Semana Revista
Mercado e bancos centrais atentos
A inflação voltou a surpreender pela positiva, mas os bancos centrais mantêm uma postura prudente. Entre riscos geopolíticos, resultados empresariais e novos dados económicos, os mercados continuam atentos.
Os mercados financeiros iniciam a sessão sob o peso de um enquadramento geopolítico cada vez mais complexo, numa altura em que a política monetária, a época de resultados empresariais e a agenda macroeconómica disputam as atenções dos investidores. Depois de várias semanas marcadas pela escalada do conflito no Médio Oriente, os mercados continuam a oscilar entre períodos de maior optimismo e receios de uma nova deterioração do cenário internacional.

Médio Oriente continua a dominar o sentimento dos mercados
A guerra entre os Estados Unidos e o Irão permanece no centro das preocupações. Apesar das tentativas diplomáticas para estabilizar a situação, os confrontos continuam a multiplicar-se e alargaram-se a novos pontos da região.
Nos últimos dias, forças norte-americanas voltaram a realizar ataques contra posições militares iranianas, enquanto Teerão respondeu com novos lançamentos de mísseis contra instalações norte-americanas e aliados regionais. Os ataques a navios petroleiros no Mar Vermelho, bem como incidentes envolvendo navios de gás natural liquefeito junto ao Egipto, reforçam os receios de perturbações adicionais nas cadeias globais de abastecimento energético.
Embora tenham surgido alguns sinais de abertura para negociações, o equilíbrio continua extremamente frágil. Cada novo incidente mantém elevada a volatilidade do petróleo e dos mercados obrigacionistas, alimentando igualmente preocupações quanto ao impacto da energia sobre a inflação mundial.

Petróleo mantém-se como principal risco inflacionista
O mês de Julho ficou marcado por uma forte valorização dos preços do petróleo, impulsionada pela escalada do conflito no Médio Oriente, que voltou a ameaçar uma das regiões mais importantes para a produção e distribuição mundial de crude. Apesar da correcção registada na segunda metade do mês, tanto o Brent como o WTI encerraram Julho com ganhos superiores a 23% face ao fecho de Junho.
O Brent chegou a ultrapassar os 95 dólares por barril durante o mês, antes de terminar a negociar em torno dos 90 dólares. Já o WTI atingiu máximos acima dos 93 dólares por barril, encerrando Julho próximo dos 86 dólares. Em ambos os casos, os preços permaneceram significativamente acima dos mínimos registados em Junho, quando chegaram a negociar abaixo dos 70 dólares por barril, evidenciando o forte prémio de risco incorporado pelos mercados devido às crescentes tensões geopolíticas.
Depois da forte valorização registada ao longo do mês, o crude continua a negociar em níveis historicamente elevados, sustentado pelo risco de novas interrupções no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho.
O mercado continua consciente de que qualquer agravamento militar poderá provocar novas restrições à oferta global, dificultando o trabalho dos principais bancos centrais, que procuram assegurar o regresso sustentado da inflação aos respectivos objectivos.
Gráfico Fonte XTB xStation 5

Fed mantém juros, mas continua vigilante
Nos Estados Unidos, a Reserva Federal optou por manter inalterada a taxa directora entre 3,50% e 3,75%, embora a decisão tenha evidenciado uma divisão crescente entre os membros do comité.
Três governadores defenderam uma subida imediata das taxas de juro, enquanto o presidente Kevin Warsh reiterou o compromisso absoluto da Fed com a estabilidade dos preços. Apesar do tom firme, os investidores interpretaram a conferência de imprensa como menos agressiva do que antecipavam, reduzindo parcialmente as expectativas de uma subida já na reunião de Setembro.
A evolução da inflação, dos preços da energia e do mercado de trabalho continuará, por isso, a assumir um papel decisivo nas próximas semanas.

Banco de Inglaterra mantém prudência
Também o Banco de Inglaterra deixou as taxas de juro inalteradas nos 3,75%, reconhecendo que o aumento dos preços da energia poderá voltar a pressionar a inflação durante os próximos meses.
Ainda assim, o governador Andrew Bailey destacou que continuam a existir poucos sinais de efeitos de segunda ordem sobre salários e preços, permitindo ao banco central manter uma postura de prudência enquanto acompanha a evolução do conflito no Médio Oriente.

BCE continua a apontar para Setembro
Na Zona Euro, o Banco Central Europeu manteve igualmente a taxa de depósito nos 2,25%, mas Christine Lagarde voltou a admitir que parte do Conselho de Governadores já defendia uma subida dos juros na última reunião.
A persistência dos preços elevados da energia mantém viva a possibilidade de um novo aumento das taxas em Setembro, embora a decisão continue dependente da evolução da inflação e da intensidade do choque petrolífero.

Banco do Japão mantém rumo para novas subidas de juros
O Banco do Japão manteve a taxa directora inalterada em 1,00% durante o mês de Julho, mas voltou a sinalizar que o ciclo de normalização da política monetária deverá prosseguir. A instituição manteve a expectativa de uma inflação sustentada em torno da meta de 2%, alertando para os riscos associados à subida dos preços da energia, ao crescimento dos salários, ao investimento em Inteligência Artificial e à fraqueza do iene.
Apesar de a decisão ter sido amplamente esperada, as declarações do governador Kazuo Ueda reforçaram a possibilidade de uma nova subida das taxas de juro já na reunião de Setembro, enquanto as autoridades japonesas continuaram a intervir no mercado cambial para travar a desvalorização da moeda.

Resultados empresariais dividem Wall Street
A época de apresentação de resultados continua a evidenciar um desempenho muito desigual entre sectores.
No sector financeiro, os grandes bancos norte-americanos deram o mote com resultados robustos, beneficiando da elevada volatilidade dos mercados e da forte actividade de negociação, enquanto várias instituições europeias também surpreenderam positivamente, anunciando programas de recompra de acções.
No sector tecnológico, o panorama revelou-se mais heterogéneo. A Microsoft foi uma das principais vencedoras, impulsionada pelo crescimento mais rápido da sua divisão de cloud dos últimos quatro anos, enquanto a Amazon conquistou os investidores ao apresentar mais um trimestre de forte expansão das receitas, sustentada pela crescente procura de serviços ligados à Inteligência Artificial. Em sentido contrário, a Meta desiludiu com uma previsão de receitas abaixo das expectativas e a Apple foi penalizada por vendas mais fracas na China, reacendendo dúvidas quanto ao ritmo de crescimento das maiores tecnológicas norte-americanas e ao retorno dos elevados investimentos em IA.
Já no sector energético, os preços elevados do petróleo continuaram a favorecer as grandes petrolíferas. A Chevron apresentou o maior lucro trimestral dos últimos seis anos, superando as estimativas dos analistas, enquanto a ExxonMobil registou o resultado trimestral mais elevado em quatro anos. Ainda assim, a petrolífera ficou aquém das previsões do mercado, apesar do forte impacto positivo da subida dos preços da energia e da melhoria das margens de refinação, impulsionadas pelo conflito no Médio Oriente.

Novo primeiro-ministro britânico inicia mandato sob forte pressão
No Reino Unido, Andy Burnham tornou-se o sétimo primeiro-ministro britânico da última década, assumindo funções num contexto económico particularmente exigente.
O novo líder pretende reforçar o investimento público, aumentar a construção de habitação, devolver maior autonomia às regiões e aproximar novamente Londres da União Europeia. No entanto, enfrenta um enquadramento orçamental extremamente limitado, com a dívida pública próxima de 104% do PIB e custos de financiamento historicamente elevados.
Os investidores acompanharão de perto a capacidade do novo Governo para equilibrar crescimento económico, sustentabilidade das contas públicas e estabilidade financeira.

Agenda económica confirma desaceleração da inflação
As últimas duas semanas ficaram marcadas por um conjunto de indicadores económicos que reforçaram a percepção de que as pressões inflacionistas permanecem relativamente contidas, apesar do impacto provocado pela escalada do conflito no Médio Oriente e da subida dos preços da energia.
Nos Estados Unidos, a inflação desacelerou mais do que o esperado em Julho, com o índice de preços no consumidor a cair de 4,2% para 3,5%, enquanto a inflação subjacente recuou para 2,6%. Também os preços no produtor surpreenderam em baixa, tal como o deflator core do PCE, reforçando a convicção de que as pressões sobre os preços continuam a moderar-se. Em simultâneo, o crescimento anualizado do PIB abrandou para 1,5% no segundo trimestre, abaixo das expectativas, embora o consumo privado e o investimento tenham permanecido resilientes. Os índices PMI também tinham surpreendido positivamente, com o PMI Composto da S&P Global a subir para 53,6 pontos, o nível mais elevado desde Novembro, sugerindo que a economia norte-americana continua a expandir-se, ainda que a um ritmo mais moderado.
Na Zona Euro, a actividade económica revelou igualmente uma resiliência superior ao esperado. O PIB cresceu 0,4% no segundo trimestre e 1,0% em termos homólogos, apoiado pela recuperação da Alemanha e pelo forte desempenho da economia espanhola, enquanto o PMI Composto tinha anteriormente mostrado um aceleração para 51,9 pontos, regressando a território de expansão. Já a inflação voltou a subir para 2,9% em Julho, em linha com as expectativas, enquanto a inflação subjacente acelerou para 2,5%, ligeiramente acima do esperado. A aceleração dos preços dos serviços e dos bens industriais não energéticos sugere que as pressões inflacionistas permanecem presentes, mantendo em aberto a possibilidade de o Banco Central Europeu avançar com uma nova subida das taxas de juro na reunião de Setembro, caso os preços da energia continuem condicionados pela instabilidade geopolítica.
Mercados accionistas
Mercados accionistas: um mês de forte divergência
Julho foi um mês de elevada volatilidade nos mercados accionistas, marcado pela escalada das tensões no Médio Oriente, pela subida dos preços da energia, pela época de apresentação de resultados e pelas expectativas em torno da política monetária. Apesar das fortes oscilações registadas ao longo do mês, os principais índices encerraram Julho com desempenhos bastante distintos, evidenciando uma crescente divergência entre regiões e sectores.
Nos Estados Unidos, o sentimento dos investidores oscilou entre o optimismo inicial e uma fase de maior cautela, à medida que os resultados das grandes tecnológicas levantavam dúvidas sobre a capacidade de os elevados investimentos em Inteligência Artificial continuarem a justificar as avaliações exigentes do sector. Alphabet, Apple e Tesla penalizaram o sentimento do mercado, enquanto Microsoft e Amazon devolveram algum optimismo no final do mês, graças ao forte crescimento das respectivas divisões de cloud computing. A decisão da Reserva Federal de manter as taxas de juro inalteradas contribuiu igualmente para estabilizar os mercados, permitindo ao S&P 500 e ao Nasdaq recuperarem grande parte das perdas registadas durante o mês.
Dow Jones +0,3% S&P 500 -0,1% Nasdaq -3,2%.
Na Europa, o comportamento foi significativamente mais consistente. Os principais índices beneficiaram de uma época de resultados globalmente positiva, da resiliência da economia da Zona Euro e da expectativa de que o Banco Central Europeu continuará a actuar de forma gradual, apesar da persistência das pressões inflacionistas. O STOXX 600 voltou a renovar máximos históricos, enquanto o DAX e o FTSE 100 encerraram Julho próximos dos níveis mais elevados de sempre.
Euro Stoxx 600 +1,2% Euro Stoxx 50 +0,6% DAX +2,7% CAC 40 +1,3% FTSE 100 +3,6% PSI 20 -0,2%.
Já na Ásia, a volatilidade atingiu níveis bastante superiores aos observados nas restantes regiões. O Japão corrigiu depois dos máximos históricos alcançados no início do mês, enquanto a China continuou pressionada pela fragilidade da actividade económica. O destaque negativo pertenceu, contudo, à Coreia do Sul, onde o forte ajustamento das empresas ligadas aos semicondutores e à Inteligência Artificial desencadeou uma das maiores correcções bolsistas dos últimos anos. Ainda assim, a recuperação registada nas últimas sessões permitiu atenuar parte das perdas e devolver alguma confiança aos investidores.
Nikkei -8,1% Shanghai Composite -6,4% Hang Seng +13,1% Kospi –22,2%.
No conjunto, Julho confirmou que os mercados continuam fortemente dependentes de três factores: a evolução da política monetária, a capacidade das empresas justificarem os elevados investimentos em Inteligência Artificial e o impacto da instabilidade geopolítica sobre os preços da energia. A entrada em Agosto deverá, por isso, manter os investidores focados na evolução do conflito no Médio Oriente, nas expectativas para os bancos centrais e na continuação da época de resultados empresariais.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
Mercado cambial
O dólar perde fôlego e o iene sobe de um mínimo histórico.
O mês de Julho revelou-se particularmente rico em movimentos cambiais, com o dólar norte-americano a ceder terreno de forma generalizada e vários episódios de elevada volatilidade a marcarem tanto as divisas do G10 como as moedas emergentes.
O índice DXY, que mede o valor do dólar face a um cabaz de seis divisas principais, recuou para níveis abaixo dos 100 pontos, o mais baixo desde Junho, acumulando uma perda de cerca de 1% ao longo do mês, à medida que o mercado reduziu a probabilidade de uma subida de juros pela Reserva Federal em Setembro, apesar da manutenção das taxas na reunião de fim de mês.
O euro foi um dos principais beneficiários desta fraqueza do dólar, fortalecendo-se 0,9% face à moeda norte-americana, terminando o mês em torno de 1,1520 dólares, suportado por dados económicos surpreendentemente robustos na Zona Euro. De facto, a economia da Zona Euro cresceu 0,4% no segundo trimestre, superando largamente a expectativa de 0,2% e assinalando a sua expansão mais forte desde início de 2025, enquanto a inflação homóloga acelerou para 2,9% em Julho, um conjunto de dados que reforçou as expectativas de novas subidas de juros por parte do Banco Central Europeu, com os mercados a atribuírem uma probabilidade elevada da taxa de depósito chegar aos 2,75% até início de 2027.
A libra esterlina manteve-se relativamente estável, com o Banco de Inglaterra a preservar a taxa em 3,75%, ainda que três dos nove membros do comité de política monetária tenham votado por uma subida adicional, reflectindo a persistência da inflação de serviços na economia britânica.
O iene japonês protagonizou o episódio mais dramático entre as divisas do G10. A moeda nipónica chegou a enfraquecer face ao dólar para um mínimo de 40 anos (163,98), pressionada pelos custos energéticos elevados, por preocupações fiscais e pelo diferencial de taxas de juro face aos Estados Unidos, antes de recuperar de forma acentuada, aparentemente na sequência de uma intervenção do Ministério das Finanças japonês. No cômputo do mês, o iene acabou por se valorizar 2,2%, fechando Julho nos 157,40 ienes por dólar, com o Banco do Japão a manter a taxa directora em 1%, o nível mais elevado desde 1995.
Já o franco suíço surpreendeu pela negativa. Apesar da escalada da guerra no Médio Oriente, o franco suíço falhou a sua função habitual em contexto de conflito, penalizado pelo diferencial de taxas de juro, com a taxa directora do Banco Nacional Suíço, mantida em 0%, a mais baixa de entre os bancos centrais das grandes economias.
Entre as divisas ligadas às matérias-primas, a coroa norueguesa destacou-se pela robustez, à boleia da subida do preço do Brent e ainda por um movimento sustentado pela postura do Norges Bank, tida como a mais restritiva entre os bancos centrais da Europa Ocidental. O dólar australiano e o dólar neozelandês beneficiaram igualmente de bancos centrais em modo de aperto: o Reserve Bank da Austrália mantém viva a possibilidade de mais uma subida de 25 pontos base até final do ano, para 4,60%, ao passo que o Reserve Bank da Nova Zelândia elevou a sua taxa directora em 25 pontos base, para 2,50%, no início de Julho, sinalizando novos aumentos nas próximas reuniões, um posicionamento hawkish que colocou o dólar neozelandês entre os melhores desempenhos do G10 no mês.
Nos mercados emergentes, o comportamento foi mais divergente. O rand sul-africano surpreendeu pela fragilidade, desvalorizando 1,8% face ao dólar ao longo do mês depois de o Banco Central da África do Sul ter surpreendido os mercados ao manter a taxa repo inalterada em 7,0%, numa decisão aprovada por apenas quatro votos contra dois, desafiando as expectativas de uma subida de pelo menos 25 pontos base, num contexto de inflação anual a acelerar para 5,0% em Junho, o valor mais alto em dois anos. A lira turca, por seu turno, manteve a sua trajectória de desvalorização controlada, depreciando-se para um mínimo histórico de 47,56 liras por dólar, com o Banco Central da Turquia a manter a taxa directora inalterada pela quarta reunião consecutiva, gerindo activamente o ritmo de desvalorização através de intervenções no mercado cambial, num contexto agravado pela subida dos preços da energia associada ao conflito no Médio Oriente. Já o real brasileiro foi a moeda emergente com melhor comportamento entre as analisadas, fortalecendo-se 2,6% face ao dólar ao longo do mês, com a taxa Selic a permanecer em 14,25% após o corte de 14,50% decidido em Junho, mantendo o Brasil entre as maiores taxas de juro reais do mundo e sustentando o apetite pelo carry trade, um movimento reforçado pela decisão da Reserva Federal de manter as taxas inalteradas, que retirou parte do suporte estrutural global ao dólar.
Em síntese, Julho de 2026 confirmou que o dólar entrou numa fase de perda de tracção estrutural, beneficiando as divisas de maior rendimento, do euro ao real brasileiro, passando pelo dólar neozelandês, ao passo que os tradicionais refúgios, com destaque para o franco suíço, deixaram de cumprir cabalmente essa função num contexto de tensão geopolítica persistente. Para Agosto, a atenção deverá manter-se centrada na trajectória da política monetária da Reserva Federal, na evolução do conflito no Médio Oriente e no seu impacto sobre os preços da energia.
Gráfico Fonte XTB xStation 5