A semana que começa
Agosto sob pressão
Do conflito EUA-Irão ao emprego norte-americano, passando por uma nova vaga de resultados e pela sombra de intervenções cambiais, os mercados entram em Agosto sem tréguas.
A primeira semana de Agosto arranca com os investidores a navegar em águas agitadas: o confronto entre Washington e Teerão continua a sustentar o petróleo perto de máximos de várias semanas, a agenda macroeconómica traz o sempre decisivo relatório de emprego norte-americano, dezenas de cotadas de peso continuam a divulgar contas trimestrais e o iene permanece sob vigilância apertada depois de Tóquio ter voltado a intervir no mercado cambial.

O conflito entre os Estados Unidos e o Irão continua a ditar o sentimento nos mercados de energia, com o Brent a negociar acima dos 87 dólares por barril, próximo dos níveis mais elevados das últimas semanas, à medida que persistem os receios quanto à segurança do Estreito de Ormuz, artéria por onde passa cerca de um quinto do petróleo transacionado a nível mundial. Ainda que analistas continuem a considerar pouco provável um alargamento significativo do conflito, a incerteza geopolítica tem sido suficiente para manter uma robusta prémio de risco incorporado nas cotações do crude, com reflexos já visíveis na inflação energética europeia e na pressão sobre os preços dos combustíveis junto do consumidor final.

No plano macroeconómico, a atenção dos investidores estará centrada no relatório de emprego dos Estados Unidos, agendado para sexta-feira, dia 7 de Agosto, e que dirá respeito ao mês de Julho. Após o mês anterior ter surpreendido claramente as expectativas dos analistas, o mercado procurará confirmação de que o arrefecimento gradual do mercado de trabalho norte-americano se mantém sob controlo, um dado que será escrutinado com particular atenção pela Reserva Federal a pouco mais de um mês da reunião de política monetária de Setembro, ainda envolta em incerteza quanto ao rumo das taxas de juro.

A época de resultados empresariais continua, entretanto, a bater recordes de intensidade. Depois de uma semana dominada pelos gigantes tecnológicos, o foco alarga-se agora a sectores tão diversos como a indústria, a energia, a saúde e o consumo. Nomes como SpaceX, AMD, Berkshire Hathaway, Palantir, Caterpillar, McDonald's, Vertex Pharmaceuticals, Merck, Walt Disney, Booking, Uber, Pfizer e Shopify surgem ao lado de pesos pesados europeus e asiáticos como a HSBC Holdings, a BP, a Novo Nordisk, a Siemens Energy, a Deutsche Telekom, a Allianz, a Mitsubishi, a Toyota e a Nintendo, compondo um calendário particularmente denso que deverá oferecer um retrato alargado da saúde da economia global, do consumo às cadeias de abastecimento energéticas, passando pela inteligência artificial e pela saúde farmacêutica.

No mercado cambial, o dólar mantém-se sob pressão depois de, na última semana de Julho, a Reserva Federal ter deixado em aberto a decisão sobre as taxas de juro para Setembro, alimentando dúvidas sobre a trajectória futura da política monetária norte-americana. Em simultâneo, o iene beneficiou de fortes suspeitas de nova intervenção cambial por parte das autoridades japonesas, num movimento que, a confirmar-se, sucederia à intervenção maciça realizada entre o final de Abril e Maio. O Banco do Japão, que manteve a sua taxa directora em 1%, viu a moeda nipónica valorizar-se de forma abrupta face ao dólar, um sinal que os mercados interpretam como reflexo directo da actuação de Tóquio para conter a depreciação acentuada do iene, agravada quer pela subida dos preços do petróleo, quer pelas expectativas em torno da política do Fed.
Em síntese, a primeira semana de Agosto reúne todos os ingredientes para manter a volatilidade elevada nos mercados globais: a tensão geopolítica no Médio Oriente continua a sustentar o petróleo e a alimentar riscos inflacionistas, os dados de emprego norte-americanos servirão de bússola para as expectativas quanto à Reserva Federal, a maratona de resultados empresariais deverá oferecer sinais cruciais sobre a resiliência do consumo e do investimento global, e as autoridades cambiais de Tóquio e Washington prometem continuar a ditar o tom nos mercados de câmbios. Um cocktail que exige, mais do que nunca, prudência redobrada por parte dos investidores.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
As atenções dos mercados irão estar no último dia da semana, com a divulgação do relatório do emprego do mês de Julho. Os nonfarm payrolls deverão, segundo as previsões, mostrar a criação de 90 mil novos postos de trabalho, onde a taxa de desemprego poderá subir dos 4,2% para 4,3% e o crescimento médio salarial manter-se nos 0,3%.
Mas antes iremos ter um número interessante de indicadores económicos.
A semana começa com os dados do ISM, o índice PMI manufactureiro, onde as estimativas apontam para uma subida de 53,3 para 54,0, com os mercados a olharem ainda para o subíndice dos preços que deverá cair de 70 para 73. Teremos ainda a leitura final do PMI manufactureiro da S&P Global que deverá confirmar o número preliminar de 53,8.
Na terça-feira os olhos estarão nos números das vagas de emprego JOLTS que, segundo as estimativas, deverão cair de 7,59 milhões para 7,42 milhões. Iremos ter também o número da balança comercial que deverá apresentar um défice de 73 mil milhões de dólares, após os 777,6 mil milhões do mês anterior, as encomendas às fábricas de Junho deverão estabilizar, após a redução de 1,3% em Maio, e o índice de optimismo económico RCM/TIPP deverá mostrar uma subida de 45,5 para 47,5.
Na quarta-feira teremos os números privados do emprego ADP, onde segundo as previsões mostrarão um aumento de 71 mil empregos, caindo dos 98 mil do mês anterior. Teremos ainda o índice de serviços do ISM onde as estimativas apontam para uma subida de 54,0 para 54,5, com o subíndice dos preços a cair de 67,7 para 66,2 e o do emprego a subir de 51,2 para 52. A leitura final do PMI de serviços da S&P Global deverá manter os 53,6 iniciais.
Na quinta-feira, os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego deverão manter-se em torno dos 200 mil pedidos. Iremos ter os números dos custos laborais do segundo trimestre que deverão mostrar uma aceleração dos 1,8% no primeiro trimestre para 2,7%, e ainda os Challenger Job Cuts, onde as estimativas apontam para uma subida dos 45,8 mil para 59 mil.
Zona Euro
Por aqui iremos ter uma agenda económica bastante mais tranquila.
Começa com a leitura final do PMI manufactureiro que deverá manter o número preliminar de 52,0. Em Espanha o PMI industrial deverá voltar para terreno de expansão, recuperando de 49,7 para 50,5, e em Itália mostrar uma ligeira subida de 52,2 para 52,5. Na Alemanha, as vendas a retalho deverão mostrar uma queda mensal de 0,4%, após o crescimento de 1,1% no mês anterior.
Na terça-feira será a vez das vendas a retalho em Itália que deverão mostrar uma desaceleração dos 0,2% no mês anterior, para 0,1%.
Quarta-feira voltam os PMI, desta vez de serviços. A leitura final deverá manter os 51,6 preliminares. Em Espanha, o índice deverá subir dos 54,2 no mês anterior, para 54,8, e em Itália dos 50,2 para 51,2. O índice de preços no produtor do mês de Junho na Zona Euro deverá mostrar uma queda de 0,3%, após a subida de 0,2% em Maio. Teremos ainda os números da produção industrial em França que deverão mostrar um crescimento de 0,3%, após a redução de 0,1% no mês anterior.
Na quinta-feira teremos os números das vendas a retalho que deverão apresentar um crescimento de 0,1%, desacelerando dos 0,2% anteriores. Na Alemanha, as encomendas às fábricas deverão mostrar um aumento de 0,5%, desacelerando dos 1,9%, e em Itália, os números da produção industrial deverão mostrar um crescimento de 0,3%, recuperando da queda anterior do mesmo valor.
Finalmente, na sexta-feira, iremos ter números da balança comercial alemã e francesa, que deverão apresentar um excedente de 17 mil milhões de euros e um défice de 6,5 mil milhões, respetivamente, e ainda os números da produção industrial alemã, que deverá mostrar uma estabilização, após o crescimento de 0,9% no mês anterior.
Reino Unido
Uma semana bastante vazia de indicadores económicos de primeira linha. Iremos ter os números finais dos PMI manufactureiro e de serviços da S&P Global que deverão manter as leituras preliminares de 52,8 e 51,8, respectivamente. O índice PMI da construção, que deverá subir de 38,4 para 40. E ainda o índice do preço de imóveis da LLoyds, que deverá manter um aumento de 0,2%.
Canadá
O destaque da semana vai para os dados do mercado de trabalho, que irão ser divulgados na sexta-feira. A taxa de desemprego deverá manter-se nos 6,5%, com a taxa de participação a aumentar de 65% para 65,1%. As previsões mostram um aumento de 15 mil postos de trabalho, caindo dos 18,2 mil criados no mês anterior, com um crescimento de 11 mil empregos a tempo inteiro e 4 mil a tempo parcial.
A semana começa com os números da balança comercial, que deverão apresentar um excedente de 3 mil milhões de dólares canadianos, após os 4,2 mil milhões no mês anterior, e ainda o PMI manufactureiro que deverá cair dos 53,0 para 50,2.
Iremos ter ainda no último dia da semana o índice Ivey PMI que, segundo as estimativas, deverá mostrar um recuo dos 56,2 para 55,4.
Suíça
A semana começa com os dados da inflação do mês de Julho que deverão mostrar uma queda mensal dos preços de 0,1%, com a inflação anual a manter-se nos 0,5%, e ainda o PMI manufactureiro que deverá, segundo as estimativas, mostrar uma subida ligeira de 54,3 para 54,5.
Mais tarde teremos os dados do emprego, com a taxa de desemprego, segundo as previsões, a manter-se nos 3,1%.
A semana termina com o índice de confiança do consumidor SECO, onde o consenso aponta para uma pequena recuperação de -36 para -34.
China
As atenções vão para o último dia da semana, onde iremos ter a divulgação dos números da balança comercial. As previsões apontam para uma queda do excedente de 125,6 mil milhões de dólares do mês de Junho, para um excedente de 109,4 mil milhões em Julho.
Esta semana é também de PMI privados da RatingDog. O índice manufactureiro, segundo as estimativas, deverá mostrar uma subida ligeira de 51,7 para 51,9, enquanto o de serviços mostrará um recuo dos 54,1 para 53,7, onde o índice composto cai de 53,6 para 53,0.
Japão
Uma semana ligeira de dados económicos onde iremos ter os números do crescimento médio salarial, que deverão mostrar uma ligeira aceleração dos 3,3% do mês anterior para 3,4%, e ainda os da despesa das famílias que, após a queda de 0,4% no mês anterior, deverão voltar a mostrar crescimento, de 0,9%.
Nova Zelândia
Por aqui são também os dados do mercado de trabalho que estão em foco esta semana. A taxa de desemprego no segundo trimestre deverá mostrar uma subida de 5,3% para 5,4%, com a taxa de participação a cair de 70,4% para 70,3%. A variação do emprego deverá mostrar um aumento de 0,1%, desacelerando dos 0,2% registados no primeiro trimestre. O índice de custo laboral trimestral deverá mostrar uma subida de 0,6%, acelerando dos 0,5% do trimestre anterior.
A semana começa com os números das licenças de construção, que após a queda de 4% no mês de Maio, deverão em Junho mostrar uma de 2,3%.
Austrália
Os números do anúncio de empregos do ANZ deverão mostrar uma redução mensal em Julho de 0,1%, após a redução no mês anterior de 0,2%.
A despesa das famílias em Junho deverá mostrar um aumento mensal de 0,4%, desacelerando dos 1,3% mostrados em Maio.
Os números da balança comercial de bens deverão apresentar um défice de 1,08 mil milhões de dólares australianos, após o défice anterior de 3,02 mil milhões.
Bancos Centrais

O Banco do México
O Banxico deverá manter a taxa directora inalterada na reunião da próxima quinta-feira, prolongando a pausa iniciada em Maio. Com a taxa de referência nos 6,50%, o mercado continua a antecipar uma postura de prudência por parte da autoridade monetária.
Apesar dos sinais de abrandamento da actividade económica, a inflação continua a limitar a margem de manobra do Banxico, sobretudo num contexto marcado pelas tensões no Médio Oriente e pela subida dos preços da energia. Ao mesmo tempo, a indefinição da Reserva Federal continua a condicionar as decisões dos principais bancos centrais.
Mais do que a decisão em si, os investidores estarão atentos ao tom do comunicado. Qualquer alteração na avaliação da inflação ou da actividade económica poderá influenciar as expectativas para os próximos meses, embora o cenário mais provável continue a apontar para uma política monetária em compasso de espera.
O Banco Central do Brasil
O Banco Central do Brasil reúne-se na próxima semana para a primeira decisão de política monetária do segundo semestre, com os mercados a anteciparem a manutenção de uma estratégia prudente na redução das taxas de juro. A decisão do Comité de Política Monetária (Copom) será conhecida na quarta-feira, com a taxa Selic actualmente nos 14,25%.
Depois do corte de 25 pontos base realizado em Junho, o consenso aponta para um novo ciclo de descidas muito gradual. A inflação continua acima da meta, o que deverá levar o banco central a manter um discurso cauteloso e a reafirmar que a política monetária permanecerá restritiva enquanto não existir maior confiança na convergência dos preços.
Além da decisão, os investidores estarão atentos ao comunicado do Copom, procurando pistas sobre o ritmo dos próximos cortes. Para já, o cenário mais provável continua a ser o de uma descida lenta das taxas, condicionada tanto pela evolução da inflação como pela incerteza em torno da política monetária da Reserva Federal.