A semana que começa
Semana volátil à vista

A semana que começa Semana volátil à vista

Uma semana que promete voltar a ser agitada nos mercados financeiros, continuando dominada pelo conflito no Médio Oriente e pelas suas ramificações directas no petróleo e na inflação

Depois de uma semana passada em que os principais bancos centrais viraram o discurso para um viés claramente hawkish, os investidores entram nestes dias com nervos à flor da pele, e com razão.

O epicentro continua a ser o Médio Oriente. Desde os ataques conjuntos EUA-Israel ao Irão no final de Fevereiro, o Estreito de Hormuz permanece praticamente encerrado, e as instalações energéticas iranianas foram alvo de novas ofensivas. O resultado é visível: o Brent disparou para níveis acima dos 100-114 dólares por barril (ganhos de mais de 40-70 % desde o início do conflito), com picos pontuais ainda mais altos. Este choque energético não é passageiro: está a alimentar pressões inflacionistas globais e a travar expectativas de descida rápida das taxas de juro.



A semana passada foi o melhor exemplo. O Fed manteve as taxas e reduziu as projecções de cortes para apenas um em 2026, com Jerome Powell a admitir abertamente que os preços do petróleo vão empurrar a inflação para cima no curto prazo. O BCE, pela sua parte, deixou as taxas inalteradas mas reviu a inflação para 2,6 % este ano (acima da meta), citando exactamente o mesmo choque energético. O BoE foi ainda mais explícito: sinalizou estar “pronto a actuar” e os mercados já precificam duas subidas de taxas em 2026. Resultado? Acções em queda, yields a subir e ouro a registar a pior semana desde 2020. O viés hawkish generalizado reflecte o medo de que o petróleo caro reacenda a inflação e complique o caminho para o alívio monetário.

Esta semana, o foco mantém-se nos mesmos temas, mas com novos capítulos. Na quinta-feira, 26 de Março, decidem o Norges Bank, o Banxico e o SARB — três bancos centrais que já vinham a ser cautelosos e que agora enfrentam um cenário ainda mais complicado pela energia cara. O Norges, em particular, publica o novo Monetary Policy Report e estreia o “Summary of Committee deliberations”: qualquer sinal de maior paciência ou, pelo contrário, de risco de reversão, vai mexer com a coroa norueguesa.



Mas o que mais vai mover os mercados são os discursos de responsáveis do BCE e da Fed. Depois das reuniões da semana passada, vários membros vão falar publicamente, e o tema central será precisamente o forward guidance. Vão reafirmar a abordagem “data-dependent” ou vão abrir a porta a uma postura ainda mais restritiva se o petróleo não recuar? Um tom mais hawkish pode reforçar a pressão sobre as obrigações e as acções; um discurso mais moderado, reconhecendo que o choque pode ser temporário, aliviaria as expectativas de taxas altas por mais tempo.

Em suma, esta é uma semana de vigilância máxima. O conflito no Médio Oriente e o petróleo acima dos 100 dólares transformaram o quadro macro: a inflação já não é só um eco do passado, é um risco presente. Os bancos centrais mostraram na semana passada que não vão hesitar em manter (ou até apertar) a política monetária para a controlar. Os discursos desta semana vão dizer-nos se essa linha se mantém ou se há espaço para alguma flexibilidade. Até lá, volatilidade é a palavra de ordem — e os investidores farão bem em manter as posições leves e os stops apertados.



Dados Económicos



Estados Unidos da América
Uma semana mais tranquila quando falamos de indicadores económicos, onde as atenções irão estar especialmente voltadas para os dados da actividade económica privada.
Depois de um primeiro dia onde apenas teremos a divulgação do índice de actividade nacional da Fed de Chicago, a semana arranca com os PMI da S&P Global. A actividade económica privada deverá mostrar um ligeiro abrandamento, com as previsões a apontarem uma queda do PMI composto de 51,9 para 50,5. A actividade manufactureira deverá cair de 51,6 para 50,2 e a de serviços de 51,7 para 50,4.
Teremos também a divulgação do índice manufactureiro de Richmond, onde as estimativas apontam para uma subida de -10 para -5, e ainda os dados privados semanais do mercado de trabalho da ADP, onde na semana passada mostraram um aumento de 9.000 empregos.
Na quinta-feira teremos mais dados do emprego, os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, com as estimativas a apontarem para 211 mil, ligeiramente acima dos 205 mil da semana anterior.
A semana termina com os números revistos da confiança do consumidor e das expectativas de inflação da Universidade de Michigan.

Zona Euro
Na agenda económica desta semana destacam-se os indicadores de actividade económica privada, da confiança do consumidor e da inflação.
A semana começa logo com o índice de confiança do consumidor do Eurostat, onde o consenso aponta, sem surpresa, um recuo dos -12 do mês anterior, para -15. Seguem-se os PMI, onde as estimativas apontam para um arrefecimento da actividade económica, principalmente no sector industrial.
Começamos por ter a divulgação dos PMI em França, onde o consenso mostra um PMI composto inalterada nos 49,9, em ligeira contracção, com o sector manufactureiro a cair de 50,1 para 49,9, voltando para terreno de contracção, e o de serviços a subir de 49,6 para 49,9.
Na Alemanha, o PMI composto deverá recuar de 53,2 para 52,2, onde o PMI de serviços cai de 53,5 para 52,5 e o manufactureiro de 50,9 para 49,9, voltando de novo para território de contracção.
Teremos então os dados agregados da Zona Euro, com as previsões a mostrarem uma queda do PMI composto de 51,9 para 50,4, onde a actividade de serviços recua de 51,9 para 50,5 e a industrial cai de 50,8 para 49,8.
Na quarta-feira teremos o índice alemão de confiança empresarial IFO, onde o consenso aponta para uma queda dos 88,6 do mês passado, para 86,3.
Iremos ter mais dados da confiança do consumidor, desta vez na Alemanha com o índice GfK, devendo também mostrar uma queda de -24,7 para -28,6.
Finalmente, no último dia da semana, iremos ter os primeiros dados dos preços deste mês de Março, com a divulgação em Espanha da inflação. Segundo as previsões, os preços em termos mensais deverão mostrar uma subida de 0,2%, desacelerando dos 0,4% do mês de Fevereiro, com a inflação anual a subir de 2,3% para 2,4%. Sem energia nem alimentação, a inflação subjacente deverá abrandar de 2,7% para 2,6%.

Reino Unido
A semana começa com as atenções colocadas nos PMI, que deverão, segundo as estimativas, mostrar um ligeiro abrandamento na actividade económica.
O PMI composto da S&P Global deverá recuar de 53,7 para 53,0, onde o sector de serviços cai de 53,9 para 52,8 e o manufactureiro de 51,7 para 51,1. Teremos também as CBI Realized Sales, cujo índice deverá subir ligeiramente de -43 para -40.
De seguida as atenções irão estar nos dados da inflação de Fevereiro, com as previsões a apontarem para uma subida mensal dos preços de 0,6%, após a queda de 0,5% no mês anterior e a inflação anual a manter-se nos 3%. Sem alimentos nem energia, os preços deverão mostrar um aumento de 0,2% em termos mensais, com a inflação subjacente a manter-se nos 3,1%.
A semana terminará com a divulgação do índice de confiança do consumidor GfK, onde o consenso mostrar uma queda de -19 para -24, e ainda com os dados das vendas a retalho do mês de Fevereiro, que deverão mostrar uma queda mensal de 0,3%, após o aumento de 1,8% no mês anterior, onde se excluídas as vendas de combustível, deverão mostrar um aumento de 0,2%, desacelerando do crescimento de 2% apresentado no mês de Janeiro.

Suíça
Mais uma semana ligeira de indicadores económicos, onde teremos a divulgação dos números da conta corrente do quarto trimestre, com as previsões a mostrarem um excedente de 12,5 mil milhões de francos suíços, após os 15,4 mil milhões do trimestre anterior, e ainda o índice de confiança económica, onde o consenso aponta uma queda dos 9,8 para 3,5.

Japão
As atenções estarão voltadas para os dados da inflação nacional, que serão divulgados logo no início da semana. Em Fevereiro, os preços em termos mensais deverão apresentar uma subida de 0,2%, com a inflação anual a cair de 1,5% para 1,3%, onde sem alimentos frescos, a medida seguida mais de perto pelo Banco do Japão, deverá cair de 2% para 1,7%.
Iremos ter os dados da actividade económica da S&P Global, onde o PMI composto deverá mostrar uma queda de 53,9 para 51,3, onde a actividade manufactureira cai de 53 para 52,3 e a de serviços de 53,8 para 51,5.

Austrália
A agenda desta semana começa com os dados da actividade económica privada e termina com os dados da inflação.
O PMI composto deverá mostrar um crescimento da actividade económica australiana, com as estimativas a apontarem para uma subida do índice de 52,4 para 54,4, onde o sector dos serviços irá liderar com uma subida de 52,8 para 54,7 e o manufactureiro a avançar de 51 para 51,6.
Mais tarde teremos dados dos preços referentes ao mês de Fevereiro. Em termos mensais, os preços deverão mostrar uma subida ligeira de 0,1%, desacelerando dos 0,4% no mês anterior, com a inflação anual a manter-se nos 3,8%. A medida seguida mais de perto pelo banco central, a RBA Trimmed Mean, deverá mostrar uma subida mensal de 0,3% e anual de 3,4%, em linha com o mês anterior.



Bancos Centrais



O Norges Bank
O banco central norueguês, depois de ter mantido a sua taxa inalterada em Janeiro, o mercado continua a precificar um ciclo de descidas gradual ao longo de 2026, mas o contexto actual é de elevada incerteza.
A inflação norueguesa tem mostrado resiliência, o petróleo (crucial para a economia) mantém-se volátil e as tensões geopolíticas recentes adicionam um viés de alta aos preços da energia. O banco tem sido dos mais cautelosos na Europa desenvolvida nos últimos tempos e, por isso, muitos analistas esperam que mantenha a taxa nos 4 % nesta reunião, adiando qualquer alívio para o terceiro trimestre ou mesmo para mais tarde.
O que vai pesar mais é a nova trajectória da taxa no relatório e o tom da comunicação: se o comité sinalizar maior paciência (ou até risco de reversão), a coroa norueguesa pode ganhar terreno; se abrir a porta a cortes mais cedo, a coroa sair pressionada. A conferência de imprensa e o novo “Summary of Committee deliberations”, que estreia precisamente nesta reunião, vão merecer atenção redobrada.

O Banco de México
Depois de ter retomado o ciclo de descidas no final de 2025 e mantido a taxa em inícios de 2026, o Banxico encontra-se numa encruzilhada: os mercados dividem-se quase ao meio entre manutenção e corte de 25 pontos base.
A inflação tem mostrado recentemente alguma firmeza, mas o núcleo parece pronto a retomar a trajectória descendente no segundo trimestre. O crescimento económico surpreendeu positivamente em algumas leituras, o que dá algum conforto, mas as incertezas externas (tarifas comerciais, Fed) aconselham prudência.
Vários analistas apontam para um corte de 25 pontos como provável (levando a taxa para 6,75 %), retomando assim o alívio gradual rumo a uma taxa terminal nos 6,50 % ou ligeiramente abaixo. No entanto, não faltam vozes que defendem uma pausa “dovish” para digerir os dados mais recentes e evitar reacender expectativas inflacionistas.

O South African Reserve Bank (SARB)
Após a decisão de Janeiro (quatro votos pela manutenção, dois para corte de 25 pontos), o consenso aponta claramente para que o banco central sul-africano avance com nova pausa na reunião desta semana.
A inflação sul-africana tem-se comportado bem (próxima da meta de 3 % em média anual), mas o rand continua vulnerável a choques externos, nomeadamente preços da energia e metais. O crescimento económico avança devagar, mas sem sinais de aceleração forte que justifiquem alívio imediato. O comité tem insistido que as decisões são “data-dependent” e reunião a reunião, o que sugere que só cortará quando tiver maior confiança na sustentabilidade da desinflação.


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