A semana que começa
Uma semana bastante agitada

A semana que começa Uma semana bastante agitada

Uma semana de olhos postos no Médio Oriente, decisões dos principais bancos centrais, indicadores económicos de referência e resultados das gigantes tecnológicas, num teste decisivo ao sentimento dos mercados globais.

O Estreito de Ormuz continua “encerrado” e a crise energética vai aumentando. Os mercados irão continuar bem atentos às possíveis negociações entre os Estados Unidos e o Irão que poderão levar ao início de uma normalização no estreito.
A agenda económica desta semana está bastante bem preenchida de indicadores de primeira linha, desde os números de crescimento económico à inflação.
Uma semana com decisões de política monetária dos principais bancos centrais, com destaque óbvio para a Reserva Federal dos Estados Unidos e para o Banco Central Europeu.
Na frente microeconómica, são muitas as empresas que irão apresentar os resultados do primeiro trimestre deste ano, com os mercados especialmente de olho nas gigantes tecnológicas norte-americanas.




O Estreito de Ormuz continua no centro da tensão geopolítica e energética, com o mercado a acompanhar de perto qualquer sinal de descompressão. A situação ganhou algum ruído adicional este fim de semana depois de vários meios iranianos confirmarem que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, deixou o Paquistão antes da chegada da delegação norte-americana, ao mesmo tempo que Teerão voltou a insistir que não haverá conversações directas enquanto o bloqueio ao estreito se mantiver.

Do lado paquistanês, os mediadores parecem cada vez menos confiantes num desfecho rápido, com relatos a apontarem para um ambiente de pessimismo em torno das conversações. Ainda assim, o facto de Araghchi ter regressado ao circuito diplomático, e de persistirem contactos indiretos, deixa em aberto a possibilidade de um avanço, ainda que muito condicionado pela evolução no terreno e pela questão central do levantamento do bloqueio.

Ao mesmo tempo, a deslocação da delegação norte-americana também ficou envolta em incerteza, depois de Donald Trump ter confirmado que cancelou a viagem dos seus emissários ao Paquistão, alegando perda de tempo e confusão na liderança iraniana. A mensagem de Washington foi dura, mas não encerra completamente a porta à negociação, sobretudo porque a pressão sobre o mercado energético e sobre a estabilidade regional continua elevada.

Em termos de mercado, o quadro mantém-se delicado: enquanto o Estreito de Ormuz não voltar a operar com normalidade, a crise energética tende a prolongar-se e a sustentar a volatilidade do crude, dos activos de risco e até das expectativas para a inflação global. É precisamente por isso que os investidores continuam atentos não só ao desenrolar diplomático, mas também a qualquer pista sobre uma possível normalização da passagem no estreito.





A agenda económica desta semana está particularmente carregada de indicadores de primeira linha, com destaque para os números de crescimento e para a inflação. O interesse do mercado vai estar concentrado sobretudo nos dados preliminares de inflação de Abril e no PIB do primeiro trimestre da Zona Euro, que serão conhecidos poucas horas antes da decisão de política monetária do BCE, o que lhes confere um peso adicional na leitura sobre o rumo da política monetária nos próximos meses.

No caso da Zona Euro, as projecções apontam para uma inflação geral de 2,9% em termos anuais e para uma inflação subjacente de 2,2%, valores que, se confirmados, manterão viva a discussão sobre a persistência das pressões sobre os preços, apesar da desaceleração já observada em alguns componentes. Ao mesmo tempo, a divulgação do PIB do primeiro trimestre permitirá perceber se a economia está resiliente ou se mostra sinais de fragilidade, o que poderá condicionar a margem de manobra do BCE.

Do lado dos Estados Unidos, também serão publicados os dados do PIB do primeiro trimestre, num momento em que os investidores procuram confirmar se a economia norte-americana mantém um ritmo sólido ou se começa a perder ímpeto. Este ponto é particularmente relevante porque qualquer surpresa nestes números pode alterar a leitura sobre a resiliência da actividade e, por arrasto, influenciar as expectativas para a Reserva Federal.

No fundo, será uma semana em que os dados macroeconómicos vão pesar tanto como os próprios bancos centrais. Entre inflação, crescimento e expectativas de juros, o mercado terá material suficiente para ajustar a narrativa sobre a evolução da política monetária nas principais economias desenvolvidas.





Na frente microeconómica, a temporada de resultados do primeiro trimestre vai trazer muita informação relevante para os mercados, com os investidores particularmente atentos às gigantes tecnológicas norte-americanas, que continuam a ser o principal termómetro do apetite por risco em Wall Street. A Microsoft, a Amazon, a Alphabet, a Meta e a Apple vão dar uma leitura muito importante sobre a procura por serviços digitais, publicidade online, cloud e consumo de tecnologia, num momento em que o mercado quer perceber se o crescimento continua sólido ou se já há sinais de maior prudência por parte das empresas e dos consumidores.

Mas o interesse não se limita à tecnologia. Também a Eli Lilly, a Merck, a Amgen e a AbbVie vão ajudar a perceber como está a evoluir o sector farmacêutico, enquanto a Visa e a Mastercard deverão oferecer pistas sobre o comportamento do consumo e da actividade transaccional. No sector energético, os números da Chevron, da Exxon Mobil e da Total serão especialmente seguidos, até porque o contexto geopolítico continua a dar suporte à volatilidade do petróleo e aos lucros das grandes petrolíferas.

Na indústria e no consumo, os resultados da Coca-Cola, da GM, da Qualcomm, da Verizon e da Unilever vão ajudar a medir a resistência da procura e o impacto do ambiente económico mais desafiante. Na Europa, o mercado estará igualmente atento à Novartis e à Linde, ao Barclays, ao Lloyds Banking Group e ao NatWest Group, bem como à Airbus, à Air Liquide, à Schneider Electric, ao BNP Paribas, ao Banco Santander, ao BBVA e à Iberdrola, que darão uma leitura bastante abrangente sobre saúde financeira, investimento, consumo e actividade empresarial no continente.



Dados Económicos



Estados Unidos da América
Uma semana mais agitada que, além da reunião da Fed, conta com uma agenda económica mais bem preenchida que a anterior.
A semana começa com um dia mais tranquilo, onde teremos apenas a divulgação do índice manufactureiro da Fed de Dallas, com o mercado à espera de uma queda de -0,2 para -0,8.
Na terça-feira começamos por ter a divulgação dos números semanais do emprego da ADP, que na semana anterior registaram um novo máximo desde a sua constituição de 54,8 mil. Teremos também dados do mercado imobiliário, com o índice de preço dos imóveis S&P/Case Shiller, com as estimativas a apontarem para uma desaceleração de 1,2% para 1%. O índice manufactureiro da Fed de Richmond deverá mostrar uma queda de 0 para -4. Finalmente, e em destaque neste dia, teremos a divulgação do índice de confiança do consumidor da Conference Board, que também deverá mostrar uma queda, de 91,8 para 89,4.
Na quarta-feira teremos mais dados do mercado imobiliário referentes ao mês de Fevereiro. O início de construção de imóveis deverá mostrar uma redução de 5,2%, após o aumento de 7,2% no mês anterior, com o número de licenças de construção a reduzir em 1,9%, desacelerando da do mês de Janeiro de 4,7%. Iremos ter também os números das encomendas de bens duradouros de Março, com as estimativas a mostrarem um aumento de 0,5%, recuperando parte da queda de 1,3% do mês de Fevereiro, onde sem contar com os itens de transportes, deverão mostrar um aumento de 0,4%, desacelerando dos 0,9% anteriores. Teremos ainda os números de Março da balança comercial de bens, que deverão mostrar um aumento do défice de 83,5 mil milhões de dólares do mês anterior, para um de 86,3 mil milhões, e os números preliminares dos inventários grossistas deverão subir 0,3%, acelerando dos 0,2% do mês de Fevereiro.
Na quinta-feira, as atenções vão para os números do PIB do primeiro trimestre deste ano. As previsões apontam para um crescimento económico trimestral de 2,1%, após os 0,5% apresentados no trimestre anterior. Teremos também a medida preferida da Fed para a inflação, a Core PCE price index, com a medida em termos mensais a desacelerar dos 0,4% em Fevereiro, para 0,3% em Março, e a medida anual a subir de 3,0% para 3,1%. A despesa pessoal deverá mostrar uma aceleração de 0,4% para 0,9% e os rendimentos pessoais um crescimento de 0,3%, após a queda de 0,1% no mês anterior. O índice de custo do emprego do primeiro trimestre deverá mostrar um aumento de 0,8%, acelerando dos 0,7% do trimestre anterior. Teremos também os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, onde as estimativas apontam para uma queda ligeira dos 214 mil da semana anterior, para 212 mil, e ainda o índice Chicago PMI, com as estimativas a apontarem para uma subida de 52,8 para 55,3.
Finalmente, na sexta-feira, iremos ter a divulgação do ISM manufactureiro, com as previsões a apontarem para uma subida de 52,7 para 53,2, onde o sub índice do emprego deverá mostrar uma ligeira subida de 48,7 para 49, e o dos preços de 78,3 para 80,0. Teremos ainda a leitura final do PMI manufactureiro da S&P Global, que deverá confirmar o número preliminar de 54,0.

Zona Euro
Uma semana bem preenchida de eventos e dados económicos de primeira linha, onde a inflação e o crescimento económico, além da reunião do BCE, irão atrair especial atenção.
Na segunda-feira teremos a divulgação do índice alemão GfK de confiança do consumidor, com as estimativas a mostrarem uma queda de -28,0 para -30,2.
Na terça-feira teremos a taxa de desemprego do primeiro trimestre em Espanha, onde as previsões apontam para 9,8%, caindo dos 9,9% do trimestre anterior.
Na quarta-feira as atenções vão para os números da inflação do mês de Abril na Alemanha e em Espanha, onde os mercados prevêem uma subida mensal dos preços em Espanha de 1%, desacelerando dos 1% do mês anterior, com a inflação anual a subir de 3,4% para 3,6%. Na Alemanha a inflação deverá subir de 2,7% para 3%, com os preços em termos mensais a subirem 0,8%, desacelerando dos 1,1% em Março. Teremos ainda o índice de confiança económica da Comissão Europeia, com as estimativas a apontarem para uma queda de 96,6 para 95.
Na quinta-feira, teremos mais dados da inflação. Em França a inflação deverá subir de 1,7% para 1,8% e em Itália de 1,7% para 2,3%, com os preços em termos mensais a subirem 0,7%. No agregado da Zona Euro, os preços deverão mostrar um aumento mensal de 1%, desacelerando dos 1,3% no mês de Março, com a inflação anual a subir de 2,6% para 2,9% e a inflação subjacente a recuar de 2,3% para 2,2%. Teremos também os números do PIB do primeiro trimestre deste ano. Em Espanha, as previsões apontam para um crescimento económico de 0,5%, em França 0,2%, Alemanha e Itália 0,1% e Portugal 0%. No agregado da Zona Euro, as previsões apontam para um crescimento económico trimestral de 0,2%, em linha com o do último trimestre de 2025, onde em termos homólogos deverá mostrar um crescimento de 0,8%, abaixo dos 1,2% do trimestre anterior. Iremos ter ainda a taxa de desemprego do mês de Março, que deverá manter-se nos 6,2%.
Teremos ainda:
Em França, os números das despesas do consumidor que deverão mostrar uma subida de 0,7%, após a queda de 1,4% em Fevereiro.
Na Alemanha, teremos os números das vendas a retalho, que em Março deverão ter caído 0,7%, após a queda de 0,6% no mês anterior e ainda a taxa de desemprego que deverá manter-se nos 6,3%.
Em Itália, a taxa de desemprego em Março deverá mostrar uma subida de 5,3% para 5,4%.

Reino Unido
A semana começa com o índice CBI Realized Sales, onde o mercado estima uma subida dos -52 do mês anterior para -42.
Segue-se o índice de preços do retalho BRC, que deverá mostrar um aumento dos preços de 1,4% em termos homólogos, acelerando dos 1,2% apresentados no mês anterior.
Na sexta-feira iremos ter o índice de preço de imóveis da Nationwide., onde as previsões apontam para uma queda mensal de 0,3%, após o aumento de 0,9% no mês anterior. A aprovação de hipotecas deverá mostrar uma queda das 63 mil do mês anterior para 60 mil e os empréstimos líquidos a particulares uma desaceleração dos 6,8 mil milhões de libras do mês anterior, para 5,9 mil milhões. A leitura final do PMI manufactureiro da S&P Global deverá rever ligeiramente em baixo o número preliminar de 53,6 para 53,3.

Canadá
Por aqui teremos os números do PIB do mês de Fevereiro que deverão mostrar um crescimento mensal de 0,2%, acima dos 0,1% do mês anterior, e ainda o PIB preliminar do mês de Março, onde as previsões apontam para uma contracção mensal de 0,1%.

Suíça
O índice de confiança económica da UBS, segundo as estimativas, deverá cair de -35 para -40, tal como o barómetro económico KOF que deverá recuar de 96,1 para 95,3.
Teremos ainda os números das vendas a retalho de Março que, segundo as previsões, deverão mostrar um aumento de 0,3%, abaixo dos 0,4% apresentados no anterior mês de Fevereiro.

China
A semana começa com a divulgação dos lucros industriais YTD de Março, onde as previsões apontam para um crescimento de 18% em termos homólogos, acima dos 15,2% apresentados no mês anterior.
Esta semana é semana de PMIs. Os números oficiais da actividade económica, segundo as estimativas, deverão mostrar um pequeno crescimento. O PMI Geral deverá subir de 50,5 para 50,7, com a actividade manufactureira a subir de 50,4 para 50,6 e a de serviços de 50,1 para 50,4.
Iremos ter ainda os dados privados do índice manufactureiro da RatingDog, que deverão mostrar um ligeiro recuo dos 50,8 do mês anterior, para 50,7.

Japão
Uma semana bastante bem preenchida de indicadores económicos de primeira linha, que começa com a divulgação da taxa de desemprego de Março, que deverá manter-se nos 2,6%.
Mais tarde, na quinta-feira, teremos os números preliminares da produção industrial do mês de Março, onde as previsões apontam para um aumento de 1,1%, após a queda de 2% no mês anterior. As vendas a retalho deverão mostrar um aumento de 1%, em termos homólogos, após a queda de 0,1% no mês de Fevereiro. O índice de confiança do consumidor deverá cair de 33,3 para 32,6 e o início de construção de imóveis deverá mostrar uma queda de 28,9%, acelerando a de 4,9% no mês anterior.
A semana termina com os importantes números da inflação da área de Tóquio. Segundo as previsões, a inflação deverá manter-se nos 1,4%, onde sem alimentos frescos, a medida observada mais de perto pelo Banco do Japão, a inflação subjacente deverá subir de 1,7% para 1,8%. Teremos ainda o número final do PMI manufactureiro, que deverá confirmar a leitura preliminar de 54,9.

Nova Zelândia
Uma semana ligeira de dados económicos, onde iremos ter o índice de confiança empresarial ANZ que, segundo as estimativas, deverá cair de 32,5 para 27, e os números das licenças de construção do mês de Março que deverão mostrar uma redução de 0,4% em termos mensais, após o crescimento de 2,7% em Fevereiro.

Austrália
Por aqui as atenções estarão na divulgação dos dados da inflação.
As previsões mostram que em Março os preços aumentaram 1,4%, depois da estabilização no mês de Fevereiro, com a inflação em termos anuais a subir de 3,7% para 4,7%. A medida seguida mais de perto pelo RBA, a “trimmed mean” que exclui 30% dos itens mais voláteis, deverá mostrar um aumento mensal de 0,3%, acelerando dos 0,2% do mês anterior.
No primeiro trimestre deste ano, os preços terão aumentado 1,4%, acelerando dos 0,6% do trimestre anterior, com a medida anual a subir de 3,6% para 4,1%. A “trimmed mean” do 1º trimestre deverá apresentar uma subida de 0,9%, em linha com o trimestre anterior, onde em termos homólogos deverá apresentar uma subida dos 3,4% do trimestre anterior, para 3,5%.
Os preços à porta das fábricas no primeiro trimestre do ano deverão mostrar um aumento trimestral de 1,5%, acelerando dos 0,8% do trimestre anterior.
Iremos ter ainda os números do crédito ao sector privado, que em Março deverá ter mantido o ritmo de crescimento de 0,6% do mês anterior.



Bancos Centrais



A Reserva Federal dos Estados Unidos

A reunião de política monetária da Reserva Federal marcada para 29 de Abril surge, desta vez, envolta numa curiosa combinação de previsibilidade e incerteza. Por um lado, os mercados parecem já ter feito as contas: os contratos de futuros sobre a taxa dos fed funds não incorporam qualquer alteração nas taxas de juro nesta reunião. Por outro, o contexto político e institucional nos Estados Unidos adiciona uma camada de ruído que dificilmente pode ser ignorada.

No plano estritamente económico, o cenário não convida a movimentos bruscos. As minutas da última reunião do Federal Open Market Committee deixaram claro que a “larga maioria” dos seus membros continua a ver os riscos para o emprego inclinados em baixa. Ao mesmo tempo, o processo de desinflação deverá manter-se mais lento do que o desejável, pressionado por factores externos, nomeadamente as tensões persistentes no Médio Oriente, que continuam a gerar incerteza e a afectar os custos energéticos. Este equilíbrio frágil, entre um mercado de trabalho que começa a dar sinais de desgaste e uma inflação que resiste a convergir rapidamente para o objectivo, deverá justificar uma postura de espera.

Assim, a expectativa mais plausível é a de continuidade: taxas inalteradas e um discurso cauteloso, sem sinais claros de uma viragem iminente na política monetária. A Reserva Federal deverá manter a flexibilidade, sublinhando a dependência dos dados e evitando comprometer-se com um calendário específico para cortes ou novos ajustamentos. Em suma, uma estratégia de gestão de risco num ambiente onde as incertezas permanecem elevadas.

Ainda assim, reduzir esta reunião a um mero exercício técnico seria ignorar o verdadeiro foco de atenção. A conferência de imprensa de Jerome Powell poderá ser o momento mais relevante do evento, não tanto pelo que dirá sobre taxas de juro, mas pelo que poderá revelar sobre o futuro da liderança da instituição. Com o seu mandato como presidente a terminar a 15 de Maio, esta poderá ser a sua última aparição neste formato, o que inevitavelmente suscitará questões sobre o seu legado, a sua relação com a administração de Donald Trump e, sobretudo, sobre a sua permanência no banco central enquanto membro do Conselho de Governadores até 2028.

O pano de fundo político recente reforça essa incerteza. A investigação criminal sem precedentes lançada pela administração Trump contra Powell foi abruptamente encerrada, numa decisão que, à primeira vista, poderia abrir caminho à confirmação de Kevin Warsh como potencial sucessor. No entanto, o desfecho está longe de ser definitivo. Persistem dúvidas sobre a possibilidade de reabertura do processo, alimentadas por declarações de figuras políticas como Elizabeth Warren, que sublinham o carácter ainda volátil desta disputa institucional.

Neste contexto, Powell já deixou claro que a sua permanência na Reserva Federal enquanto governador dependeria de uma resolução “com transparência e carácter definitivo” das questões legais. Ora, a decisão recente do Departamento de Justiça pode não cumprir esse critério, mantendo em aberto um cenário de prolongada tensão entre a Casa Branca e o banco central.

Em suma, a reunião de 29 de abril deverá confirmar aquilo que os mercados já antecipam: uma pausa na ação, num momento em que a política monetária se encontra num delicado ponto de equilíbrio. No entanto, será na dimensão política e institucional que residirá o verdadeiro interesse. Entre a gestão de uma economia ainda incerta e as pressões vindas de Washington, a Reserva Federal enfrenta não apenas decisões técnicas, mas também um teste à sua independência, e talvez ao legado de Jerome Powell.

O Banco Central Europeu

A reunião de política monetária do Banco Central Europeu, agendada para 30 de Abril, deverá confirmar uma pausa que os mercados já antecipam, mas que está longe de significar complacência. Num contexto marcado por elevada incerteza, tanto económica como geopolítica, a instituição liderada por Christine Lagarde parece inclinada a ganhar tempo, mantendo a taxa de depósito inalterada nos 2,00%.

A mensagem recente dos membros do Conselho do BCE aponta claramente nesse sentido. A ausência de urgência para agir, aliada à necessidade de recolher mais informação, tem sido reiterada nas últimas semanas. A própria Lagarde sublinhou que o banco central precisa de “mais dados antes de tirar conclusões”, enquanto Isabel Schnabel destacou que há margem para “analisar com calma” os impactos do choque geopolítico associado ao Irão. Este enquadramento reforça a ideia de que Abril será, sobretudo, uma reunião de avaliação, um momento para observar, mais do que para decidir.

No entanto, por detrás desta aparente inacção, o quadro macroeconómico permanece tudo menos tranquilo. A inflação voltou a subir em linha com o esperado, mas os indicadores de actividade, nomeadamente os PMI, surpreenderam pela negativa. Ainda assim, os componentes de preços desses mesmos indicadores registaram uma aceleração significativa, sugerindo que as pressões inflacionistas continuam longe de dissipar-se. A evolução recente dos preços do petróleo, próxima de cenários mais adversos considerados pelo BCE, reforça este diagnóstico e mantém o risco de inflação elevada por mais tempo.

É precisamente esta tensão, entre uma economia a perder dinamismo e uma inflação persistente, que coloca o Banco Central Europeu numa posição delicada. Por um lado, o abrandamento da actividade recomenda prudência. Por outro, o risco de desancoragem das expectativas de inflação continua a ser uma preocupação central, justificando um viés ainda relativamente restritivo na comunicação. Não por acaso, o BCE tem sinalizado que conter pressões inflacionistas em alta continua a ter mais peso do que mitigar a deterioração do crescimento.

Deste modo, a reunião desta semana deverá funcionar sobretudo como um ponto de passagem, com o verdadeiro debate a deslocar-se para o verão. O cenário mais plausível continua a apontar para duas subidas adicionais de 25 pontos base, em Junho e Julho, o que levaria a taxa de depósito para 2,50%. Esta trajectória está, em larga medida, alinhada com as expectativas de mercado, ainda que exista alguma margem para ajustes, sobretudo se os sinais de desaceleração económica se intensificarem.

A conferência de imprensa de Christine Lagarde será, por isso, o momento-chave. Não se espera um compromisso explícito com futuras subidas de taxas, até porque a incerteza permanece elevada. Ainda assim, o tom deverá deixar a porta entreaberta para movimentos no verão, preservando a credibilidade do BCE no combate à inflação. A mensagem central deverá manter-se: decisões dependentes dos dados, avaliadas reunião a reunião, mas com um compromisso inequívoco com a estabilidade de preços.

Em suma, o BCE prepara-se para ficar parado em Abril, mas não está imóvel. Entre uma economia fragilizada por choques externos e uma inflação que resiste a ceder, a instituição opta por observar antes de agir, mantendo, no entanto, todas as opções em aberto. O verdadeiro teste poderá surgir nos próximos meses, quando o equilíbrio entre crescimento e inflação, exigir novamente decisões mais difíceis.

O Banco de Inglaterra

A próxima reunião de política monetária do Banco de Inglaterra deverá confirmar uma pausa nas taxas de juro, mas não necessariamente uma trégua no debate interno. Depois de um tom surpreendentemente mais agressivo em Março, os mercados chegaram a antecipar novas subidas no curto prazo, apenas para recuarem semanas depois, à medida que o governador Andrew Bailey foi deixando claro que não existe qualquer pressa em apertar ainda mais a política monetária.

Este aparente vaivém nas expectativas reflecte bem o momento actual da economia britânica. Os dados mais recentes mostram uma realidade distinta da vivida em 2022, quando a crise energética pressionava fortemente preços e actividade. Hoje, o mercado de trabalho dá sinais de fragilidade, com o emprego a cair nos serviços ligados ao consumo, enquanto o crescimento dos salários no sector privado abrandou para níveis que o próprio banco central já considerou compatíveis com a convergência da inflação para a meta no médio prazo.

Perante este enquadramento, a decisão provável é a de manter as taxas inalteradas. No entanto, ao contrário do que aconteceu na reunião anterior, marcada por uma invulgar unanimidade, espera-se agora o regresso das divisões no seio do comité de política monetária. A discussão deixou de ser sobre “cortar ou manter” e passou a centrar-se em “manter ou subir”, o que por si só ilustra a complexidade do momento.

Os membros tradicionalmente mais prudentes deverão dar maior ênfase às diferenças face ao contexto de 2022, sublinhando que o abrandamento económico e a moderação salarial reduzem a urgência de novas subidas. Ainda assim, é pouco provável que essa posição se traduza numa contestação explícita às expectativas de mercado para um eventual aumento das taxas.

Do outro lado, as vozes mais restritivas deverão ganhar algum protagonismo. É expectável que pelo menos um membro, nomeadamente Huw Pill, vote a favor de uma subida já nesta reunião. Outros nomes, como Megan Greene, e possivelmente Catherine Mann, poderão alinhar nessa posição, ainda que o cenário provável aponte para uma votação de 8-1 a favor da manutenção das taxas.

Mais importante do que a decisão em si será, uma vez mais, a sinalização para os próximos meses. Mesmo mantendo as taxas estáveis em Abril, o Banco de Inglaterra deverá procurar preservar a opção de uma subida em Junho, sobretudo como forma de conter expectativas de inflação. Este equilíbrio, entre reconhecer a desaceleração económica e não facilitar no combate à inflação, continuará a marcar o discurso da instituição.

Em suma, o Banco de Inglaterra deverá optar por não agir já, mas manter-se pronto para agir depois. Num ambiente onde os sinais económicos são mistos e a margem de erro é reduzida, a estratégia passa por ganhar tempo sem perder credibilidade, uma tarefa que, como se tem visto, está longe de ser simples.

O Banco do Japão
Ao contrário do que se chegou a antecipar há semanas, o Banco do Japão não deverá avançar com qualquer subida das taxas na reunião desta semana. Embora a decisão final possa ser apertada e dependa dos desenvolvimentos nas negociações de paz entre os EUA e o Irão, o banco central está inclinado a não tomar nenhuma decisão este mês, optando por passar mais tempo a avaliar as consequências do conflito. A taxa mantém-se nos 0,75%, o nível mais alto desde 1995, mas o percurso de normalização monetária prossegue de forma gradual. Os responsáveis do banco sinalizaram que continuarão a aumentar as taxas e a ajustar o suporte monetário se o crescimento e a inflação evoluírem conforme projectado, sendo que as taxas reais permanecem significativamente baixas.
O mercado continua muito sensível a qualquer sinal sobre o próximo passo da normalização monetária.

O Banco do Canadá

A próxima reunião de política monetária do Banco do Canadá deverá voltar a resultar numa decisão de manutenção das taxas de juro, marcando assim a quarta reunião consecutiva sem alterações. Num contexto de maior incerteza ligada sobretudo à evolução dos preços da energia, o banco central mantém uma postura prudente, evitando reagir a choques que estão fora do seu controlo directo.

A inflação global deverá ultrapassar temporariamente o intervalo-alvo de 1% a 3% já em Abril, impulsionada pelo aumento dos preços do petróleo. No entanto, o impacto desta subida é visto como transitório e de natureza essencialmente externa, o que limita a capacidade, e a necessidade, de resposta da política monetária. O foco do banco central continua a estar na evolução da inflação subjacente e nas expectativas de médio prazo.

Apesar de alguma ligeira subida nas expectativas de inflação no inquérito às empresas, os indicadores de inflação “core” continuam a mostrar sinais de moderação. Em paralelo, a economia canadiana evolui em linha com o esperado, com crescimento próximo das projecções e um mercado de trabalho que dá sinais de estabilização, sem evidências de pressões inflacionistas adicionais.

Perante este enquadramento, o Banco do Canadá tem pouca urgência em ajustar a política monetária no curto prazo. A mensagem deverá ser de continuidade e dependência dos dados, com Tiff Macklem a sublinhar a necessidade de acompanhar de perto os próximos indicadores antes de qualquer mudança de rumo.

Em suma, a reunião deverá confirmar a estabilidade das taxas, num momento em que o banco central privilegia a prudência e a análise dos efeitos desfasados da política monetária já implementada, mantendo-se atento à evolução da inflação sem precipitar novos movimentos.

O Banco Central do Brasil

Depois do corte de 25 pontos base em Março, que baixou a taxa Selic para os 14,75%, o debate agora centra-se em saber se o banco central liderado por Gabriel Galípolo avança com um novo corte ou congela o ciclo. O Goldman Sachs advoga que a abordagem mais prudente seria interromper temporariamente o ciclo de normalização para obter maior visibilidade sobre os choques em curso, recordando que a projecção mediana para a inflação de 2026 subiu para 4,80%, ultrapassando o tecto da meta. O mercado está dividido entre um corte de 25 pontos base e a manutenção, uma distribuição de probabilidades incomum para os padrões do banco central brasileiro. A guerra no Médio Oriente, com os seus efeitos sobre o preço do petróleo e as expectativas inflacionistas, é o factor que mais pesa sobre a decisão final.


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