A semana que começa
Os bancos centrais e o Médio Oriente
Uma semana em que quase todos os grandes bancos centrais vão decidir sobre política monetária, numa altura em que o conflito no Irão leva os preços da energia para máximos e ameaça com uma espiral inflacionista
O Estreito de Ormuz continua parcialmente bloqueado pelas tensões com o Irão, pressionando o fornecimento de um corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás natural mundiais, uma artéria vital tanto para a Ásia como para a Europa. O Brent mantém-se acima dos 100 dólares por barril, alimentando receios de uma espiral inflacionista que os bancos centrais julgavam já ter dominado. É neste contexto explosivo que quase todos os grandes bancos centrais do mundo se reúnem na mesma semana para decidir sobre política monetária. O que estava a ser uma temporada tranquila de pausas e cortes graduais transformou-se numa encruzilhada: baixar as taxas arrisca alimentar a inflação importada pela energia; mantê-las penaliza economias já fragilizadas. Os mercados aguardam, tensos.

A Semana de Bancos Centrais
Uma única semana em que quase todos os grandes bancos centrais do planeta se reúnem, deliberam e anunciam as suas decisões de forma quase simultânea. Um momento de convergência excepcional que os mercados financeiros vão acompanhar com atenção redobrada, num mundo ainda a digerir a subida dos preços do petróleo provocada pelo conflito no Médio Oriente, a incerteza das políticas comerciais de Washington e a normalização lenta e desigual das condições monetárias globais.
O que une todas as decisões é um contexto macroeconómico radicalmente mais complexo do que há seis meses: o conflito no Irão empurrou o petróleo para cima, as tarifas americanas criaram fricção no comércio global, e as expectativas de inflação voltaram a tornar-se mais incertas.
O resultado é uma divisão clara entre os bancos centrais: a Fed, o Banco de Inglaterra e o BCE permanecem em modo de pausa, aguardando dados; o Banco do Japão continua a normalizar de forma gradual; o RBA está a apertar a sua política monetária; o SNB e o Riksbank estão estabilizados; E o Brasil, um caso isolado entre as grandes economias emergentes, vai provavelmente iniciar um muito aguardado ciclo de cortes a partir de taxas que são, em termos reais, as mais elevadas do mundo.
Em 48 horas, entre 18 e 19 de Março, teremos decisões simultâneas da Fed, do Banco do Japão, do Banco de Inglaterra, do SNB, do Banco do Canadá, do Riksbank e do Banco Central do Brasil. O mundo raramente oferece uma janela assim tão concentrada para perceber para onde vai a política monetária global. Vale a pena prestar atenção.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
A semana começa com a divulgação do índice manufactureiro de Nova Iorque, onde os mercados estimam uma queda de 7,1 para 4,0. Teremos também os números da produção industrial que deverão mostrar uma desaceleração do crescimento apresentado no mês anterior de 0,7%, para 0,1%. Ainda no primeiro dia iremos ter dados do mercado imobiliário, com o índice NAHB, segundo as estimativas, a subir de 36 para 37.
Na terça-feira começamos por ter os números semanais do mercado de trabalho da ADP, que na semana passada foram de 15.500 empregos. Teremos mais dados do mercado imobiliário, com os números das vendas pendentes de imóveis, onde as previsões apontam para uma queda de 1,2%, após a de 0,8% no mês anterior.
Quarta-feira voltamos a ter dados dos preços, desta vez à porta das fábricas, onde as previsões apontam para que o índice de preços no produtor apresente uma subida mensal de 0,3%. Teremos também os números das encomendas às fábricas, onde as estimativas apontam para um aumento de 0,4%, após a queda de 0,7% no mês anterior.
Na quinta-feira teremos os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, onde o mercado espera por números em torno dos das semanas anteriores, em torno de 215 mil. Teremos também mais dados do mercado imobiliário, com os números de Janeiro das vendas de casas novas, que deverão mostrar uma queda de 0,9%, após a de 1,7% no mês de Dezembro. O índice manufactureiro da Fed de Filadélfia deverá apresentar uma subida ligeira, de 16,3 para 17,5.
Zona Euro
Por aqui a agenda económica desta semana será também relativamente ligeira.
Começa com o indicador alemão de confiança económica ZEW, onde na Zona Euro, segundo o consenso de mercado, deverá mostrar uma queda de 39,4 para 24,0, e na Alemanha de 58,3 para 38,9.
Iremos ter os dados finais da inflação do mês de Março, que deverão manter as leituras preliminares de 1,9% e 2,4%, respectivamente para a inflação total e para a subjacente.
Na sexta-feira, teremos os números da balança comercial, onde as previsões apontam para um excedente de 12,8 mil milhões de euros, após os 11,6 mil milhões do mês anterior. Em Itália, iremos ter também os números da balança comercial que, segundo as estimativas deverão apresentar um excedente de 5,6 mil milhões de euros, recuando dos 6,04 mil milhões do mês anterior. Na Alemanha termos dados da inflação à porta das fábricas, com o índice de preços no produtor a mostrar uma subida de 0,3%, após a contracção de 0,6% no mês anterior.
Reino Unido
As atenções vão para os dados do mercado de trabalho, que irão ser divulgados poucas horas antes da decisão de taxas de juro por parte do Banco de Inglaterra.
As previsões apontam para que a taxa de desemprego se mantenha nos 5,2%. A variação do emprego de Janeiro deverá mostrar uma queda de 50 mil postos de trabalho, após o aumento anterior de 52 mil. Os ganhos médios incluindo bónus deverão desacelerar dos 4,2% para 3,9%. Segundo as estimativas, o número de pedidos de subsídio de desemprego em Fevereiro deverá ser de 18 mil, baixando dos 28,6 mil em Janeiro.
Iremos ter também os números dos empréstimos líquidos ao sector público em Fevereiro, onde as previsões apontam para 8,7 mil milhões de libras, após a queda de 30,4 mil milhões no mês anterior, e ainda o índice de expectativas de encomendas industriais CBI, que deverá mostrar uma queda de -28 para -29.
Canadá
Por aqui são os dados da inflação, antes da decisão de taxas do Banco do Canadá, que irão ter especial atenção por parte dos mercados.
Os preços em Fevereiro, em termos mensais, deverão mostrar uma aceleração da estagnação no mês anterior, para 0,6%, com a inflação anual a subir 2,1%, desacelerando dos 2,3% no mês anterior. Sem energia nem alimentação, os preços deverão mostrar uma subida mensal de 0,2%, com a inflação subjacente a cair de 2,6% para 2,4%. A CPI Trimmed-Mean, seguida mais de perto pelo BoC, segundo as estimativas, deverá mostrar uma queda dos 2,4% em Janeiro, para os 2,3%.
Teremos dados das vendas a retalho, onde em Janeiro deverão mostrar um aumento mensal de 1,5%, após a queda de 0,4% no mês anterior, onde sem vendas automóveis deverão crescer 1,3%, acelerando dos 0,1% apresentados em Dezembro. Os números preliminares de Fevereiro, segundo as previsões, irão mostrar uma queda de 0,3%.
Iremos ter ainda os números do início de construção de casas, onde as estimativas apontam para um aumento das 238 mil para 244 mil.
Suíça
A semana começa com os dados dos preços no produtor e de importação, que após uma contracção de 0,2% em Janeiro, deverão mostrar uma estabilização em Fevereiro. Termina com os números da balança comercial que deverá mostrar um excedente de 4 mil milhões de francos suíços, após os 3,6 mil milhões apresentados em Janeiro.
China
Por aqui teremos uma semana mais preenchida de indicadores económicos.
Os números do investimento em activos fixos no período Janeiro/Fevereiro deverão mostrar uma queda de 0,4% em termos homólogos, após uma redução anterior de 3,8%.
O índice de preço dos imóveis de Fevereiro deverá mostrar uma redução de 3,3%, após a redução de 3,1% no mês anterior.
A taxa de desemprego deverá manter-se nos 5,1%.
Para o período de Janeiro/Fevereiro, as vendas a retalho deverão mostrar um crescimento de 2,5%, em termos anuais, acima dos 0,9% anteriores, enquanto a produção industrial deverá registar uma ligeira desaceleração no crescimento de 5,2% para 5,1%.
O investimento estrangeiro directo em Fevereiro deverá mostrar uma queda de 5%, ficando abaixo da de 5,7% no mês anterior.
Japão
A actividade da indústria terciária de Janeiro, segundo as estimativas, deverá apresentar um crescimento de 0,8%, após a queda de 0,5% no mês anterior.
A balança comercial em Fevereiro, segundo as previsões, deverá apresentar um défice de 520 mil milhões de ienes, após os 1.153 mil milhões no mês de Janeiro, com as importações a crescerem 11,5% e as importações 1,6%.
As encomendas de maquinaria, excluindo navios e centrais de energia, após o crescimento de 19,1% em Dezembro, deverão mostrar uma queda de 9,5% em Janeiro.
Nova Zelândia
Iremos ter uma semana mais bem preenchida de dados económicos, onde as atenções irão cair especialmente sobre os dados do PIB do quarto trimestre de 2025.
As previsões apontam para um crescimento económico trimestral de 0,4%, desacelerando dos 1,1% apresentados no trimestre anterior, onde em termos homólogos deverá mostrar um crescimento de 1,5%, abaixo dos 1,3% anteriores.
A semana começa com o PMI de serviços BusinessNZ que, segundo as estimativas, deverá cair de 52,5 para 52,2, e irá terminar com a divulgação dos números da balança comercial de Fevereiro que, após o défice em Janeiro de 519 milhões de dólares neozelandeses, deverão apresentar um excedente de 400 milhões.
Austrália
O destaque da agenda económica desta semana vai para os dados do mercado de trabalho.
As previsões apontam para que a taxa de desemprego suba de 4,1% para 4,2%, com a criação de 20 mil postos de trabalho, onde 14 mil serão de tempo parcial e os restantes 6 mil a tempo inteiro. A taxa de participação deverá manter-se nos 66,7%.
Bancos Centrais

A Reserva Federal dos Estados Unidos
A reunião mais aguardada da semana. O que esperar? Praticamente nada em termos de movimento de taxas, com a FedWatch da CME a atribuir uma probabilidade superior a 92% de que as taxas se mantenham no intervalo de 3,50% a 3,75%.
Mas esta reunião inclui as novas projecções económicas e o famoso "dot plot", que mapeia onde cada membro do FOMC espera que as taxas estejam no futuro. Na última reunião, os mercados monetários ainda descontavam a probabilidade de dois cortes de taxas para este ano. O conflito no Médio Oriente alterou essa probabilidade, e os mercados agora não contam com qualquer corte para este ano. Vamos ver o que nos reservam as projecções da FOMC.
A pressão política é real. Trump continua a exigir cortes mais rápidos e mais agressivos — e o mandato de Powell expira em Maio, com Kevin Warsh como principal candidato a suceder-lhe numa postura tendencialmente mais hawkish sobre política monetária.
Vamos ouvir o que Powell dirá este mês sobre tarifas, petróleo e o ritmo de possíveis cortes. Esta é a primeira reunião em que a Fed terá de incorporar o impacto económico do conflito no Irão, da subida do petróleo e das tarifas globais de 15% de Trump nas suas projecções futuras.
O Banco Central Europeu
Uma reunião que passou a estar carregadas de expectativas, com projecções macroeconómicas actualizadas, seguida da conferência de imprensa de Christine Lagarde.
Em Fevereiro, o BCE manteve a taxa de juro de referência nos 2%, pela quinta reunião consecutiva, depois de um ciclo de cortes que começou em Junho de 2024. A inflação na Zona Euro caiu para 1,7% em Janeiro, abaixo do objectivo de 2%, e é precisamente aí que reside a tensão desta reunião.
Por um lado, o euro apreciou-se quase 14% face ao dólar nos últimos doze meses, o que é desinflacionista, e alguns economistas alertam que o BCE vai ter de baixar as suas projecções de inflação de Dezembro, que já apontavam para 1,9% em 2026 e 1,8% em 2027, ambas abaixo do alvo, tornando um corte de taxas mais plausível.
Por outro lado, o conflito no Irão e a subida dos preços da energia complicaram o quadro.
Os mercados que apontavam para taxas inalteradas durante todo este ano, ou mesmo a possibilidade de um novo corte, estão agora a descontar a possibilidade de uma subida de taxas já na reunião de Julho.
Os mercados irão estar bem atentos à comunicação de C. Lagarde e das novas projecções do BCE, procurando analisar até que ponto o banco se pode estar a afastar do tal “bom lugar” onde a sua política monetária se encontrava.
O Banco do Japão
O banco central nipónico segue um caminho radicalmente diferente do resto do mundo: está a subir taxas, não a baixá-las.
Em Janeiro, o BOJ manteve a taxa de referência nos 0,75%, o nível mais alto em 30 anos, com o membro do conselho Hajime Takata a votar sozinho a favor de uma subida para 1%, argumentando que o objectivo de inflação de 2% estava praticamente atingido. A inflação japonesa leva quase quatro anos consecutivos acima dos 2%, e o FMI espera mais duas subidas em 2026 e outra em 2027.
O que esperar para esta semana? Muito provavelmente uma manutenção de taxas, enquanto o banco central avalia o impacto do choque externo do petróleo e os resultados das negociações salariais da primavera (shunto).
O Banco de Inglaterra
O BoE enfrenta o dilema clássico de 2026: inflação ainda acima do alvo, economia fraca, e um conflito no Médio Oriente que complica tudo.
O Banco manteve a taxa em 3,75% em Fevereiro, com o comité de nove membros a votar por uma margem apertada de 5-4 para manter as taxas, com quatro membros a votar a favor de um corte de 25 pontos base.
Mais de 85% dos economistas inquiridos pela Reuters esperam agora que o Banco de Inglaterra mantenha as taxas em 19 de Março — uma inversão face aos 65% que esperavam um corte em Março numa sondagem de Fevereiro. O culpado é o petróleo: a subida dos preços da energia, alimentada pelo conflito no Irão, empurra a inflação britânica, já nos 3%, ainda mais acima do objectivo dos 2%.
A linguagem do comunicado será dissecada ao milímetro, com o mercado a querer saber se ainda estão sobre a mesa cortes para os próximos meses.
O Banco Nacional da Suíça
O SNB manteve a taxa em 0% depois de a ter cortado até zero em Junho de 2025, num contexto de inflação de 0,0% em Novembro, no limite inferior da sua banda-alvo de 0% a 2%. A deflação importada, alimentada pela força do franco suíço, é a principal preocupação. Os analistas não esperam qualquer alteração de taxas.
O presidente do Banco Nacional Suíço continua a combater a ideia de voltar a taxas negativas, e assim deverá manter a sua taxa inalterada. A grande questão desta semana não é a taxa, mas sim mais indicações de uma possível intervenção cambial. Com o franco a apreciar-se e a inflação a roçar o zero, o SNB tem cada vez mais os olhos postos no mercado cambial como principal instrumento de política monetária.
O Banco do Canadá
A economia canadiana continua a ajustar-se às tarifas americanas e ao novo panorama do comércio global. O banco central projecta um crescimento modesto de 1,1% em 2026, com a inflação a manter-se próxima do objectivo de 2%. Uma das grandes incógnitas é a revisão do acordo USMCA, que pode alterar radicalmente as perspectivas comerciais do país.
O mercado espera uma manutenção, o Banco do Canadá parece satisfeito com as taxas ao nível neutro depois de um longo ciclo de cortes.
Os mercados irão estar atentos à comunicação de Tiff Macklem, agora que começam a descontar já uma possível subida de juros para Julho, devido às expectativas crescentes da inflação a nível global.
O Reserve Bank of Australia
O RBA foi o primeiro banco das economias desenvolvidas a subir taxas de juro (retirando o caso excepcional do Banco do Japão). Em Fevereiro, o banco surpreendeu os mercados com uma subida de 25 pontos base, elevando a taxa de referência para 3,85%.
Os analistas dividem-se entre a possibilidade de um novo aumento de taxas de 25 pontos base para 4,10% ou a manutenção da actual taxa de juro.
Enquanto os actuais dados e a posição mais hawkish de Michelle Bullock dão razão aos que esperam novo aumento, do lado dos que esperam a continuação do actual nível a razão é a de que o RBA ainda não tem dados novos de inflação do primeiro trimestre antes da reunião, dados que só saem em finais de Abril.
O Riksbank
O banco central da Suécia reúne esta semana e a sua decisão de política monetária é acompanhada do Relatório de Política Monetária trimestral, o documento mais completo com previsões actualizadas.
Em Janeiro, o Riksbank manteve a taxa em 1,75% pela terceira reunião consecutiva, reiterando que espera que a taxa se mantenha a este nível por algum tempo. A inflação está próxima do objectivo de 2% e a recuperação económica sueca parece estar em curso.
O consenso aponta para uma manutenção, mas há analistas que acreditam que o Riksbank poderá estar aberto a um corte em Março depois de a inflação continuar a surpreender pela negativa.
O Banco Central do Brasil
Em Janeiro, o banco central brasileiro manteve a sua taxa Selic em 15% e sinalizou claramente que iniciará o ciclo de cortes na reunião desta semana.
A sua taxa de juro encontra-se no nível mais alto desde Julho de 2006,e o Conselho de Política Monetária confirmou no comunicado que deverá começar a flexibilizar a política monetária em Março, caso o cenário esperado se confirme. Uma vez mais, os mercados dividem-se entre um corte ou a manutenção da sua taxa actual. O Brasil tem vivido sob pressão cambial e com uma inflação que, apesar de ter regressado ao intervalo da meta em 2025 (4,26%), ainda mantém expectativas acima do objectivo de 3% para 2026. Apesar do corte estar sinalizado, o conflito no Irão, com os preços da energia a disparar, voltou a colocar dúvidas nesse corte, e/ou na sua amplitude.
O Banco Popular da China
O PBoC irá decidir sobre as Loan Prime Rates, onde o mercado espera que mantenha as suas taxas de referência a um ano nos 3,0% e a cinco anos em 3,5%, que seguem inalteradas há oito meses consecutivos.