A semana que começa
Entre o Irão e a inflação
Os mercados financeiros na próxima semana irão estar de olho na situação do Médio Oriente, no conflito entre os EUA/Israel e o Irão e nos dados que irão ser divulgados da inflação
O conflito no Médio Oriente não dá sinais de abrandamento, os mercados financeiros continuam em modo de alerta, e o calendário económico traz dados que poderão moldar as decisões dos maiores bancos centrais do mundo, numa reunião marcada precisamente para a semana seguinte.

O petróleo continua a ser o termómetro da crise. A guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão encerrou a primeira semana de março com subidas de cerca de 30%, em grande parte porque o Estreito de Ormuz, um dos corredores marítimos mais vitais do planeta, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo transaccionado a nível mundial, está efectivamente bloqueado. Os ataques às instalações de produção iranianas, a instabilidade em torno do Golfo Pérsico e o regresso das hostilidades no Líbano criam um cocktail de incerteza que os mercados detestam. Enquanto o conflito não mostrar sinais claros de resolução ou contenção, é difícil imaginar um recuo sustentado nos preços da energia.
E é aqui que entra o verdadeiro dilema dos bancos centrais. Um petróleo caro durante um período prolongado não é apenas um problema para as carteiras dos consumidores: é combustível para uma inflação mais ampla, que se propaga pelos custos de transporte, de produção e, eventualmente, pelos preços de praticamente tudo o que compramos. A memória da espiral inflacionista de 2021-2023 ainda está bem presente, e os governadores dos principais bancos centrais sabem que seria um erro repetir o equívoco de então, quando ficaram demasiado tempo atrás da curva. Isso significa que, num cenário de energia cara e persistente, as margens para cortar taxas de juro estreitam-se significativamente.

É neste contexto que chega na quarta-feira, 11 de Março, a publicação do índice de preços no consumidor nos Estados Unidos. Os economistas antecipam que tanto a inflação global como a inflação subjacente, que exclui alimentação e energia, deverão subir 0,3% em termos mensais e 2,5% em termos anuais, o que representaria uma ligeira aceleração face ao mês anterior. Parece pouco, mas num momento em que os preços do petróleo já começam a reflectir a crise no Médio Oriente, qualquer surpresa em alta será lida pelos mercados como um sinal de que a Fed terá de manter, ou até endurecer, a sua postura monetária.
Recorde-se que em Janeiro, a inflação americana desceu para 2,4%, o nível mais baixo desde Maio, com a desaceleração explicada em grande medida por efeitos de base. Esse alívio poderá ser de curta duração se o choque energético se consolidar nas próximas semanas.
Da China, esperam-se também dados de inflação. O quadro é radicalmente diferente, e por razões opostas. Em Janeiro, a inflação chinesa abrandou para apenas 0,2% em termos anuais, bem abaixo das expectativas de 0,4%, com os preços alimentares a cair pela primeira vez em três meses. Pequim continua a lutar contra pressões deflacionistas estruturais, excesso de capacidade industrial, um mercado imobiliário deprimido e uma procura interna que resiste em ganhar força. Neste ambiente, a subida dos preços do petróleo resultante da guerra poderá ter um efeito paradoxalmente moderador no risco deflacionista chinês, mas não é a forma como Pequim gostaria de ver os preços subirem.
Tudo isto acontece a apenas uma semana das reuniões de política monetária que mais atenção vão captar em todo o mundo. A Fed, o BCE, o Banco de Inglaterra, o Banco do Japão e o Banco Nacional da Suíça têm as suas reuniões marcadas para a próxima semana. Antes da guerra, o cenário base era de pausa generalizada: o BCE manteve as taxas inalteradas em fevereiro, reafirmando que a inflação deverá estabilizar no objectivo de 2% no médio prazo, e os mercados não esperavam grandes surpresas. Mas o choque do petróleo complica tudo. A Fed enfrenta a sua versão mais difícil do dilema de sempre: um mercado de trabalho que arrefece justificaria cortes de taxas, mas a inflação persistentemente acima do objectivo e o novo choque externo na energia travam qualquer movimento nesse sentido.

Com a época de resultados empresariais do último trimestre de 2025 a terminar, ainda teremos algumas empresas de renome a mostrar as suas contas. Será o caso da HP, FedEx, Oracle, BMW, Volkswagen, Rheinmetall, Enel e Jerónimo Martins, entre outras.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
Uma semana onde as atenções irão estar principalmente nos dados da inflação e ainda em mais dados do mercado de trabalho.
Após um primeiro dia da semana vazio de indicadores económicos, na terça-feira iremos ter os dados semanais do emprego da ADP, o índice de pequenas e médias empresas NFIB e os números das vendas de casas existentes. a última leitura semanal do ADP foi de 12.750 empregos, o NFIB, segundo as estimativas, deverá subir de 99,3 para 99,7, e as vendas de casas em Fevereiro deverão mostrar uma redução mensal de 0,8%.
Na quarta-feira, os olhos estão colocados no índice de preços do consumidor, com as previsões a apontarem para uma subida mensal dos preços de 0,2%, em linha com o mês anterior, com a inflação anual a subir de 2,4% para 2,5%. Sem energia nem alimentos, a inflação deverá manter-se nos 2,5%.
Quinta-feira é a vez dos habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, com o mercado a esperar cerca de 215 mil, em torno dos números das semanas anteriores. A balança comercial deverá apresentar um défice de 66,1 mil milhões de dólares, abaixo dos 70,3 mil milhões do mês anterior. As licenças de construção em Janeiro deverão mostrar uma redução de 1,5%, após o aumento de 4,8% em Dezembro, e o início de construção de imóveis deverão mostrar uma redução de 2,4%, depois da subida de 6,2% no mês anterior.
Finalmente, na sexta-feira, iremos ter mais dados da inflação, desta vez a medida preferida da Fed, o core PCE price index. Em Janeiro deverá mostrar um aumento mensal nos preços de 0,4%, com a medida anual a subir de 3% para 3,1%. A despesa pessoal deverá mostrar uma desaceleração dos 0,4% do mês anterior, para 0,3%, enquanto o rendimento pessoal deverá mostrar uma aceleração de 0,3% para 0,4%. A segunda leitura do PIB do último trimestre deverá confirmar os números preliminares que mostraram um crescimento trimestral de 1,4%. Iremos ter os números das novas vagas de emprego JOLTS, onde as previsões apontam para um aumento dos 6,54 milhões em Dezembro, para 6,84 milhões em Janeiro. Teremos também os números das encomendas de bens duradouros do mês de Janeiro, que depois de uma queda de 1,4% no mês anterior, deverão mostrar um aumento de 1,2%, onde sem itens de transporte deverão desacelerar de 0,9% para 0,5%, e sem as encomendas da defesa mostrar uma redução de 0,4%, desacelerando da queda anterior de 2,5%. Iremos ter ainda os dados preliminares da Universidade de Michigan, onde o índice de confiança do consumidor, segundo as estimativas, caem de 56,6 para 56,3, e as expectativas de inflação no curto prazo sobe de 3,4% para 3,9% e de mais longo prazo de 3,3% para 3,4%.
Zona Euro
Por aqui será uma semana mais tranquila, relativamente a indicadores económicos.
A semana começa com o índice de confiança do investidor, Sentix, onde o consenso aponta para uma queda dos 4,2 no mês passado, para -3,1.
A semana termina com a divulgação dos números da produção industrial, onde as previsões apontam para um crescimento de 0,5%, após a redução de 1,4% no mês anterior.
A nível nacional:
Na Alemanha, a semana começa com os números das encomendas às fábricas, que após o aumento de Dezembro de 7,8%, deverão em Janeiro cair 4,3%, e ainda com os números da produção industrial que deverão mostrar um crescimento de 0,9%, após a redução anterior de 1,9%. Mais tarde teremos os números da balança comercial de Janeiro que deverá mostrar um excedente de 15,2 mil milhões de euros, reduzindo do saldo positivo de 17,1 mil milhões no mês anterior. O índice de preços grossistas deverá mostrar uma subida de 0,4%, desacelerando dos 0,9% apresentados no mês anterior e teremos ainda a leitura final do IPC de Fevereiro.
Em França teremos também a leitura final do IPC de Fevereiro e os números da balança comercial, que deverão mostrar um défice de 4,6 mil milhões de euros, abaixo dos 4,8 mil milhões do mês anterior.
Em Itália, iremos ter a taxa de desemprego do último trimestre de 2025 que deverá manter-se nos 6,1%, e ainda a divulgação dos números da produção industrial, que após a queda anterior de 0,4%, deverão mostrar um crescimento de 0,4%.
Reino Unido
As atenções desta semana vão para os dados do PIB a divulgar no último dia da semana. A economia britânica, segundo as previsões, deverá ter crescido em Janeiro 0,2%, acelerando dos 0,1% apresentados em Dezembro do ano passado.
Ainda na sexta-feira, iremos ter os números da balança comercial de bens que deverá mostrar um défice de 22,1 mil milhões de libras, um pouco abaixo dos 22,7 mil milhões do mês anterior. Teremos também os números da produção industrial que deverão aumentar 0,3%, após a redução de 0,9% no mês anterior.
Na terça-feira teremos o BRC Retail Sales Monitor, que deverá desacelerar dos 2,3% apresentados no mês anterior, para 2,1%, e na quinta-feira o RICS Hose Price Balance que deverá subir ligeiramente de -10% para -9%.
Canadá
O destaque da semana vai para os dados do mercado de trabalho, onde as previsões apontam para que a taxa de desemprego suba de 6,5% para 6,6%, com a taxa de participação a cair de 65% para 64,8%. O número de postos de trabalho deverá aumentar em torno de 10.000, onde poderemos ter uma redução de 10 mil empregos a tempo inteiro e um aumento de 20 mil empregos a tempo parcial.
Teremos também números das licenças de construção que deverão mostrar uma pequena redução de 0,6%, após o aumento de 6,8% no mês anterior. A balança comercial deverá mostrar um défice de 1,1 mil milhões de dólares canadianos, ligeiramente abaixo dos 1,3 mil milhões do mês anterior.
Teremos ainda os números das vendas grossistas que deverão apresentar uma redução de 0,6%, após o crescimento de 2% no mês de Dezembro, e as vendas manufactureiras uma queda de 3,3%, após o aumento anterior de 0,6%.
Suíça
Tudo o que teremos por aqui irá ser o índice de confiança do consumidor, onde o consenso aponta para uma subida de -30 para -29.
China
O destaque esta semana vai para os números da inflação, com as previsões a apontarem para uma subida mensal dos preços em Fevereiro de 0,3%, acelerando de 0,2% do mês anterior, com a medida anual a subir de 0,2% para 0,8%.
Teremos também o índice de preços no produtor que deverá se manter em deflação, mas registando uma subida de -1,4% para -1,1%.
As atenções irão estar também colocadas nos números da balança comercial que abrangem os meses de Janeiro e Fevereiro, devido aos feriados do Ano Novo Lunar, com as previsões a apontarem para um excedente de 182 mil milhões de dólares.
Iremos ter também os números de Fevereiro dos novos empréstimos em yuans, onde as estimativas mostram uma queda dos 4710 mil milhões de yuans do mês de Janeiro, para 900 mil milhões.
Japão
A semana começa com os dados do crescimento médio dos salários, onde as previsões apontam para uma aceleração de 2,4% para 2,5%, Os empréstimos bancários deverão crescer 4,4%, uma desaceleração ligeira dos 4,5% do mês anterior.
O índice de confiança dos observadores económicos deverá mostrar uma subida de 47,6 para 48,1, e a despesa das famílias deverá mostrar um aumento de 2,3%, após a redução de 2,6% apresentada no mês anterior. Teremos ainda os números finais do PIB do quarto trimestre que deverão confirmar a leitura preliminar de 0,3%.
Terça-feira iremos ter os dados preliminares das encomendas de ferramentas mecânicas, que deverão manter o crescimento de 25,3%, e ainda os dados da inflação à porta das fábricas, onde o IPP deverá mostrar uma subida de 2,2%, desacelerando dos 2,3% do mês anterior.
Por fim, teremos o índice manufactureiro BSI, com as estimativas a apontarem para uma subida de 4,7 para 5,5.
Nova Zelândia
Mais uma semana tranquila, onde teremos os números trimestrais das vendas manufactureiras que deverão mostrar um crescimento de 1,2%, após os 0,9% apresentados no trimestre anterior, e o PMI manufactureiro BusinessNZ deverá cair de 55,2 para 54,6.
Austrália
A semana começa com o índice de confiança do consumidor Westpac de Março, onde as estimativas apontam para uma queda de 90,5 para 89,5.
Mais tarde teremos o índice de confiança empresarial NAB, que deverá se manter nos 3.
Por fim, as expectativas de inflação do consumidor do Instituto de Melbourne deverão mostrar um abrandamento dos 5% apresentados em Fevereiro, para 4,2% em Março.
Bancos Centrais

O Banco Central da Turquia
O banco central turco reúne na próxima semana, com uma decisão que, há poucas semanas, parecia simples: mais um corte nas taxas, continuando o ciclo de afrouxamento iniciado em 2024. Em janeiro, a taxa directora já havia sido reduzida para 37%, e os mercados esperavam novos passos nesse sentido.
A guerra no Médio Oriente complicou tudo. A Turquia importa energia, e o bloqueio do Estreito de Ormuz com o petróleo a subir 30% é um choque externo directo, exactamente o tipo de pressão que alimenta a inflação. Com o IPC ainda nos 31,5% em fevereiro, e o objectivo para o final do ano fixado nos 16%, o banco central não tem margem para errar, e já muitos analistas retiraram o corte de Março do seu cenário base.
A decisão provável é uma pausa. Não por falta de vontade de cortar, mas porque a credibilidade anti-inflacionista construída ao longo dos últimos dois anos vale mais do que qualquer ganho de curto prazo.