A semana que começa
Tarifas, geoestratégia e resultados
As tarifas de Donald Trump irão seguramente ter o foco noticioso durante esta semana, onde as atenções continuarão também a estar nas negociações entre os Estados Unidos e o Irão, além de resultados da Nvidia
Uma semana em que Donald Trump fará o seu discurso do Estado da União, onde nos resultados empresariais os investidores irão ter acesso às contas da Nvidia e na frente macroeconómica iremos ter os primeiros dados dos preços de Fevereiro na União Europeia.

Uma semana que começa carregada de acontecimentos, e dificilmente poderia começar com um pano de fundo mais agitado. Na sexta-feira passada, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos derrubou, por seis votos contra três, as tarifas abrangentes que Donald Trump havia imposto à quase totalidade dos parceiros comerciais do país, invocando legislação de emergência dos anos 70. A decisão foi clara: a lei que servia de base às tarifas "não autoriza o Presidente a impor tarifas", concluiu a maioria, numa opinião redigida pelo presidente do tribunal, o juiz John Roberts.
Trump respondeu com a rapidez e a contundência que lhe são características. Horas após a decisão, assinou uma ordem executiva impondo uma nova tarifa global de 10% (que mais tarde subiu para 15%) ao abrigo da Secção 122 da Lei do Comércio de 1974, classificando os juízes que votaram contra ele como uma "vergonha para o país", incluindo dois magistrados que ele próprio nomeou. Estas novas tarifas, porém, têm um prazo máximo de 150 dias, salvo aprovação do Congresso para prorrogação. A disputa está, portanto, longe de terminar, e a semana será dominada pelas suas consequências: como reagirão os mercados, o que farão os parceiros comerciais europeus e asiáticos, e até onde chegará a determinação de Trump em manter a sua política comercial por outros caminhos jurídicos.

A par das tarifas, as atenções continuarão a estar postas nas negociações entre Washington e Teerão. As conversações nucleares entre os dois países têm estado a decorrer de forma discreta mas tensa. Após negociações com os enviados de Trump, Jared Kushner e Steve Witkoff, os iranianos comprometeram-se a regressar nas duas semanas seguintes com propostas detalhadas para preencher as lacunas ainda existentes entre as duas partes. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, descreveu progressos no estabelecimento de "princípios orientadores" para um potencial acordo, mas o caminho continua longo e minado de dificuldades. Em pano de fundo, os Estados Unidos têm dois porta-aviões posicionados na região do Golfo, e Trump não descartou publicamente a opção militar. A terceira ronda de negociações deverá ter lugar nos próximos dias, e qualquer sinal de avanço ou rutura terá implicações imediatas nos mercados de petróleo e na estabilidade regional.

No plano político interno americano, a terça-feira será uma noite de grande visibilidade para Trump: é o dia do seu discurso do Estado da União perante o Congresso, o primeiro de carácter formal neste segundo mandato. Trump deverá centrar o discurso no tema da acessibilidade económica, destacando os esforços da sua administração para reduzir o custo de vida. Mas o contexto não podia ser mais difícil: a derrota no Supremo Tribunal na semana passada, as sondagens em baixa e um parcial encerramento de serviços federais complicam a narrativa de sucesso que qualquer presidente procura construir antes das eleições intercalares de Novembro. Do lado democrata, um número crescente de congressistas anunciou que não comparecerá ao discurso, preferindo participar em manifestações fora do Capitólio.

A temporada de resultados empresariais continua intensa, com vários nomes de peso a divulgar os números do quarto trimestre e do ano fiscal. O destaque absoluto vai para a NVIDIA, que apresenta os seus resultados no dia 25 de fevereiro (quarta-feira), após o fecho do mercado, um momento decisivo para o sector da inteligência artificial, já que a empresa é vista como o principal barómetro da procura global por chips e infraestrutura de IA. As expectativas apontam para receitas na ordem dos 65 mil milhões de dólares (crescimento anual superior a 65%), com o foco no desempenho do segmento Data Center e nas perspectivas para os chips Blackwell.
Além da NVIDIA, a semana traz outros relatórios relevantes: a Berkshire Hathaway (de Warren Buffett) revela os resultados, oferecendo uma visão ampla sobre o conglomerado e o sentimento económico; a Salesforce testa o pulso ao software empresarial e ao consumo corporativo; a Snowflake e a Synopsys trazem leituras sobre cloud e semicondutores; a The Trade Desk reflecte a saúde da publicidade digital; a Intuit mostra o comportamento dos consumidores em finanças pessoais; a Keurig Dr Pepper e a HP dão pistas sobre o retalho e o hardware de consumo; e a Baidu representa o ecossistema tecnológico chinês.
No geral, esta será uma semana crucial para avaliar a sustentabilidade do boom da IA, a resiliência do software após alguma pressão recente e o estado do consumo em vários sectores. Os mercados estarão atentos, especialmente à orientação futura da NVIDIA, que pode ditar o tom para o resto da temporada e influenciar fortemente o sentimento em tecnologia e Wall Street.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
Uma semana bastante mais tranquila que a anterior, onde as atenções irão estar principalmente na confiança do consumidor e na inflação à porta das fábricas.
A semana começa com os números das encomendas às fábricas relativas ao mês de Dezembro, que deverão mostrar uma redução de 1,5%, após o aumento de 2,7% no mês anterior.
A terça-feira começa com os números semanais da ADP que mostraram uma subida para 10.250 empregos na semana anterior. O destaque do dia vai mesmo para o índice de confiança do consumidor da Conference Board, onde os mercados estimam uma subida ligeira de 84,5 para 86. Iremos ter também o índice manufactureiro de Richmond, que deverá mostrar uma queda de -6 para -8, e o índice do preço dos imóveis do S&P/Case-Shiller de Dezembro deverá manter o ritmo de crescimento do mês anterior de 1,4%.
O habitual número semanal de novos pedidos de subsídio de desemprego, segundo as estimativas, deverá subir dos 206 mil da semana passada para 216 mil.
Por fim, na sexta-feira, o índice de preços do produtor deverá mostrar uma desaceleração da subida de 0,5% do mês de Dezembro para 0,3% em Janeiro, onde sem energia nem alimentação deverá cair de 0,7% para 0,3%. O índice Chicago PMI, segundo as estimativas, deverá cair de 54 para 51.
Zona Euro
Por aqui será uma semana ligeira de indicadores económicos.
O destaque vai logo para o início da semana, com a divulgação do índice alemão de confiança empresarial IFO, com o consenso de mercado a apontar para um ligeiro recuo dos 87,6 do mês anterior para 87,0.
Iremos ter mais tarde os dados finais da inflação, onde não se esperam alterações às leituras preliminares.
O índice de confiança económica da Comissão Europeia deverá mostrar um recuo dos 99,4 em Janeiro, para 99,1 em Fevereiro e as expectativas da inflação do consumidor, do BCE, deverão mostrar uma aceleração de 2,8% para 2,9%.
Na Alemanha, iremos ter os números finais do PIB do quarto trimestre que deverão confirmar o crescimento trimestral de 0,3%. O índice de confiança do consumidor GfK deverá mostrar uma queda de -24,1 para -25. O destaque está guardado para sexta-feira com a divulgação dos dados preliminares da inflação, onde os mercados esperam ver um aumento mensal nos preços de 0,3%, acelerando dos 0,1% do mês de Janeiro, com a inflação anual a cair dos 2,1% para 2%. Teremos ainda a divulgação da taxa de desemprego que deverá manter-se nos 6,3%.
Ainda na sexta-feira iremos ter mais dados preliminares da inflação em França e em Espanha. Em Espanha, os mercados esperam uma subida de 0,3% nos preços em termos mensais, com a inflação anual a cair de 2,3% para 2,2%. Em França, os preços deverão mostrar uma queda mensal de 0,1%, após a queda de 0,3% no mês anterior, com a inflação anual a cair dos 0,3% para 0,2%.
Reino Unido
Iremos ter o índice “CBI Realized Sales” que, segundo as estimativas, deverá mostrar uma queda de -17 para -30.
Iremos ter também o índice de confiança do consumidor GfK, que também deverá mostrar uma ligeira queda de -16 para -17.
Por fim temos o índice do preço dos imóveis da Nationwide que deverá mostrar uma aceleração dos 1% do mês anterior para 1,8%.
Canadá
As atenções esta semana estão nos números do PIB, onde as previsões apontam para uma contracção trimestral de 0,1% no quarto trimestre de 2025, onde em termos anualizados deverá mostrar uma estagnação. Após a estagnação anterior, o PIB no mês de Dezembro deverá mostrar um crescimento de 0,1% em termos mensais.
Teremos também os números da conta-corrente do quarto trimestre, onde o consenso aponta para um défice de 5 mil milhões de dólares canadianos, após o défice do trimestre anterior de 9,7 mil milhões.
Suíça
Começamos por ter a divulgação do índice de confiança económica do UBS, onde o consenso aponta para uma subida de -4,7 para -1.
A semana termina com o PIB do quarto trimestre, que em termos homólogos deverá mostrar um crescimento económico de 1%, acelerando dos 0,8% no trimestre anterior, com os números das vendas a retalho que deverão, segundo as previsões, cair em Janeiro, em termos mensais, 0,2%, onde em termos homólogos deverá mostrar uma desaceleração dos 2,9% do mês anterior para 1,8%. Termos ainda o barómetro económico KOF, onde as estimativas apontam para um recuo dos 102,5 para 102,0.
Japão
As atenções vão de novo para os dados da inflação, com a divulgação esta semana do índice de preços do consumidor da área de Tóquio. As previsões apontam para que a medida sem alimentos frescos, a mais observada pelo Banco do Japão, deva permanecer nos 2%, com a inflação total a subir de 1,5% para 1,8%.
Iremos ter os números preliminares da produção industrial do mês de Janeiro, com as estimativas a mostrarem um crescimento de 0,3%, após a contracção de 0,1% no mês de Dezembro.
As vendas a retalho, segundo as previsões, deverão mostrar uma queda de 1,5% em termos homólogos, acelerando a queda do mês anterior de 0,9%.
Iremos ter ainda os números do início de construção de imóveis, que deverão mostrar um aumento de 1%, recuperando parte da queda de 1,3% no mês anterior.
Nova Zelândia
A semana começa com os números das vendas a retalho do quarto trimestre, onde as previsões mostram um crescimento trimestral de 1%, desacelerando dos 1,9% do trimestre anterior, onde em termos homólogos tenham uma desaceleração de 4,5% para 3,6%.
Termina com a divulgação do índice de confiança empresarial ANZ, onde as estimativas apontam para uma subida de 64,1 para 67.
Austrália
As atenções esta semana vão para os dados da inflação. As previsões apontam para que os preços em Janeiro mostrem um aumento mensal de 0,2%, desacelerando dos 1% mostrados no mês anterior, com a inflação em termos homólogos a cair de 3,8% para 3,7%. A medida preferida do RBA para a inflação, a “trimmed mean” que exclui 30% dos itens mais voláteis, deverá mostrar uma subida mensal dos 0,2% em Dezembro, para 0,3% em Janeiro, onde em termos homólogos se deverá manter nos 3,3%.
Teremos os números da construção do quarto trimestre, onde as previsões mostram um crescimento de construção feita de 1,2%, após a queda de 0,7% no trimestre anterior.
As despesas de capital privado no quarto trimestre deverão mostrar um crescimento trimestral de 0,2%, desacelerando dos 6,4% do trimestre anterior.
O crédito no sector privado em Janeiro deverá mostrar um aumento de 0,7%, desacelerando dos 0,8% no mês de Dezembro.
Bancos Centrais

O People's Bank of China
O banco central chinês, de volta do longo feriado do Ano Novo Lunar, irá decidir sobre as suas principais taxas de juros para empréstimos de um e cinco anos, devendo manter as mesmas inalteradas em 3% e 3,5%, respectivamente.
O Banco da Coreia
Na Coreia do Sul, os mercados esperam que o banco central mantenha também a sua taxa de juro directora nos actuais 2,5%, já que a inflação permanece próxima de 2% e a instabilidade financeira persiste.