A semana que começa
Médio Oriente, inflação e NFP
Uma semana que promete ser intensa nos mercados e na geopolítica, com desenvolvimentos significativos no Médio Oriente, na política monetária europeia, na inflação americana e no mundo da tecnologia espacial.
Esta semana promete ser dominada por quatro temas centrais: Médio-Oriente, BCE, inflação norte-americana e o muito aguardado IPO da SpaceX. Em termos de mercado, o denominador comum continua a ser o mesmo: maior volatilidade nos activos de risco, pressão sobre energia e atenção redobrada às curvas de taxas e ao dólar.

No Médio Oriente, a tónica da semana será a leitura das consequências práticas do cessar-fogo entre Israel e o Líbano, anunciado no início de Junho, num contexto em que as tensões com o Irão continuam longe de desaparecer. A Reuters e outros meios de comunicação referem que a trégua foi acordada para travar a escalada, mas os ataques e contra-ataques ainda deixam o quadro geopolítico frágil.
Para os mercados, isto significa que o risco geopolítico continua vivo, mesmo que haja uma aparente tentativa de estabilização. O petróleo pode reagir de forma rápida a qualquer notícia de ruptura, e isso mantém a energia no centro da narrativa macro da semana.

BCE: subida de taxas em cima da mesa
Na Europa, a grande questão é a reunião de 11 de Junho do Banco Central Europeu, que deverá marcar a primeira subida de taxas desde 2023. As expectativas do mercado apontam para um aumento de 25 pontos base, com a taxa de depósito a subir para 2,25%, e vários inquéritos da Reuters dão esse movimento como praticamente fechado.
O pano de fundo é claro: a inflação na zona euro voltou a acelerar e reforçou o argumento para um BCE menos paciente. Mesmo assim, o banco central deverá manter um discurso prudente, porque a economia continua frágil e qualquer sinal de excesso de aperto pode pesar sobre crescimento, crédito e periferia.

Estados Unidos: inflação acima de 4%
Nos Estados Unidos, a semana também pode trazer surpresa importante do lado dos preços. A próxima leitura de inflação deverá mostrar uma aceleração para níveis acima de 4% pela primeira vez em cerca de três anos, alimentando a ideia de que o processo desinflacionista voltou a complicar-se.
Se esse número se confirmar, o impacto será imediato na narrativa da Reserva Federal, no dólar e nas yields. Para o mercado, o ponto essencial não é apenas o número bruto, mas a leitura política que dele decorre: inflação mais teimosa significa menos margem para cortes de taxas e maior sensibilidade do mercado a qualquer discurso mais duro da Fed.

SpaceX: provavelmente o maior IPO da história
Se o calendário se mantiver, a sexta-feira, dia 12 de junho, ficará marcada na história dos mercados financeiros. A SpaceX tem como alvo uma estreia na Nasdaq nesse dia, sob o símbolo SPCX, com a fixação do preço das acções prevista para a noite de quinta-feira, dia 11, após o fecho do mercado.
Os números são de uma escala difícil de assimilar. A empresa de Elon Musk pretende vender 555,6 milhões de acções a 135 dólares cada, angariando cerca de 75 mil milhões de dólares, numa operação que apontaria para uma valorização de quase 1,77 biliões de dólares. Para comparação: o actual recorde pertence à Saudi Aramco, que angariou 29,4 mil milhões de dólares quando foi a bolsa em 2019, a SpaceX ultrapassaria esse valor em mais de 2,5 vezes.
O roadshow dos investidores arrancou no início desta semana, com uma lista de cerca de 125 analistas de 21 bancos a reunirem-se com a gestão da empresa, e um evento dedicado a cerca de 1.500 investidores de retalho planeado para dia 11. O sucesso ou insucesso desta operação dará também a medida do apetite dos mercados para um ciclo de grandes IPOs tecnológicos que se avizinha, com a Anthropic e a OpenAI a observar atentamente o que acontecer nos próximos dias.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
O destaque da semana vai para a divulgação do índice de preços do consumidor e do produtor do mês de Maio e ainda para os dados da Universidade de Michigan da confiança do consumidor e das suas expectativas de inflação.
A semana começa com as atenções postas nos números da balança comercial de Abril, com as previsões a apontarem para um défice de 55,2 mil milhões de dólares, baixando dos 60,3 mil milhões do mês anterior. Iremos ter a divulgação do índice de pequenas empresas NFIB, onde as estimativas apontam para uma ligeira subida de 95,9 para 96. Teremos também os números semanais do emprego privado da ADP e ainda os números das vendas dos imóveis usados de Maio, onde as previsões apontam para um aumento de 0,5%, acelerando dos 0,2% do mês anterior.
Na quarta-feira chega um dos destaques da semana, o índice de preços do consumidor de Maio. Segundo as previsões, os preços deverão mostrar uma subida mensal de 0,4%, desacelerando dos 0,6% do mês de Abril, com a inflação anual a subir de 3,8% para 4,2%, em novo máximo dos últimos três anos. Sem alimentos nem energia, os preços deverão mostrar uma subida mensal de 0,3%, desacelerando dos 0,4% do mês anterior, com a inflação subjacente a subir de 2,8% para 2,9%.
Na quinta-feira temos os dados da inflação à porta das fábricas. O índice de preços do produtor de Maio, em termos mensais, deverá mostrar uma subida de 0,7%, desacelerando dos 1,4% em Abril, com a medida em termos homólogos a subir de 6% para 6,8%. Sem alimentos nem energia, os preços em termos mensais deverão subir 0,5%, desacelerando dos 1% do mês anterior. Teremos ainda os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, onde as estimativas apontam para um recuo dos 225 mil da semana anterior, para 220 mil.
A semana termina com as atenções colocadas nos dados da Universidade de Michigan. O índice de confiança do consumidor, segundo o consenso, deverá recuperar ligeiramente do mínimo de sempre registado no mês passado de 44,8, para 46. As expectativas de inflação de curto prazo (um ano) deverão manter-se nos 4,8%, enquanto as de longo prazo (5 anos) mostrarem um ligeiro recuo de 3,9% para 3,8%.
Zona Euro
Uma semana com uma agenda económica bastante mais tranquila que começa com a divulgação do índice de confiança do investidor Sentix, onde o consenso aponta para uma ligeira subida de -16,4 para -13,8. Na Alemanha iremos ter os números das encomendas às fábricas de Abril, onde o mercado prevê uma queda de 2,2%, após o aumento no mês anterior de 5%.
Na terça-feira iremos ter mais números de Abril na Alemanha. A produção industrial deverá mostrar um crescimento de 0,3%, após a queda de 0,7% apresentada em Março, e os números da balança comercial deverão apresentar um excedente de 13,8 mil milhões de euros, abaixo dos 14,3 mil milhões do mês anterior.
Na quarta-feira teremos dados italianos da produção industrial de Abril que, segundo as estimativas, deverão mostrar um aumento de 0,2%, desacelerando dos 0,7% do mês anterior.
Por fim, na sexta-feira, teremos os dados finais da inflação em França e Alemanha.
Reino Unido
Esta semana as atenções voltam-se para os dados mensais de Abril do PIB, que irão ser divulgados apenas na sexta-feira. O consenso aponta para que a economia britânica mostre uma contracção de 0,1%, após o crescimento de 0,3% em Março.
Ainda neste último dia da semana teremos:
Os números da produção industrial que, segundo as previsões, deverão aumentar 0,3%, após a queda de 0,2% em Março.
A balança comercial de bens deverá apresentar um défice de 27 mil milhões de libras, após os números do mês anterior de Março terem mostrado um défice de 27,2 mil milhões.
A semana começa com o monitor de vendas a retalho BRC, que deverá desacelerar dos -3,4% para -3%, e mais tarde teremos ainda o “Balanço de preço de casas RICS” com o índice a subir de -34% para -15%.
Canadá
O destaque da agenda económica vai para os números da balança comercial de Abril que, segundo as previsões, deverão mostrar um excedente de 1,5 mil milhões de dólares canadianos, caindo dos 1,78 mil milhões apresentados no mês anterior.
Teremos ainda os números das licenças de construção que, após o aumento de 10,3% no mês de Março, deverão em Abril mostrar uma redução de 5%.
Suíça
O índice de confiança do consumidor SECO de Maio, segundo o consenso, deverá permanecer inalterado nos -40.
China
Uma semana com um conjunto de indicadores económicos de primeira linha.
Começamos com os números da balança comercial, onde as previsões apontam para um excedente de 88,7 mil milhões de dólares, aumentando dos 84,8 mil milhões do mês de Abril, onde os mercados esperam ver um aumento de 25% nas importações e de 14% nas exportações.
Seguem-se os dados da inflação. O índice de preços do produtor em Maio, segundo as estimativas, deverá mostrar uma subida de 1,3% em termos anuais, com os preços em termos mensais a estabilizarem, enquanto o índice de preços do produtor deverá mostrar uma aceleração dos 2,8% para 3,8%.
Por fim, tentativamente, teremos os números dos novos empréstimos, com as previsões a apontarem para 540 mil milhões de yuans, face a uma redução de 10 mil milhões no mês anterior.
Japão
A semana começa com os números finais do PIB do primeiro trimestre, que deverão rever em baixo o crescimento trimestral apresentado pela leitura inicial de 0,5% para 0,3%. Teremos também os números da conta-corrente do mês de Abril que deverão mostrar um excedente de 3,26 triliões de ienes, baixando dos 3,9 do mês anterior, e ainda o índice dos observadores económicos, onde o consenso aponta para uma subida de 40,8 para 41,9.
Terça-feira teremos os números preliminares das encomendas de maquinaria, com as estimativas a apontarem para uma desaceleração dos 45,1% para 37%.
Na quarta-feira, o índice de preços no produtor deverá mostrar uma aceleração em termos anuais dos 4,9% no mês anterior para 5,6%, com os preços em termos mensais a mostrarem uma subida de 0,5%, desacelerando dos 2,3% no mês de Abril.
Por fim, na quinta-feira, o índice manufactureiro BSI do segundo trimestre deverá mostrar uma subida de 4%, acelerando dos 3,8% do trimestre anterior.
Nova Zelândia
As vendas manufactureiras do primeiro trimestre deverão mostrar uma queda de 0,8%, após a de 0,7% do trimestre anterior, e o índice manufactureiro BusinessNZ, segundo o consenso, deverá cair de 50,5 para 50.
Austrália
O índice de confiança do consumidor Westpac deverá mostrar uma queda de 1,2%, após a subida de 3,5% no mês passado, e o índice de confiança empresarial NAB uma subida de -24 para -22.
Bancos Centrais

O Banco Central Europeu
A reunião do BCE de 11 de Junho deverá confirmar aquilo que o mercado já considera praticamente garantido: uma subida de 25 pontos base na taxa de depósito, para 2,25%. Qualquer decisão diferente seria uma surpresa.
O racional é claro. Não estamos ainda perante uma desancoragem das expectativas de inflação, mas a pressão sobre a inflação, impulsionada pela energia e com efeitos de segunda ordem, está a intensificar-se. Neste contexto, o BCE deverá optar por uma subida “seguradora”, reduzindo o risco de reagir tardiamente.
Mais do que a decisão em si, a atenção dos mercados estará na comunicação. As novas projecções deverão trazer apenas ajustes marginais: inflação ligeiramente mais alta e crescimento um pouco mais fraco. Para 2026, espera-se uma revisão da inflação para cerca de 2,9% e do PIB para 0,6%, sem grandes alterações no horizonte mais longo.
Na conferência de imprensa, Lagarde deverá manter um tom moderadamente hawkish, mas sem comprometer antecipadamente o BCE com novas subidas já em Julho. A abordagem continuará dependente dos dados e reunião a reunião. Ainda assim, a combinação de inflação persistente e projecções acima do alvo deverão sugerir que o ciclo de aperto poderá não ter terminado.
Os mercados reflectem essa incerteza: atribuem uma probabilidade limitada a uma subida em Julho, mas já antecipam novo movimento até Setembro.
O Banco do Canadá
O BoC deverá manter as taxas inalteradas na reunião desta semana, reflectindo um enquadramento macro cada vez mais frágil.
Apesar da pressão dos preços energéticos, a inflação tem surpreendido em baixa, enquanto a economia dá sinais de abrandamento, com perda de emprego e entrada em recessão técnica. Este contexto reforça o tom dovish já assumido em Abril.
Adicionalmente, os riscos ligados ao acordo comercial USMCA e à evolução geopolítica aumentam a incerteza, levando o Banco do Canadá a privilegiar uma postura cautelosa.
Para já, o banco central deverá continuar a contrariar a expectativa de subidas de taxas, mantendo uma pausa prolongada e um viés claramente dovish.
O Banco Central da Turquia
O banco central da turco deverá manter a taxa directora inalterada na reunião de Junho, num contexto de política monetária já significativamente restritiva.
O governador Karahan tem sinalizado que a actual postura, mais apertada e prolongada do que inicialmente previsto, continua adequada, mantendo todas as opções em aberto. A recente contenção do crédito e a estabilização da procura por FX reforçam essa leitura.
Ainda assim, os riscos geopolíticos e a incerteza política interna podem justificar uma postura mais cautelosa. Nesse cenário, não se exclui um ajustamento técnico em alta da taxa, aproximando-a da taxa efectiva de financiamento, actualmente perto dos 40%.