A semana que começa
A resposta, China, Warsh e a inflação
A semana que começa não promete descanso para quem acompanha os mercados, a geopolítica e a diplomacia. As atenções dividem-se entre o Médio Oriente, China, Fed, inflação e mais resultados empresariais
Os mercados entram na nova semana com as atenções divididas entre a geopolítica, os bancos centrais e a euforia em torno da tecnologia. Os Estados Unidos aguardam pela resposta do Irão à proposta apresentada para um possível acordo que possa ajudar a travar o conflito no Médio Oriente, numa altura em que qualquer sinal de desanuviamento continua a ter impacto imediato no petróleo e no sentimento dos mercados. Ao mesmo tempo, Donald Trump prepara uma visita oficial à China, onde se irá encontrar com o seu homólogo chinês, num encontro acompanhado de perto pelos investidores depois de meses marcados por tensões comerciais e estratégicas entre as duas maiores economias do mundo. A Fed regressa também ao centro das atenções com a votação em torno da nomeação de Kevin Warsh para presidente da Reserva Federal, enquanto o mercado accionista continua em modo eufórico, sustentado sobretudo pela força do sector tecnológico e pelo entusiasmo persistente em torno da Inteligência Artificial.

O pano de fundo mais dramático continua a ser o conflito com o Irão. Teerão confirmou que está ainda a analisar a proposta norte-americana para terminar o conflito no Médio Oriente, enquanto Trump voltou a ameaçar com novos bombardeamentos caso não haja acordo. O momento é de grande tensão e de grande incerteza. Entre os 14 pontos do memorando em discussão estão uma pausa no enriquecimento de urânio por um período superior a dez anos, o levantamento de sanções pelos Estados Unidos, o descongelamento de fundos iranianos e o levantamento progressivo do bloqueio do Estreito de Ormuz por ambas as partes. Mas o que separa os dois lados não é apenas técnico: é também de calendário. A proposta iraniana visa o fim da guerra e não inclui negociações nucleares nesta fase, o que contraria directamente a exigência americana de um acordo rigoroso sobre o programa nuclear do Irão. Trump viaja para a China a 14 e 15 de Maio, o que cria uma pressão implícita de calendário, o Presidente norte-americano não vai querer chegar a Pequim com o dossiê iraniano em aberto e sem resposta. Os mercados energéticos estarão particularmente atentos: o bloqueio marítimo do Estreito de Ormuz tem interrompido o fornecimento equivalente a 20% do petróleo e gás natural mundiais, enquanto a Marinha dos EUA mantém o bloqueio aos portos iranianos.

A encerrar a semana, e a dar-lhe ainda maior peso diplomático, Trump parte para Pequim. A visita está confirmada para 14 e 15 de Maio e será a primeira deslocação oficial do Presidente norte-americano ao território chinês desde o seu primeiro mandato, em 2017. Os dois líderes não se encontravam pessoalmente desde Outubro do ano passado, à margem da cúpula APEC na Coreia do Sul. O calendário não podia ser mais carregado: Trump chega a Pequim provavelmente com o dossier iraniano por resolver, com a Fed em transição e com os mercados a escrutinar cada palavra. As autoridades chinesas poderão oferecer acordos durante a cúpula, provavelmente em troca de concessões sobre tarifas ou outras restrições comerciais impostas pelos EUA. Mas há também um tema que une, de forma incómoda, as duas potências: o Estreito de Ormuz, por onde a China importa cerca de um terço do seu petróleo e gás, mantém-se fechado, e Pequim vê o encontro como uma oportunidade singular para garantir uma relação mais estável a longo prazo com o seu maior rival económico e militar. A "amizade" entre Trump e Xi, celebrada em público por ambos, será testada pela dureza dos interesses em jogo.

Em Washington, a semana traz um momento histórico para a Reserva Federal. O Senado deverá votar a confirmação de Kevin Warsh como presidente da Fed a 11 de Maio, o que permitiria a sua entrada em funções antes do fim do mandato de Jerome Powell, a 15 de Maio. A votação na comissão do Senado foi de 13 a 11, estritamente segundo linhas partidárias, a primeira vez na história que uma nomeação para presidente da Fed foi aprovada em comissão sem qualquer apoio bipartidário. Quase todos os Democratas da comissão do Senado se opuseram à nomeação de Warsh, com a senadora Elizabeth Warren a classificá-lo como "fantoche" de Trump e a insistir que as circunstâncias actuais são "únicas e perigosas" para avançar com qualquer nomeação para presidente da Fed. A confirmar-se, Warsh assumirá as rédeas da política monetária americana num momento de inflação em alta e de grande pressão política sobre o banco central. O mercado vai querer perceber, o mais rapidamente possível, se o novo presidente age com independência ou se, pelo contrário, cede à pressão da Casa Branca para baixar taxas.

É precisamente sobre inflação que chega esta terça-feira um dos dados mais aguardados da semana, o Índice de Preços no Consumidor. O contexto não podia ser mais sensível. A taxa de inflação anual nos EUA subiu para 3,3% em Março, o nível mais elevado desde Maio de 2024, impulsionada principalmente pelos custos de energia como consequência directa do conflito com o Irão. Em Março, os preços ao consumidor subiram 0,9% num único mês, o maior aumento desde Junho de 2022. Os dados de Abril serão o primeiro grande teste a saber se a inflação está a estabilizar ou a continuar a subir. Com a Fed em transição de liderança, qualquer surpresa em alta no CPI complicaria imenso o cenário para os mercados obrigacionistas e para as expectativas de política monetária.

Por fim, a época de resultados não pára, embora abrande o seu ritmo frenético. A semana traz algumas das publicações mais aguardadas do trimestre. Tanto a Tencent como a Alibaba estão agendadas para apresentar resultados trimestrais na quarta-feira, 13 de Maio, enquanto a JD.com divulga os seus números na terça-feira, 12. Os gigantes tecnológicos chineses estarão sob o escrutínio habitual em torno do crescimento da inteligência artificial e das suas plataformas de cloud. As instituições financeiras projectam um crescimento de cerca de 40% em termos homólogos para a Alibaba Cloud, acelerando face ao trimestre anterior, tornando-a potencialmente o único segmento da empresa a manter crescimento de alta velocidade. Além das grandes tecnológicas chinesas, a semana traz também contas da Siemens e da Allianz na Europa, bem como da Cisco Systems e da Applied Materials, que apresenta resultados do segundo trimestre fiscal de 2026 a 14 de Maio. No caso da Applied Materials, os investidores estarão atentos ao impacto das restrições à exportação de equipamento para semicondutores e ao que a empresa tem a dizer sobre a procura ligada à inteligência artificial.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
Uma semana um pouco mais leve de indicadores económicos onde as atenções irão estar principalmente voltadas para os dados da inflação e das vendas a retalho.
Começamos com dados do mercado imobiliário, onde iremos ter a divulgação dos números de Abril das vendas de imóveis usados, com as previsões a apontarem para uma redução de 3,6%.
Na terça-feira, o destaque vai para os dados da inflação. As previsões apontam para que os preços em Abril mostrem uma subida de 0,6%, abrandando do crescimento de 0,9% no mês anterior, com a inflação em termos anuais a subir de 3,3% para 3,5%. Sem energia nem alimentos os preços em termos mensais deverão subir 0,4%, acelerando dos 0,2% do mês de Março, com a inflação subjacente a manter-se inalterada nos 2,6%. Teremos ainda o índice de pequenas e médias empresas NFIB que deverá registar uma ligeira subida de 95,8 para 96, e o índice semanal de emprego da ADP.
Na quarta-feira teremos mais dados de preços, desta vez à porta das fábricas. O índice de preços no produtor deverá mostrar um aumento mensal de 0,4%, desacelerando dos 0,5% no mês de Março, onde se excluídos os preços dos alimentos e da energia deverão mostrar uma aceleração dos 0,1% do mês anterior, para 0,2%.
Quinta-feira é dia de vendas a retalho onde, após o crescimento de 1,7% no mês de Março, em Abril deverão mostrar um aumento de 0,4%, se excluídas as vendas automóveis deverão subir 0,6%, desacelerando dos 1,9% do mês anterior, e o grupo de controlo deverá mostrar uma desaceleração dos 0,7% para 0,3%. Teremos também os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, onde as estimativas apontam para uma subida dos 200 mil da semana passada, para 206 mil, e ainda os números dos inventários empresariais, que deverão mostrar uma subida dos 0,4% para 0,7%.
Por fim, na sexta-feira, teremos o índice manufactureiro de Nova Iorque, com as estimativas a mostrarem uma queda dos 11 para 7,5, e a produção industrial que, após a queda de 0,5% no mês de Março, deverá em Abril mostrar um crescimento de 0,2%.
Zona Euro
Uma semana bastante tranquila relativamente a dados económicos, onde os mercados estarão atentos à segunda estimativa do PIB relativo ao primeiro trimestre deste ano e dados do emprego, e ainda aos números da produção industrial de Março.
A segunda estimativa do PIB deverá confirmar o crescimento de 0,1% apresentado pelo PIB preliminar.
A variação trimestral do emprego no primeiro trimestre de 2026 deverá mostrar um crescimento de 0,2%, em linha com o trimestre anterior, onde em termos homólogos deverá desacelerar dos 0,7% para 0,6%.
A produção industrial em Março deverá, segundo as previsões, aumentar 0,3%, desacelerando dos 0,4% do mês de Fevereiro.
Teremos ainda o indicador alemão de confiança económica ZEW, que deverá mostrar para a Zona Euro uma queda dos -20,5 para -21,6, enquanto na Alemanha deverá cair de -17,2 para -19,1.
Na Alemanha teremos também a leitura final da inflação e o índice de preços grossistas de Abril, que deverão mostrar um abrandamento do aumento de 2,7% para 1%.
Em Itália, a produção industrial deverá mostrar estagnação, após o crescimento de 0,2% no mês anterior.
Em França, teremos os números finais da inflação e os números preliminares da variação do emprego do primeiro trimestre que deverão mostrar um aumento de 0,2%, em linha com o trimestre anterior.
Reino Unido
As atenções irão estar especialmente no dia de quinta-feira onde teremos um conjunto interessante de dados, com destaque para o PIB de Março e do primeiro trimestre deste ano.
O consenso aponta para que a economia britânica deverá mostrar em Março uma contracção de 0,2%, após o crescimento de 0,5% em Fevereiro. No primeiro trimestre, o PIB deverá mostrar um crescimento de 0,6%, acelerando dos 0,1% apresentados no trimestre anterior.
Teremos também os números da produção industrial que, segundo as previsões, deverão cair 0,3%, após o crescimento de 0,5% em Março.
A balança comercial deverá apresentar um défice de 20,1 mil milhões de libras, após os números do mês anterior de Fevereiro terem mostrado um défice de 18,8 mil milhões.
Teremos ainda os números preliminares dos investimentos empresariais do primeiro trimestre, que deverão mostrar um crescimento trimestral de 1,1%, após a queda de 2,5% no trimestre anterior, e o “Balanço de preço de casas RICS” deverá sinalizar um abrandamento nas expectativas de valorização residencial no Reino Unido, com o índice a cair de -23% para -25%.
A semana irá começar com o monitor de vendas a retalho BRC, que deverá desacelerar dos 3,1% para 0,7%.
Canadá
Por aqui iremos ter as vendas grossistas de Março, onde as previsões apontam para um aumento de 1,4%, desacelerando dos 2% no mês anterior, os números do início de construção de imóveis, que deverão mostrar um aumento dos 236 mil do mês de Março para 243 mil em Abril e ainda as vendas manufactureiras de Março, que deverão desacelerar dos 3,6% do mês anterior, para 3,4%.
Suíça
Começamos por ter o Índice de Preços no Produtor que deverá mostrar um crescimento de 0,2%, em linha com o anterior mês de Março, e finalizamos com os números da produção industrial que, após a queda de 0,7% no trimestre anterior, deverá mostrar um aumento de 0,5% no primeiro trimestre deste ano.
China
A semana começa com as atenções voltadas para os dados da inflação de Abril, onde os preços em termos mensais deverão mostrar uma contracção de 0,1%, após os 0,7% no mês de Março, com a inflação em termos anuais a cair de 1% para 0,8%. A inflação à porta das fábricas, em termos anuais, deverá acelerar dos 0,5% em Março para 1,5% em Abril.
Teremos ainda os números de Abril dos novos empréstimos em yuans, que deverão mostrar uma redução dos 2.990 mil milhões em Março, para cerca de 300 mil milhões.
Japão
Começamos por ter os números da despesa das famílias, com as estimativas a apontarem para uma redução de 1,4% em termos homólogos.
Os números da conta-corrente deverão mostrar um crescimento do excedente de 2,7 triliões de ienes para 2,9 triliões.
O índice da confiança dos observadores económicos deverá mostrar uma queda dos 42,2 para 41,7.
Fechamos a semana com o índice de preços no produtor que deverá mostrar uma aceleração dos 2,6% em Março, para 3,1% em Abril, e ainda os números das encomendas preliminares de ferramentas mecânicas que em Abril deverão mostrar um crescimento de 24%, em termos homólogos, desacelerando dos 28,1% mostrados no mês anterior.
Nova Zelândia
Iremos ter as expectativas de inflação para o segundo trimestre, que deverão mostrar um abrandamento dos 2,37% no trimestre anterior para 1,7%, e ainda o índice manufactureiro BusinessNZ que deverá mostrar uma queda de 53,2 para 50,5.
Austrália
Iremos ter a divulgação do índice de confiança empresarial NAB que, segundo as estimativas, deverá mostrar uma queda de -29 para -32, e ainda o índice de preços salariais do primeiro trimestre, que deverá manter o ritmo de crescimento de 0,8%, em linha com o trimestre anterior.