Semana Revista
Mais perto de um acordo
Uma semana marcada pelo alívio geopolítico no Médio Oriente, revisão da projecção económica do FMI, arranque de resultados trimestrais e mais mensagens de banqueiros centrais
Esta semana ficou marcada por três eixos claros: alívio geopolítico no Médio Oriente, revisão em baixa do enquadramento macro global pelo FMI e arranque de resultados trimestrais com um tom, no geral, mais resistente do que o receado pelo mercado. Em paralelo, a mensagem dos bancos centrais manteve-se prudente, com o BCE, a Fed, o Banco de Inglaterra e o Banco do Japão a evitarem compromissos rígidos num ambiente ainda muito dependente dos dados e dos choques de energia.

O Estreito de Ormuz e o Líbano: sinais de abertura
A notícia mais aguardada chegou na sexta-feira: o Irão anunciou que o Estreito de Ormuz está agora completamente aberto ao tráfego comercial. Depois de semanas de bloqueio que puseram em causa cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo, a abertura representa um passo decisivo para o fim da guerra que, desde finais de Fevereiro, opõe os Estados Unidos e Israel ao Irão. Os preços do petróleo reagiram em conformidade, caindo de forma acentuada após o anúncio.
Também no Líbano, a semana terminou com um cessar-fogo de dez dias a entrar em vigor. Trump anunciou que os líderes de Israel e do Líbano acordaram a trégua, que seguiu conversas que descreveu como "excelentes" com o Presidente libanês Joseph Aoun e o Primeiro-Ministro israelita Benjamin Netanyahu. O Vice-Presidente JD Vance desempenhou um papel central na mediação do acordo, tendo pressionado os israelitas durante dias para que fossem mais cuidadosos no Líbano, na convicção de que um fim das hostilidades nesta frente poderia ajudar a acalmar as tensões regionais mais alargadas. A trégua é frágil, com a posição do Hezbollah a permanecer incerta e Israel a recusar comprometer-se com a retirada do sul do Líbano, mas representa ainda assim o momento diplomático mais significativo desta fase do conflito.

FMI com más notícias em Washington
Nas reuniões de primavera realizadas em Washington, o FMI apresentou as suas novas perspectivas económicas. A conclusão é sombria: a economia mundial estava numa trajectória de crescimento estável, em torno de 3,3% nos últimos anos, e o Fundo estava a preparar-se para rever as suas projecções em alta. A guerra travou esse impulso, com o crescimento projectado agora em 3,1% para 2026, e a inflação a subir para 4,4%, uma ruptura nítida com a tendência anterior.
A inflação global deverá subir modestamente em 2026 antes de retomar a sua descida em 2027. As pressões concentram-se nas economias emergentes e em desenvolvimento, especialmente nas importadoras de matérias-primas com vulnerabilidades pré-existentes. O cenário mais severo não é animador: num cenário adverso, o crescimento global seria reduzido em 1,3 pontos percentuais em 2026, aproximando-se perigosamente de uma recessão global, situação que só ocorreu quatro vezes desde a Segunda Guerra Mundial. O economista-chefe Pierre-Olivier Gourinchas sublinhou que os riscos são assimétricos: uma escalada da guerra, novas tensões comerciais ou uma reavaliação da rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial poderiam enfraquecer ainda mais o crescimento, ao passo que uma resolução rápida do conflito poderia relançar a economia global.

O BCE: prudência acima de tudo
Esta semana foram publicadas as minutas da reunião de 18 e 19 de Março do Conselho de Governadores do BCE, que decidiu manter as taxas de juro inalteradas. As taxas sobre a facilidade de depósito, as operações principais de refinanciamento e a facilidade de crédito permaneceram em 2,00%, 2,15% e 2,40%, respectivamente.
As minutas revelam um Conselho consciente do dilema que enfrenta. A guerra no Médio Oriente tornou o panorama significativamente mais incerto, criando riscos ascendentes para a inflação e descendentes para o crescimento. A decisão reflectiu a determinação dos membros do Conselho em manter a calma e a responsabilidade perante os cidadãos europeus, recusando ceder a reacções emocionais face às perturbações energéticas imediatas, sublinhando que manterá uma abordagem dependente dos dados, reunião a reunião, sem se comprometer com qualquer trajectória pré-definida de taxas.
Esta semana, os membros do Conselho de Governadores intervieram em vários eventos durante a semana. Os discursos reforçaram a mensagem de manutenção das taxas de juro inalteradas, com ênfase na elevada incerteza provocada pela guerra no Médio Oriente. Os responsáveis destacaram os riscos de inflação no curto prazo devido aos preços da energia, mas também os riscos de abrandamento do crescimento económico. A comunicação manteve-se cautelosa, continuando sem compromissos com trajectórias futuras de taxas, privilegiando a flexibilidade para responder aos dados que vão chegando. A análise económica sublinhou o impacto negativo na actividade, parcialmente compensado por despesas públicas em defesa e infra-estruturas, e uma inflação subjacente ainda acima da meta de 2%.

Uma Fed vigilante
Os discursos dos membros do FOMC (Comité Federal de Mercado Aberto da Reserva Federal dos EUA) seguiram uma linha semelhante à dos do BCE. Os responsáveis salientaram a solidez actual da economia americana, com crescimento sólido e desemprego baixo, mas alertaram para os efeitos incertos do conflito no Médio Oriente sobre os preços da energia e as expectativas de inflação. A política monetária foi mantida inalterada, com a maioria a considerar apropriada a actual postura restritiva para garantir o regresso sustentável da inflação aos 2%. A vigilância sobre os riscos em ambos os lados do mandato duplo, emprego máximo e estabilidade de preços, foi uma constante.

Andrew Bailey: independência e paciência
Andrew Bailey, governador do Banco de Inglaterra, participou esta semana em dois momentos de destaque. Na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, argumentou que a independência moderna dos bancos centrais está bem definida no que respeita à política monetária, mas destacou os desafios desta independência no que toca ao mandato de estabilidade financeira, onde os objectivos são mais difíceis de medir e as decisões interagem mais directamente com interesses privados e outras políticas públicas. No dia seguinte, numa entrevista à BBC, Bailey sinalizou não estar com pressa de subir as taxas de juro, argumentando ser demasiado cedo para avaliar o impacto económico da guerra no Irão, que descreveu como um "choque energético muito grande", sublinhando que a duração do conflito será um factor determinante.

Kazuo Ueda: prudência no Banco do Japão
O governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, em Washington para reuniões com outros responsáveis de política económica, fez-se representar em Tóquio pelo seu vice-governador Ryozo Himino, que leu o seu discurso. Ueda apelou a uma vigilância acrescida face ao impacto da guerra no Médio Oriente, afirmando que "os mercados financeiros globais estão instáveis e os preços do petróleo bruto estão a subir acentuadamente devido às tensões no Médio Oriente." A subtil mudança de linguagem, ao sublinhar que o BoJ irá "monitorizar de perto a situação no Médio Oriente" em vez de reafirmar simplesmente o caminho de subida de taxas, fez cair a probabilidade de uma subida de taxas a 28 de Abril de cerca de 60% para pouco mais de 33%. Para um país importador de recursos como o Japão, a subida dos preços do petróleo representa uma pressão descendente sobre a economia, o que complica o processo de normalização da política monetária nipónica.

Época de resultados: os bancos brilham, o luxo tropeça
A época de resultados do primeiro trimestre de 2026 arrancou em força, com os grandes bancos norte-americanos a darem o pontapé de saída.
O Goldman Sachs abriu as hostilidades na segunda-feira com números impressionantes: receitas de 17,23 mil milhões de dólares, lucros líquidos de 5,63 mil milhões e um retorno sobre o capital próprio de 19,8%, apoiados em receitas recorde na negociação de acções. No dia seguinte, o JPMorgan Chase reportou um lucro líquido recorde de 16,5 mil milhões de dólares no primeiro trimestre, impulsionado por um ressurgimento da banca de investimento e por uma base de clientes robusta, embora a gestão tenha adoptado um tom cauteloso, reduzindo as perspectivas anuais face aos riscos geopolíticos. O Citigroup deu à empresa a melhor receita trimestral em uma década: receitas de 24,63 mil milhões de dólares, um aumento de 14%, e lucros por acção de 3,06 dólares, comparados com 1,96 dólares no período homólogo, beneficiando amplamente da volatilidade dos mercados. Os mercados de acções subiram 39% e os de rendimento fixo 13%, com a receita total de mercados a superar os 7 mil milhões de dólares pela primeira vez em dez anos. O Wells Fargo registou um lucro líquido de 5,25 mil milhões de dólares, ou 1,60 dólares por acção, acima dos 4,89 mil milhões do período homólogo, embora o rendimento líquido de juros tenha ficado abaixo das estimativas, mantendo o banco sob pressão relativa face aos seus pares. O Bank of America completou o conjunto com uma prestação sólida: receitas de 30,3 mil milhões de dólares, um crescimento de 7%, e um lucro líquido de 8,6 mil milhões de dólares, com os lucros por acção a subirem 25% face ao ano anterior.
A Netflix reportou receitas que atingiram 12,25 mil milhões de dólares, um crescimento de 16% face ao trimestre homólogo de 2025, batendo as estimativas dos analistas. Os lucros foram amplificados por uma indemnização de 2,8 mil milhões recebida após o abandono da tentativa de aquisição da Warner Bros. Ainda assim, as acções caíram, em parte por conta da saída anunciada do fundador Reed Hastings do conselho de administração e de perspectivas para o segundo trimestre consideradas moderadas pelo mercado.
Na Europa, o panorama foi mais difícil. A LVMH reportou receitas de 19,1 mil milhões de euros, ligeiramente abaixo das expectativas, com um crescimento orgânico de apenas 1%, penalizado em cerca de 1 ponto percentual pelo conflito no Médio Oriente, uma região que representa cerca de 6% do negócio do grupo e onde as vendas nas lojas caíram entre 30% e 70%. A Hermès, por seu lado, surpreendeu negativamente: receitas consolidadas de 4,07 mil milhões de euros, ficando ligeiramente abaixo do consenso. A BMW viu os seus volumes mundiais recuarem: 565.748 veículos entregues no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 3,5%, com particular fraqueza nos EUA e numa China onde os volumes caíram 10%. A ASML, fabricante holandesa de equipamentos de litografia essenciais à produção de semicondutores, apresentou resultados que, apesar de aparentemente sólidos, vendas líquidas de 8,8 mil milhões de euros e um lucro líquido de 2,8 mil milhões no primeiro trimestre, ficaram abaixo do trimestre precedente em volume de sistemas entregues, num contexto de incerteza sobre o ciclo de investimento da indústria de semicondutores.

Trump contra Powell: o regresso de uma batalha antiga
A semana não terminou sem mais uma troca de farpas entre a Casa Branca e a Reserva Federal. Na quarta-feira, numa entrevista à Fox Business, Trump afirmou que despedirá Powell se este não se retirar por vontade própria quando o seu mandato expirar a 15 de Maio, chamando-lhe um "desastre" para o país. A complicar o cenário, há uma investigação criminal do Departamento de Justiça sobre custos de renovação da sede da Fed que um juiz federal já considerou ser, na realidade, uma manobra de pressão política, e que o senador republicano Thom Tillis tem usado como pretexto para bloquear a confirmação de Kevin Warsh, o candidato de Trump para suceder a Powell. As ameaças e pressões de Trump sobre os responsáveis da Fed apenas têm levado os banqueiros centrais a adiar cortes de taxas e a aguardar que a situação se resolva, uma abordagem com que até o Secretário do Tesouro Scott Bessent disse recentemente concordar. A ironia é que, ao atacar a Fed, Trump prejudica os próprios objectivos que afirma defender.
Dados Económicos

Nos Estados Unidos foi uma semana ligeira de indicadores económicos de primeira linha, com os mercados a olharem principalmente para os dados dos preços à porta das fábricas. Os números do índice de preços do produtor mostraram uma subida de 0,5%, bem abaixo das expectativas do mercado que apontavam para 1,2%, onde os números de Fevereiro foram também revistos em baixo para 0,5%. Sem alimentos nem energia os preços subiram em Março 0,1%, abaixo dos 0,5% estimados e com o índice do mês anterior a ser revisto também em baixo de 0,5% para 0,3%.
A semana começou com a divulgação dos dados das vendas de imóveis usados em Março, que mostraram uma queda em Março de 3,6%, bem mais que os 2% estimados, com os números do aumento de Fevereiro a serem revistos em alta para 2,7%. Mais tarde, o índice NAHB do mercado imobiliário mostrou uma queda de 38 para 34, ficando abaixo dos 37 estimados.
Os números semanais do emprego da ADP mostraram uma subida dos 26 mil empregos da semana anterior, para 39,3 mil, a leitura mais elevada desde a introdução deste indicador. Os números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego caíram dos 218 mil pedidos para 207 mil, abaixo dos 207 mil esperados.
O índice de pequenas e médias empresas NFIB recuou de 98,8 para 95,8, uma queda superior à esperada para 98,6.
O índice manufactureiro de Nova Iorque mostrou uma subida de -0,2 para 11, bem acima dos 0,6 estimados pelo mercado, enquanto o índice manufactureiro da Fed de Filadélfia surpreendeu os mercado ao subir de de 18,1 para 26,7, bem acima das previsões que apontavam para 10,5.
Tivemos ainda os números da produção industrial que mostraram uma queda inesperada no mês de Março de 0,5%, face a um crescimento modesto estimado de 0,1%, com o crescimento de Fevereiro a ser revisto em alta de 0,2% para 0,7%.
Na Zona do Euro foi também uma semana leve de dados económicos.
Começamos por ter os números da produção industrial do agregado da Zona Euro, que superaram as previsões do mercado ao aumentarem 0,4%, face a 0,2% estimados, e com os números de Fevereiro a serem revistos em alta mostrando uma queda de 0,8%, contra a de 1,5% na leitura preliminar.
Os números da balança comercial de Fevereiro saíram também acima das estimativas do mercado, ao apresentarem um excedente de 11,5 mil milhões de euros, face a 9,8 mil milhões esperados, e com o défice apresentado em Janeiro a ser revisto em baixo de 1,9 mil milhões de euros para mil milhões.
Tivemos os dados finais da inflação, que foram revistos ligeiramente em alta de 2,5% para 2,6% e confirmaram os dados preliminares da inflação subjacente de 2,3%.
Na Alemanha, o índice de preços grossistas de Março, mostraram um aumento mensal de 2,7%, bem acima do aumento de 0,4% estimado e dos 0,6% registados no mês anterior.
Em Itália a balança comercial apresentou um excedente de 4,94 mil milhões de euros, ficando acima dos 4,7 mil milhões de euros previstos.
No Reino Unido, os números do PIB mostraram um crescimento da economia britânica bem acima do esperado pelos mercados. O PIB de Fevereiro mostrou um crescimento de 0,5%, bem acima dos 0,1% previstos, com os números de Janeiro a serem revistos em alta para 0,1%.
A produção industrial aumentou 0,5%, acima dos 0,2% previstos, e os números da balança comercial mostraram um défice mensal de 720 milhões de libras, bem abaixo do défice previsto de 3,6 mil milhões, com o excedente do mês anterior a ser revisto em baixo de 3,9 mil milhões de libras para 3 mil milhões.
Tivemos ainda a divulgação do índice BRC Retail Sales Monitor, que subiu de 0,7% para 3,1%, ficando bem acima dos 2,7% estimados.
No Canadá, os números das licenças de construção de Fevereiro caíram 8,4%, bem mais do que a queda estimada de 0,4% e com o crescimento anterior a ser revisto em baixo de 4,8% para 3,5%.
As vendas manufactureiras aumentaram 3,6%, menos do que as 3,8% estimadas, tal como as vendas grossistas, que cresceram 2%, ficando abaixo dos 2,3% esperados.
Finalmente, os números do início de construção de imóveis em Março, caíram de 251 mil do mês anterior, para 236 mil, ficando abaixo dos 253 mil estimados pelos mercados.
Na Suíça o índice de preços importados e do produtor subiram 0,2%, bem em linha com as previsões do mercado e após a queda em Fevereiro de 0,3%.
Na China tivemos uma semana muito movimentada, repleta de dados económicos.
As atenções foram especialmente para o PIB, que mostrou que a economia chinesa cresceu 5% em termos homólogos no primeiro trimestre deste ano, ligeiramente acima dos 4,8% esperados. O ritmo trimestral de 1,3% foi o mais rápido desde o quarto trimestre de 2024, mas ainda assim abaixo dos estimados 1,4%.
Também em destaque estiveram os números da balança comercial do mês de Março, que desiludiram as estimativas do mercado ao mostrarem um excedente de 51,1 mil milhões de dólares, face a cerca de 110 mil milhões estimados, com um aumento das importações de 13,8% para 27,8% e uma queda das exportações de 39,6% para 2,5%.
Os números da produção industrial mostraram um crescimento de 5,7% em Março, superando as previsões dos analistas que esperavam por 5,4%, após os 6,3% apresentados em Fevereiro.
As vendas a retalho de Março ficaram aquém das expectativas, crescendo apenas 1,7% em termos homólogos, face a uma média de 2,8% nos dois primeiros meses do ano, e dos 2,4% estimados pelo mercado.
Os preços da habitação caíram 0,21% em termos mensais, menos do que o observado recentemente, com a medida anual a mostrar uma queda de 3,4%, enquanto a taxa de desemprego aumentou de 5,3% em fevereiro para 5,4% em Março, o nível mais elevado desde Fevereiro do ano passado, e contrariando as estimativas que apontavam para uma queda para 5,2%.
O investimento em activos fixos mostrou um aumento de 1,7%, abaixo dos 2% estimados, desacelerando dos 1,8% do mês anterior.
Os números dos novos empréstimos em yuans aumentaram dos 900 mil milhões de yuans em Fevereiro, para 2.990 mil milhões em Março, ainda assim ficaram abaixo dos 3.400 mil milhões estimados.
No Japão tivemos a divulgação das encomendas de maquinaria de Fevereiro, excluindo a dos navios e das centrais eléctricas, que superaram as expectativas do mercado ao aumentarem 13,6%, face a uma redução esperada de 0,8%, após a queda de 5,5% no mês de Janeiro.
Na Nova Zelândia, tivemos apenas o índice de serviços BusinessNZ, que caiu de 47,6 (revisto em baixo de 48,0) para 46,0, contrariando uma subida estimada para 50,6.
Na Austrália, as atenções foram principalmente para os dados do mercado de trabalho. O emprego na Austrália cresceu em 17,9 mil postos de trabalho em Março, com o crescimento impulsionado pelo emprego a tempo inteiro (52,5 mil), enquanto se verificou uma redução nos empregos a tempo parcial (34,6 mil). A taxa de desemprego manteve-se estável em 4,3%, enquanto a taxa de participação caiu de 66,9% para 66,8%.
Anteriormente tivemos a divulgação do índice de confiança do consumidor Westpac que caiu 12,5%, uma queda bem mais expressiva do que a de 1,8% estimada, tal como a do índice de confiança empresarial NAB que caiu de -1 para -29, face a -6 estimado pelos mercados.
Mercados accionistas
A semana ficou marcada por um “rally de alívio” que permitiu aos mercados globais completar uma recuperação em V relativamente rápida. Os investidores parecem apostar numa contenção duradoura do conflito e num impacto limitado na economia mundial. Ainda assim, a cautela mantém-se, onde qualquer reversão nas negociações ou novo choque nos preços da energia poderá rapidamente alterar o sentimento. A temporada de resultados em curso e as próximas decisões dos bancos centrais continuarão a ditar o ritmo nos dias que se seguem.
Ásia
No Japão, o índice Nikkei ganhou esta semana 2,73%, enquanto o Topix avançou marginalmente 0,56%. Na Austrália, o ASX 200 recuou também marginalmente 0,15%, sendo a excepção que confirmou a regra. O Kospi, na Coreia do Sul, voltou a liderar os ganhos, ao subir 5,68%. Na China, os principais índices terminaram também em ganhos significativos, com o CSI300 a avançar 1,99%, o Shanghai Composite 1,64% e o Hang Seng 1,03%. Na Índia, o índice Nifty 50 ganhou 1,26%, ligeiramente acima dos 1,22% ganhos pelo Sensex.
Europa
O índice Euro Stoxx 600 ganhou esta semana 1,91% e o Euro Stoxx 50 2,29%, enquanto na Alemanha, o índice DAX liderava os ganhos, ao valorizar 3,77%. Em França, o índice CAC 40 avançou 2,00%, enquanto o FTSE 100, no Reino Unido, registou um ganho modesto de 0,63%. Por cá, por Portugal, o PSI 20 negociou em contraciclo, perdendo esta semana 2,89%.
Estados Unidos
Foi uma semana de ganhos significativos para os principais índices de Wall Street, onde o Dow Jones foi o que menos ganhou, avançando 3,19%, enquanto o S&P 500 subiu 4,53% e o Nasdaq 6,84%, liderando os ganhos.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
Mercado cambial
O mercado cambial registou esta semana movimentos significativos, dominados pela evolução da situação no Médio Oriente e pelo forte alívio gerado no final da semana.
No início da semana, o dólar americano beneficiava de um ambiente de aversão ao risco, impulsionado pelas tensões no Estreito de Ormuz e pelos preços elevados do petróleo. O índice DXY começou a semana em torno dos 99 pontos, sustentado pela percepção de “porto seguro” e pelos yields mais elevados nos Estados Unidos. O euro e a libra esterlina sofreram pressão, enquanto o iene japonês oscilou entre ganhos modestos como moeda de refúgio e perdas relacionadas com o défice energético do Japão.
A partir de meados da semana, o sentimento inverteu-se de forma clara. O anúncio do cessar-fogo entre Israel e o Líbano, seguido pela decisão do Irão de abrir completamente o tráfego comercial no Estreito de Ormuz, provocou uma queda acentuada nos preços do petróleo. Este “rally de alívio” retirou o prémio de segurança ao dólar, que perdeu força de forma generalizada.
O euro (EUR/USD) recuperou terreno, aproximando-se e ultrapassando os 1,1800 dólares, beneficiando da redução das preocupações inflacionistas na Europa e da menor exposição relativa ao choque energético. A libra esterlina (GBP/USD) acompanhou o movimento, ganhando terreno face ao dólar, embora com ganhos mais moderados devido aos desafios internos do Reino Unido. O iene (USD/JPY) também se valorizou, afastando-se temporariamente dos níveis próximos de 160 ienes por dólar, num contexto de menor aversão ao risco.
No conjunto, o dólar americano encerrou a semana com perdas face à maioria das principais moedas do G10. O DXY recuou de níveis próximos de 99 para a zona dos 98, reflectindo a rápida dissipação do prémio geopolítico. As moedas de mercados emergentes também mostraram recuperação selectiva, especialmente as mais sensíveis aos preços das commodities energéticas.
Os investidores mantiveram, no entanto, uma dose elevada de cautela. Embora o alívio tenha sido evidente, a fragilidade dos acordos de cessar-fogo e a possibilidade de reversões rápidas nas negociações impediram movimentos mais agressivos.
As moedas em destaque desta semana foram o dólar australiano e a coroa norueguesa, que ganharam cerca de 1,5%.
O dólar australiano viveu uma semana de recuperação gradual mas significativa. O AUD/USD subiu do mínimo de 0,7000 registado no início da semana para fechar a 0,7170, registando a terceira semana consecutiva de ganhos, suportado pela melhoria do sentimento de risco em torno das perspectivas de desanuviamento no Médio Oriente. A moeda australiana funciona como barómetro do apetite global pelo risco: quando os investidores acreditam que o pior geopolítico ficou para trás, o "Aussie" sobe. A isso acresceu um factor doméstico de peso: o mercado de trabalho australiano mostrou-se resiliente em Março, reforçando as probabilidades de que o RBA pode continuar a subir as taxas em Maio.
A coroa norueguesa percorreu um caminho diferente. Ao longo dos meses anteriores, tinha beneficiado enormemente da crise no Estreito de Ormuz: a Noruega exportou em Março petróleo no valor recorde de 57,4 mil milhões de coroas, uma subida de 67,9% em termos anuais, com o preço médio do crude a atingir 1.014 coroas por barril, o nível mais elevado desde Setembro de 2023, à medida que os compradores europeus substituíram abastecimentos do Médio Oriente por crude norueguês. A coroa chegou a tocar os 9,3150 face ao dólar, o nível mais forte desde Maio de 2022, uma trajectória suportada também por um Norges Bank que adoptou um tom mais hawkish, sinalizando uma provável subida de taxas em Junho face à pressão inflacionista trazida pelos preços da energia.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
Commodities
Petróleo
Os mercados petrolíferos viveram uma semana extremamente volátil, com um movimento em V bem definido: forte subida no início e queda acentuada no final.
No começo da semana, os preços do petróleo dispararam devido ao colapso das conversações entre os EUA e o Irão e ao receio de um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz. O Brent chegou a ultrapassar os 103 dólares por barril e o WTI os 105 dólares, reflectindo o prémio de risco elevado associado a potenciais disrupções no abastecimento global.
A partir de meados da semana, o sentimento inverteu-se rapidamente. O anúncio do cessar-fogo entre Israel e o Líbano, combinado mais tarde com a decisão do Irão de abrir completamente o tráfego comercial no Estreito de Ormuz, provocou um alívio massivo nos mercados. Os preços caíram com força: o Brent perdeu cerca de 8% numa única sessão e o WTI recuou perto de 12%. Em termos semanais, o Brent recuou cerca de 10% e o WTI 13%, com o Brent a fechar a semana nos 86,70 dólares e o WTI nos 83,10 dólares.
Esta descida acentuada reflectiu a dissipação do prémio geopolítico e a expectativa de uma normalização gradual dos fluxos de crude e gás natural da região. No entanto, os analistas mantiveram alguma cautela, pois o tráfego no estreito ainda não regressou imediatamente aos níveis normais e a fragilidade do cessar-fogo pode levar a reversões rápidas.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
Ouro
O ouro começou a semana a negociar em perdas acentuadas, com as tensões no Médio Oriente a manterem-se elevadas, tal como se mantinham elevados os preços do petróleo, continuando a sustentar receios inflacionistas que levavam a subida das yields obrigacionistas e a um posicionamento mais agressivo por parte das politicas monetárias dos bancos centrais.
No entanto, o recuar na escalada do conflito no Médio Oriente, e posteriormente no anúncio da reabertura do Estreito de Ormuz, levou a uma volta de 180 graus nas expectativas dos mercados, que voltam a projectar pelo menos um corte de taxas nos Estados Unidos ainda este ano, e com os responsáveis do Banco Central Europeu a mostrarem-se bem menos agressivos, sinalizando a manutenção de taxas na próxima reunião ainda este mês, com uma maior probabilidade de uma subida de taxas em Junho.
Além de uma queda nas yields obrigacionistas e nas expectativas de subida de taxas dos bancos centrais, um dólar mais fraco, ajudou ainda mais a impulsionar os preços do ouro.
A onça de ouro começou a semana a negociar a 4.670 dólares, recuperando durante toda a semana, para terminar a 4.855 dólares, valorizando um pouco menos de 4%.
Gráfico Fonte XTB xStation 5