mostram um aumento das 7,15 milhões de vagas em Novembro, para 7,2 milhões em Dezembro. Teremos também o índice de optimismo económico RCM/TIPP que deverá subir de 47,2 para 47,9.
Na quarta-feira teremos o relatório privado do emprego ADP, onde as previsões mostram um aumento de 48 mil novos postos de trabalho, subindo dos 41 mil do mês anterior de Dezembro. Teremos também o ISM de serviços onde, segundo as estimativas, deverá recuar de 54,4 para 53,8, com o subíndice do emprego a manter-se nos 52 e o dos preços a cair ligeiramente de 64,3 para 64.
Na quinta-feira iremos ter o habitual número semanal dos novos pedidos de subsídio de desemprego, com as estimativas a apontarem para nova subida, desta vez de 209 mil para 213 mil pedidos.
Por fim, teremos o destaque da semana, o relatório do emprego. As previsões apontam para que a economia norte-americana em Janeiro tenha criado 70 mil novos postos de trabalho, com a taxa de desemprego a manter-se nos 4,4% e a média salarial tenha aumentado no mês 0,3%, em linha com o mês anterior. Iremos ter ainda os dados preliminares da Universidade de Michigan da confiança do consumidor, onde o consenso de mercado mostra uma queda de 56,4 para 55,8, com as expectativas de inflação de curto prazo a manterem-se estáveis, nos 4% e as de mais longo prazo nos 3,3%.

Zona Euro
O foco das atenções esta semana recai sobre os dados agregados da inflação na União Europeia. As previsões apontam para uma redução mensal dos preços em Janeiro de 0,4%, após o aumento de 0,2% em Dezembro, com a inflação anual a cair de 1,9% para 1,8%, onde, sem alimentos nem energia, deverá manter-se nos 2,3%.
Iremos ter também o índice de preços no produtor, que deverá mostrar um aumento mensal de 0,2%, desacelerando dos 0,5% apresentados no mês anterior.
Teremos também os números das vendas a retalho de Dezembro, com as previsões a mostrarem um aumento mensal de 0,3%, acelerando dos 0,2% de Novembro. Serão ainda divulgados os números finais do PMI.
Na Alemanha, iremos ter os números das vendas a retalho que, segundo as previsões, mostrarão uma redução de 0,1%, melhor que a de 0,6% apresentada no mês anterior. As encomendas às fábricas deverão apresentar uma queda mensal de 1,3%, após o aumento de 5,6% em Novembro. A produção industrial deverá também mostrar uma redução, de 0,3%, após o aumento anterior de 0,8%. Os números da balança comercial de Dezembro deverão mostrar um excedente de 14,5 mil milhões de euros, face a 13,1 mil milhões no mês anterior.
Em França, a inflação deverá mostrar uma queda de 0,8% para 0,6%, com os preços em termos mensais a aumentarem 0,1%, em linha com o mês anterior. A produção industrial, segundo as previsões, mostrará um aumento de 0,1%, após a contracção de 0,1% no mês anterior e os números da balança comercial mostrarão um défice de 4,1 mil milhões de euros, ligeiramente abaixo do défice anterior de 4,2 mil milhões.
Em Itália iremos ter a divulgação dos dados da actividade económica privada, onde o PMI composto deverá mostrar uma subida de 50,3 para 50,7, onde o manufactureiro sobe de 47,9 para 48,8 e o de serviços de 51,5 para 51,9. A inflação de Janeiro deverá mostrar uma queda de 1,2% para 0,9%, com os preços em termos mensais a subirem 0,3%, acelerando dos 0,2% no mês anterior. Teremos ainda os números das vendas a retalho, onde as previsões apontam para um aumento em Dezembro de 0,4%, ligeiramente inferior ao aumento de 0,5% no mês anterior.
Em Espanha, teremos também os dados da actividade económica privada. O PMI composto deverá subir ligeiramente de 55,6 para 55,7, com o PMI manufactureiro a subir de 49,6 para 49,8 e o de serviços de 57,1 para 57,2.

Reino Unido
Iremos ter o PMI da construção, que deverá mostrar uma subida dos 40,1 para 42, e ainda os números finais dos PMI manufactureiro e de serviços, onde as estimativas do mercado apontam para que o primeiro se mantenha inalterado e o segundo mostre um revisão em baixo da leitura preliminar de 54,3 para 54,1.
Iremos ter a divulgação do índice do preço de imóveis da Nationwide que, segundo as previsões, deverá mostrar uma subida de 0,3%, após a queda de 0,4% no mês anterior, tal como o índice Halifax, mais tarde, deverá mostrar também uma subida de 0,2%, após a queda de 0,6% anterior.

Canadá
Por aqui é semana de dados do emprego. As previsões apontam para que a economia canadiana tenha criado 7.300 novos empregos, onde a taxa de desemprego se mantém inalterada nos 6,8% e com a taxa de participação a subir de 65,4% para 65,5%.
Teremos ainda o índice IVEY PMI, onde as estimativas mostram uma queda de 51,9 para 49,7, e ainda os PMI da S&P Global, onde o índice composto deverá mostrar uma subida de 46,7 para 47,2, com o manufactureiro a subir de 48,6 para 48,9 e o de serviços de 46,5 para 47,0.

Suíça
A semana começa com a divulgação dos números das vendas a retalho de Dezembro que, segundo as previsões, deverão mostrar um aumento de 0,4%, acelerando dos 0,1% no mês anterior. Teremos também o PMI manufactureiro que deverá subir de 45,8 para 46,2.
A semana terminará com a divulgação da taxa de desemprego de Janeiro, que se deverá manter nos 3,1%.

China
Após os PMIs oficiais na semana anterior, é a vez de termos os privados da RatingDog, que deverão mostrar que a actividade privada contraiu em Janeiro, tal como o mostrado pelos PMIs oficiais anteriormente. O índice composto da RatingDog deverá, segundo as estimativas, mostrar uma queda de 51,3 para 50,9, com o índice industrial a subir de 50,1 para 50,5, mas com o de serviços a cair de 52 para 51,5.

Japão
Uma semana bastante vazia de indicadores económicos de primeira linha, onde as atenções irão especialmente para os números da despesa das famílias que, segundo as previsões, deverão mostrar uma queda de 0,3%, em termos homólogos, após o aumento de 2,9% anterior.

Nova Zelândia
As atenções esta semana irão estar nos dados do mercado de trabalho. As previsões apontam para que no quarto trimestre de 2025 o número de empregos tenha crescido 0,3%, após a estabilidade mostrada no trimestre anterior. A taxa de desemprego deverá manter-se nos 5,3%, com a taxa de participação a subir de 70,3% para 70,5%. O índice de custo laboral deverá mostrar uma subida de 0,5%, em linha com o mostrado no trimestre anterior.
A semana começa com a divulgação dos números de licenças de construção no mês de Dezembro, que deverão mostrar um aumento de 1%, após o de 2,8% no mês anterior.

Austrália
No que respeita a dados económicos, temos uma semana bastante ligeira.
Começamos com os dados do anúncio de empregos do ANZ que, após a redução de 0,5% em Dezembro, começam o ano a mostrar nova redução, desta vez de 0,1%.
Teremos os números das licenças de construção que deverão mostrar uma redução de 6,4%, após o aumento de 15,2% no mês anterior.
Os números da balança comercial de Dezembro deverão mostrar um excedente de 3,4 mil milhões de dólares australianos, após o de 2,9 mil milhões no mês anterior.



Bancos Centrais



O Banco Central Europeu

A reunião desta semana do BCE deverá confirmar a actual fase de estabilidade da política monetária. Tudo indica que o BCE manterá a taxa de depósito inalterada nos 2,00%, em linha com o consenso do mercado e com as expectativas já incorporadas nos preços dos activos financeiros.
Apesar do aumento da incerteza geopolítica desde Dezembro, o enquadramento económico de curto prazo permanece relativamente sólido. A economia da área do euro cresceu 0,3% no quarto trimestre de 2025, acima do esperado, e a taxa de desemprego desceu para 6,2%. O crescimento foi suportado pelo consumo privado, reforçando a avaliação do BCE de que a economia se encontra num “bom ponto”.
No mercado cambial, o euro ganhou força face ao dólar, com o EUR/USD a ultrapassar os 1,20. Ainda assim, em termos efectivos, a valorização do euro tem sido limitada e o seu impacto na inflação permanece reduzido. As expectativas de inflação continuam ancoradas, pelo que dificilmente a recente apreciação cambial será vista como um factor de preocupação relevante para o BCE. Christine Lagarde deverá reiterar que a taxa de câmbio é apenas uma das variáveis monitorizadas, sem qualquer objectivo específico.
Do lado da inflação, os dados mais recentes apontam para alguma moderação, sobretudo nos bens, apesar de a inflação nos serviços continuar persistente. Os efeitos de base da energia deverão contribuir para uma descida da inflação no início de 2026, mas, com o crescimento a manter-se resiliente, a fasquia para novos cortes de taxas permanece elevada.
Neste contexto, é expectável uma reacção contida dos mercados. O BCE deverá evitar novos sinais de política monetária, preferindo aguardar pelas projecções de Março, mantendo a taxa de depósito nos 2,00% ao longo de 2026 e 2027.

O Banco de Inglaterra
A reunião desta semana do Banco de Inglaterra deverá confirmar a manutenção da taxa directora nos 3,75%, um desfecho totalmente antecipado pelos mercados. Depois do corte decidido por uma margem muito estreita na reunião de Dezembro, tudo indica que a maioria do Comité de Política Monetária preferirá agora aguardar por sinais mais claros de desinflação e de arrefecimento do mercado de trabalho antes de avançar com novos cortes.
Os dados económicos recentes surgiram ligeiramente do lado mais restritivo. A actividade mostrou sinais de melhoria no final de 2025, com o PIB de Novembro a crescer 0,3% em cadeia, e os indicadores de confiança apontam para um início de ano mais sólido. No entanto, as pressões inflacionistas continuam presentes, apesar de alguns dados recentes terem surpreendido em baixa.
A inflação subiu para 3,4% em Dezembro, acima do esperado, enquanto a inflação subjacente se manteve nos 3,2%. No mercado de trabalho, apesar do aumento das perdas de emprego em Dezembro, o crescimento salarial continua elevado, ainda que em desaceleração, com os salários médios a crescerem 4,5%.
Neste contexto, o Banco de Inglaterra deverá adoptar uma postura cautelosa, reforçando uma mensagem de dependência dos dados e evitando dar sinais claros de cortes adicionais no curto prazo.

O Reserve Bank of Australia
O consenso aponta para que o banco central da Austrália suba a sua taxa directora de juros dos actuais 3,60% para 3,85%.
A inflação australiana acelerou no quarto trimestre de 2025, reforçando as expectativas de nova acção do RBA. O indicador subjacente (trimmed mean) subiu para 3,4% em termos homólogos, acima das projecções e do intervalo-alvo de 2% a 3%. As pressões permanecem concentradas nos serviços, em particular na habitação e nos sectores de lazer e cultura, apontando para uma inflação mais persistente do que o previsto.
A leitura contraria a avaliação optimista feita pelo RBA em Novembro, que antecipava uma moderação das pressões no final do ano. O mercado de trabalho continua resiliente, com o desemprego a recuar para 4,1%, embora o aumento do emprego a tempo parcial atenue o impacto sobre o consumo.
Com a inflação ainda distante do objectivo, o consenso aponta para uma subida de 25 pontos base na reunião de Fevereiro. A decisão deverá, contudo, manter uma abordagem prudente, reflectindo o cuidado em equilibrar o controlo da inflação com o suporte à actividade económica.

O Banco do México
O banco central mexicano após ter reduzido a sua taxa de juro de 11,25 em Fevereiro de 2024, até aos actuais 7% em Dezembro de 2025, deverá manter a sua taxa inalterada na primeira reunião de política monetária deste ano de 2026.


O que pensa sobre este tema?