A semana que começa
Debaixo de fogo
Geopolítica explosiva, grandes decisões em Pequim e dados macro cruciais: a primeira semana de Março chega com os mercados financeiros (e não só) debaixo de fogo, com muito para acompanhar e muito em risco.

A primeira semana de Março de 2026 começa sob o peso de acontecimentos extraordinários. O mundo acordou no passado sábado, 28 de Fevereiro, com a notícia que muitos temiam e poucos esperavam tão cedo: os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar conjunta contra o Irão, denominada "Operação Epic Fury" pelos americanos e "Rugido do Leão" pelos israelitas. As forças combinadas atingiram Teerão, Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah, com o Presidente Donald Trump a declarar publicamente o início de "operações de combate de grande escala", cujo objectivo declarado é destruir as capacidades militares e nucleares iranianas e, nas suas próprias palavras, criar condições para a mudança de regime.
A resposta do Irão foi imediata e de uma escala sem precedentes na região. Dezenas de mísseis balísticos foram disparados em direcção a Israel e às bases militares norte-americanas instaladas em vários países do Médio Oriente, incluindo o Bahrain, o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, a Jordânia e a Arábia Saudita. Explosões foram reportadas desde as praias do Dubai até às ruas de Doha. O Conselho de Segurança da ONU foi convocado de urgência, e várias companhias aéreas suspenderam voos para a região até pelo menos 7 de Março.
Para os mercados financeiros, este conflito traz consigo uma nuvem de incerteza de enorme magnitude. O petróleo será o activo mais imediatamente afectado: o Irão é um produtor relevante, e qualquer perturbação no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo transaccionado mundialmente, pode provocar um choque de preços significativo. Além do crude, os investidores irão fugir para os chamados activos de refúgio, o ouro, o franco suíço e as obrigações do tesouro norte-americano, numa semana em que a volatilidade deverá ser regra e não excepção. Os mercados de acções deverão abrir sob pressão, e a incerteza geopolítica poderá eclipsar temporariamente todos os outros temas da agenda económica global.
Ainda assim, há dois outros eventos de grande relevância que o mercado seguirá de perto nesta semana.

Do outro lado do mundo, em Pequim, a China enceta aquela que é, talvez, a reunião política mais importante do seu calendário anual: as chamadas "Duas Sessões". Trata-se de um evento que acontece todos os anos em Março e que junta simultaneamente duas das mais importantes instâncias políticas chinesas: o Congresso Nacional do Povo (CNP), o órgão legislativo máximo do país com cerca de 2.900 delegados, e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), um órgão consultivo com cerca de 2.170 representantes. Em 2026, a CCPPC abre a 4 de Março e o CNP a 5 de Março, com sessões previstas até cerca de 11 de Março.
Para perceber a importância das Duas Sessões, é necessário compreender que é durante este evento que o governo chinês apresenta ao país, e ao mundo, os seus grandes objectivos económicos e políticos para o ano. É o momento em que o Primeiro-Ministro Li Qiang apresenta o chamado Relatório de Trabalho do Governo, uma espécie de programa de governação que define metas de crescimento do PIB, défice orçamental, inflação, emprego e muito mais. Este ano, as Duas Sessões têm um peso acrescido porque 2026 é o primeiro ano do 15.º Plano Quinquenal (2026–2030), o documento estratégico que traça o rumo de desenvolvimento da China para os próximos cinco anos, com especial enfoque na inovação tecnológica, na autossuficiência industrial e na segurança económica.
Os mercados estarão particularmente atentos a saber se Pequim irá baixar a meta de crescimento do PIB dos "cerca de 5%" dos últimos três anos para um intervalo de 4,5% a 5%, o que representaria o valor mais baixo de sempre e confirmaria uma mudança de prioridades: da quantidade para a qualidade do crescimento. Num contexto de tensão comercial e tecnológica com os Estados Unidos, as Duas Sessões oferecem também um retrato privilegiado das intenções estratégicas de Pequim para os próximos meses.

Por último, mas longe de ser menos importante, na sexta-feira, 6 de Março, serão publicados nos Estados Unidos os dados de emprego de Fevereiro, os chamados nonfarm payrolls. Este relatório mensal do Departamento do Trabalho norte-americano é, de longe, o indicador económico mais acompanhado pelos mercados globais. A razão é simples: o emprego é o motor do consumo, e o consumo é o motor da maior economia do mundo. Os payrolls dizem-nos quantos empregos foram criados no mês anterior fora do sector agrícola, e esse número tem um impacto directo nas expectativas sobre a política monetária da Reserva Federal norte-americana. Depois de Janeiro ter surpreendido pela positiva com a criação de 130.000 postos de trabalho, muito acima das expectativas, os dados de Fevereiro serão lidos com atenção redobrada, sobretudo para perceber se o mercado de trabalho norte-americano está a estabilizar ou a continuar a arrefecer.
Na Zona Euro, ainda durante a semana, serão divulgados os dados preliminares de inflação referentes a Fevereiro. A inflação europeia tem estado a moderar-se, e qualquer sinal de que a descida de preços está a consolidar-se dará ao Banco Central Europeu mais margem para continuar o ciclo de corte de taxas de juro que iniciou em 2024. Por outro lado, se a inflação surpreender em alta, eventualmente alimentada por um choque nos preços da energia provocado pelo conflito no Médio Oriente, o BCE poderá ser forçado a uma postura mais cautelosa.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
Como todas as primeiras semanas do mês, esta também será bastante preenchida de indicadores económicos de primeira linha, com as atenções a ficarem especialmente guardadas para o último dia da semana com o relatório oficial do emprego.
A semana começará com a divulgação do índice ISM PMI manufactureiro, onde as estimativas apontam para um recuo de 52,6 para 51,7, onde o subíndice do emprego deverá apresentar um pequeno recuo de 48,1 para 48, e o das novas encomendas de 57,1 para 55,0.
A terça-feira será um dia mais tranquilo, onde destacamos a divulgação do índice de optimismo económico RCM/TIPP, que deverá mostrar uma subida de 48,8 para 50,1.
Na quarta-feira teremos os primeiros dados do mercado de trabalho com a divulgação do relatório privado da ADP, onde o consenso aponta para que mostre um aumento de 45 mil empregos. Iremos ter ainda o índice de serviços ISM PMI, com as previsões a apontarem para uma queda dos 53,8 do mês anterior, para 53,5, onde o subíndice do emprego permanece inalterado nos 50,3 e o dos preços cai de 66,6 para 65,9. Teremos ainda a divulgação do relatório Beige Book da Reserva Federal.
Quinta-feira é dia dos habituais números semanais dos novos pedidos de subsídio de desemprego, onde as estimativas apontam para uma ligeira subida de 215 mil para 212 mil. Teremos também o “Challenger Job Cuts”, um relatório que mostra quantas pessoas receberam aviso de despedimento durante o mês, dando uma ideia rápida de como vai o mercado de trabalho, se está a piorar ou a melhorar. No mês anterior esse número foi de 108.435, o mais elevado desde Novembro, as estimativas para o número desta semana aponta para 95 mil.
Por fim, na sexta-feira, teremos o destaque da semana, o relatório dos nonfarm payrolls, onde o consenso aponta para que a economia norte-americana tenha criado em Fevereiro 60 mil novos postos de trabalho. A taxa de desemprego deverá manter-se nos 4,3% e o crescimento médio salarial subir 0,3%, desacelerando dos 0,4% apresentados no mês anterior. Teremos ainda os números das vendas a retalho, com as previsões a mostrarem uma queda de 0,2%, com o grupo de controlo a mostrar uma estabilização.
Zona Euro
O destaque da semana vai para os dados agregados da inflação, onde as previsões apontam para que os preços em Fevereiro mostrem um aumento mensal de 0,4%, após a queda de 0,6% em Janeiro, com a inflação anual a manter-se nos 1,7% e a inflação subjacente nos 2,2%.
Teremos também a divulgação do índice de preços do produtor de Janeiro, que deverá apresentar uma subida mensal de 0,2%, após a queda de 0,3% em Dezembro.
Iremos ter a divulgação da taxa de desemprego de Janeiro, com as estimativas a apontarem para que se mantenha nos 6,2%, em mínimos históricos.
Os números das vendas a retalho de Janeiro deverão mostrar um crescimento de 0,5%, recuperando da queda do mesmo valor registada no mês anterior.
Iremos ter ainda as leituras finais do índice PMI e do PIB do último trimestre, onde não é esperada qualquer alteração nas leituras preliminares.
A nível nacional:
Na Alemanha, as vendas a retalho deverão mostrar uma queda em Janeiro de 0,1%, após o aumento de 0,1% no mês de Dezembro, tal como as encomendas às fábricas, onde as previsões apontam para uma queda de 4,5%, após o aumento de 7,8% no mês anterior.
Em França a produção industrial deverá recuperar parte da queda do mês de Dezembro de 0,7%, apresentando em Janeiro um aumento de 0,5%.
Em Itália, iremos ter a divulgação dos dados da actividade económica privada, com o consenso a apontar para uma ligeira subida do PMI composto de 51,4 para 51,6, onde o índice de serviços cai de 52,9 para 52,6 e o industrial sobe de 48,1 para 49. Os números da inflação deverão mostrar uma subida de 1% para 1,1%, com os preços em termos mensais a subirem 0,3%. A taxa de desemprego deverá permanecer nos 5,6%. Teremos ainda as vendas a retalho que, após a queda de 0,8% em Dezembro, deverão mostrar um aumento em Janeiro de 0,6%.
Em Espanha, teremos também os PMI que deverão mostrar um aumento na actividade económica, com o índice composto a subir de 52,9 para 53,4, onde o sector de serviços sobe de 53,5 para 53,8, e o industrial de 49,2 para 49,8.
Reino Unido
A semana começa com o índice do preço dos imóveis de Fevereiro da Nationwide que deverá mostrar uma subida de 0,7%, após a de 1% no mês anterior e irá terminar com o índice de preços de imóveis do Halifax, onde as estimativas apontam para uma queda mensal de 0,1%, após o aumento de 0,7% em Janeiro.
Teremos também os números da aprovação de hipotecas que deverão mostrar uma subida de 61 mil para 62 mil, tal como deverá aumentar os empréstimos a particulares dos 6,1 mil milhões de libras para 6,2 mil milhões.
O índice de preços do retalho da BRC deverá mostrar uma desaceleração dos 1,5% em Janeiro, para 1,3% em Fevereiro e o PMI da construção deverá mostrar uma ligeira subida de 46,4 para 47,1.
Teremos ainda as leituras finais dos PMI da S&P global, onde não se espera alteração dos números preliminares.
Canadá
Por aqui é semana de dados de actividade económica privada. O PMI composto da S&P Global deverá mostrar uma subida ligeira de 46,4 para 46,9, onde o índice manufactureiro deverá subir de 50,4 para 50,7 e o de serviços de 45,8 para 46.
Por outro lado, o PMI da Ivey Business School deverá mostrar uma desaceleração dos 50,9 no mês anterior para 50,5.
Suíça
A semana começa com a divulgação dos números das vendas a retalho de Janeiro, com as previsões a mostrarem uma redução mensal de 0,2%, após o aumento de 1% no mês anterior, onde em termos homólogos deverão mostrar uma desaceleração de 2,9% para 2,7%.
Iremos ter também o PMI manufactureiro que, segundo as estimativas, deverá subir de 48,8 para 50,1, ficando de novo em terreno de expansão.
Teremos os dados da inflação de Fevereiro, onde as previsões apontam para um aumento mensal dos preços de 0,2%, após a queda de 0,1% em Janeiro, com a inflação anual a cair de 0,1% para 0%.
Por fim iremos ter a divulgação da taxa de desemprego de Fevereiro, que deverá mostrar uma queda de 3,2% para 3,1%.
China
Por aqui é semana de PMIs.
Segundo as estimativas, para os PMI oficiais do NBS, a actividade económica privada deverá voltar a expandir, com o índice geral a subir de 49,8 para 50,2, onde o índice manufactureiro sobe de 49,3 para 49,9 e o de serviços de 49,4 para 50,0.
Os índices privados da RatingDog deverão continuar em terreno de expansão, com o índice composto a cair de 51,6 para 51,4, onde o manufactureiro sobe de 50,3 para 50,5, enquanto o de serviços cai de 52,3 para 51,7.
Teremos também os números do investimento estrangeiro directo que, após a redução de 9,5% mostrada em Dezembro, as estimativas apontam para uma queda em Janeiro de 1%.
Japão
Uma semana mais tranquila, com os destaques a irem para a divulgação da taxa de desemprego que deverá manter-se nos 2,6% e o índice de confiança do consumidor que deverá mostrar uma ligeira subida de 37,9 para 38,1.
Nova Zelândia
Por aqui teremos os números das licenças de construção de Janeiro que deverão mostrar um aumento de 2%, após a queda de 4,6% apresentada no mês de Dezembro.
Austrália
A semana começa com o índice de anúncio de vagas de emprego ANZ de Fevereiro que, segundo as estimativas, deverá mostrar uma redução de 2,3%, após o aumento de 4,4% em Janeiro, e ainda com a divulgação dos números dos lucros operacionais das empresas que deverão mostrar um aumento de 1,8%.
Seguem-se os números das licenças de construção de Janeiro, que deverão aumentar 5,7%, depois da queda de 14,9% em Dezembro.
Na quarta-feira é a vez de termos os números do crescimento económico do quarto trimestre, onde segundo as previsões deverão mostrar um crescimento trimestral de 0,6%, após os 0,4% do trimestre anterior, onde em termos anuais deverá-se manter nos 2,1%.
Teremos os números da balança comercial de bens que deverá mostrar um excedente de 3,89 mil milhões de dólares australianos, após os 3,37 mil milhões do mês anterior.
Iremos ter ainda os números da despesa das famílias em Janeiro, que deverão mostrar um crescimento mensal de 0,5% após a redução de 0,4% no mês anterior.