Café da Manhã
Bessent acalma mercados
O Tesouro dos EUA trava a pressão sobre as obrigações, mas a inflação e a dívida continuam a preocupar. O dólar recua, o petróleo sobe com Ormuz e as bolsas recuperam, embora com cautela.
Os mercados financeiros recuperaram alguma estabilidade depois de o Tesouro norte-americano anunciar que vai, pelo menos, duplicar temporariamente o volume de recompras de dívida de longo prazo. A medida teve um impacto imediato no mercado obrigacionista, com as yields dos Treasuries a recuarem até 10 pontos base, aliviando a pressão sobre a parte longa da curva e penalizando o dólar.
A intervenção surge num contexto de crescente preocupação dos investidores com o aumento das necessidades de financiamento das economias desenvolvidas. A dívida pública norte-americana ultrapassou pela primeira vez os 40 biliões de dólares, enquanto as yields de longo prazo têm atingido máximos de vários anos. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, voltou assim a intervir para contrariar movimentos considerados excessivos nos mercados, depois da actuação conjunta com o Japão no mercado cambial no início do mês para travar a queda do iene.
No mercado accionista, Wall Street terminou a sessão com ganhos ligeiros, beneficiando directamente da descida das yields norte-americanas. O Dow Jones subiu 0,22%, o S&P 500 ganhou 0,22% e o Nasdaq 100 avançou 0,16%. A forte valorização da Moderna, que chegou a disparar quase 177% após resultados positivos de um tratamento contra o melanoma, ajudou a sustentar o sentimento.
Na Ásia, o movimento de recuperação foi mais expressivo. O Nikkei japonês avançou 1,46%, enquanto o Hang Seng de Hong Kong ganhou 0,95% e o Shanghai Composite subiu 0,24%. O destaque pertenceu, contudo, ao Kospi sul-coreano, que disparou 5,89%, recuperando parte das perdas da sessão anterior, enquanto o S&P/ASX 200 australiano avançou 0,33%.
Na Europa, a abertura desta quinta-feira foi mais contida, com os investidores a avaliarem o alívio proporcionado pela descida das yields norte-americanas, mas também os dados económicos e as minutas da última reunião do BCE. O FTSE 100 britânico, o CAC 40 francês e o Euro Stoxx 50 iniciaram a sessão praticamente inalterados, enquanto o DAX alemão recua cerca de 0,5%. O comportamento mais cauteloso das bolsas europeias reflecte a persistência das preocupações com as yields obrigacionistas e com o impacto dos preços da energia sobre a inflação.
As minutas da reunião da Reserva Federal de 28 e 29 de Julho mostraram que um número crescente de responsáveis continua preocupado com a persistência das pressões inflacionistas e com a evolução dos preços. A Fed manteve as taxas de juro inalteradas por 9 votos contra 3, mas os sinais continuam a apontar para um equilíbrio delicado entre uma inflação ainda elevada e uma actividade económica que começa a revelar sinais de maior fragilidade.
No mercado petrolífero, o Brent mantém-se acima dos 93 dólares por barril, enquanto o WTI negoceia perto dos 85,75 dólares. A incerteza em torno do Estreito de Ormuz continua a sustentar os preços, num momento em que as declarações contraditórias entre Washington e Teerão aumentam a incerteza sobre a segurança da navegação e o risco para o abastecimento regional. A ameaça de uma eventual tentativa dos Houthis de controlar o estreito de Bab al-Mandeb acrescenta uma nova componente de risco geopolítico.
No mercado cambial, a reacção à intervenção do Tesouro foi particularmente expressiva. O dólar sofreu uma forte correcção, com o índice DXY a cair para perto de 98,70 pontos. O EUR/USD disparou de níveis abaixo de 1,1600 para a zona de 1,1700, atingindo máximos desde meados de Maio.
O iene também beneficiou da descida das yields norte-americanas. O USD/JPY recuou de níveis superiores a 159,00 para cerca de 158,40, enquanto o EUR/JPY se mantém acima de 185. A libra atingiu novos máximos de três meses contra o dólar, superando pela primeira vez os 1,3600 dólares, embora recue face ao euro, com o EUR/GBP próximo de 0,8580.
O franco suíço foi, contudo, a divisa com uma valorização mais expressiva, chegando a ganhar cerca de 2% contra o dólar, numa das maiores subidas dos últimos anos. O USD/CHF recuou de níveis acima de 0,8100 para abaixo de 0,8000, enquanto o EUR/CHF caiu para a zona de 0,9330.