A semana que começa
Bessent, Warsh e Nvidia em foco

A semana que começa Bessent, Warsh e Nvidia em foco

Bessent sob pressão no mercado obrigacionista, Trump lança ofensiva económica contra o Irão, Jackson Hole prepara a estreia de Warsh e a Nvidia entra em cena. Uma semana carregada para quem segue os mercados globais.

A última semana de Agosto arranca sob o efeito do anúncio do Tesouro norte-americano de duplicar o programa de recompra de dívida de longo prazo, uma medida que não travou a subida das taxas longas e que colocou Scott Bessent na linha da frente para explicar o rumo da consolidação fiscal dos Estados Unidos. A isto junta-se o "Dia D económico" anunciado por Donald Trump contra o Irão, a publicação das atas da última reunião do BCE, o arranque do simpósio de Jackson Hole com a estreia de Kevin Warsh como presidente da Reserva Federal, e os resultados da Nvidia, aguardados como o principal termómetro do investimento em inteligência artificial.




Depois de o Tesouro norte-americano ter anunciado, na quarta-feira passada, a duplicação do seu programa rotineiro de recompra de dívida de longo prazo, de dois para quatro mil milhões de dólares por operação, os mercados obrigacionistas continuarão esta semana no centro das atenções. A medida, pensada para conter episódios de iliquidez e amortecer picos de volatilidade nas taxas longas, não produziu o efeito pretendido: menos de vinte e quatro horas depois, as yields das obrigações a dez e a trinta anos apagaram as descidas registadas no dia do anúncio, obrigando Bessent a vir a público reafirmar que o valor de quatro mil milhões é um piso e não um teto, podendo as recompras vir a ser ainda maiores. Com a dívida pública norte-americana a ultrapassar os quarenta biliões de dólares e a yield a trinta anos a tocar níveis não vistos desde 2007, o secretário do Tesouro deverá voltar a pronunciar-se sobre a trajectória da consolidação fiscal, num momento em que os mercados testam a credibilidade do compromisso da administração Trump com a disciplina orçamental.





Ainda no plano da política económica norte-americana, ficará mais claro esta semana o alcance do chamado "Dia D económico" anunciado por Donald Trump contra o Irão. O presidente descreveu-o, através da Truth Social, como a operação económica mais devastadora alguma vez lançada contra um país, com o objectivo de cortar as vias de financiamento de Teerão e isolar por completo o regime iraniano. A ofensiva visa mecanismos como o contrabando de petróleo, as casas de câmbio, as transferências de capitais, os registos de navios e as empresas de fachada usadas para contornar as sanções, estendendo a ameaça de retaliação económica a qualquer país, instituição financeira ou empresa que continue a servir de tábua de salvação a Teerão. Os mercados de energia e a evolução do dólar deverão continuar sensíveis a este desenvolvimento.





No plano da política monetária europeia, o Banco Central Europeu publicará as minutas da sua última reunião, realizada em Julho, num contexto em que o Conselho de Governadores tem vindo a lidar com uma inflação que permanece acima da meta e com um cenário geopolítico que continua a pressionar os preços da energia. Os investidores procurarão nestas atas pistas sobre o grau de unanimidade em torno da actual trajectória das taxas de juro e sobre a forma como o BCE está a ponderar os riscos associados ao conflito no Médio Oriente e ao seu impacto nos preços do petróleo.





O ponto alto da semana, do lado da política monetária norte-americana, será o arranque do simpósio de Jackson Hole, que este ano decorre sob o tema da inovação financeira e das suas implicações para os pagamentos e para a política monetária. O evento assinala a estreia de Kevin Warsh, agora à frente da Reserva Federal, num discurso que será seguido com particular atenção por surgir poucas semanas antes da reunião de setembro do FOMC. Depois de um verão marcado por sinais económicos mistos, o mercado procurará no discurso de Warsh indicações sobre o rumo da política de juros e sobre a forma como o novo presidente da Fed pretende comunicar com os mercados.





Do lado empresarial, a semana fica ainda marcada pela apresentação de resultados da Nvidia, na quarta-feira, após o fecho de Wall Street. Com o consenso de analistas a apontar para uma receita próxima dos noventa e dois mil milhões de dólares e um lucro por acção acima dos dois dólares, a fabricante de semicondutores continua a ser vista como o principal indicador da robustez do investimento em inteligência artificial. Dada a sua dimensão nos principais índices acionistas, o resultado da Nvidia poderá condicionar o sentimento de todo o sector tecnológico e da bolsa norte-americana nos dias seguintes.



Dados Económicos



Estados Unidos da América
Na última semana de Agosto, o destaque vai para mais dados referentes à inflação com a divulgação da medida preferida da Fed, o “Core PCE Price Index”, e para dados do mercado de trabalho, onde no último dia iremos poder observar a revisão anual até Março de 2026 dos números do relatório do emprego do Bureau of Labour Statistics.
A semana começa com a divulgação do índice de actividade nacional da Fed de Chicago, com os mercados a esperarem uma recuperação dos -0,02 para 0,1.
Na terça-feira, as atenções irão estar principalmente no índice de confiança do consumidor da Conference Board, onde as estimativas mostram um ligeiro recuo de 90,8 para 90,3. Mas teremos também dados do mercado imobiliário, com o índice de preço dos imóveis S&P/Case Shiller que deverá mostrar uma aceleração dos 1,6% anterior para 1,8%, e ainda as vendas de imóveis novos, que após o aumento de 1,6% em Junho, deverão mostrar uma queda de 1,3% em Julho. Iremos ter também dados do emprego com o número semanal da ADP.
Na quarta-feira as atenções vão para o Core PCE do mês de Julho que, em termos mensais, deverá mostrar uma aumento de 0,2% nos preços, acelerando dos 0,1% do mês anterior, com a medida anual a manter-se nos 3,3%. O PCE deverá mostrar uma subida mensal de 0,1%, após os -0,1% do mês anterior, com a medida em termos homólogos a ficar nos 3,7%, em linha com o mês anterior. A despesa pessoal deverá mostrar uma desaceleração dos 0,3% em Junho, para 0,2% em Junho, enquanto os rendimentos pessoais deverão mostrar uma aceleração de 0,2% para 0,3%. Teremos também a segunda estimativa do PIB do segundo trimestre, que deverá confirmar o crescimento apresentado na leitura preliminar de 1,5%. Iremos ter ainda as encomendas de bens duradouros que, segundo as previsões, deverão mostrar uma aceleração mensal dos 0,3% no mês anterior, para 0,7%, onde sem os itens de transporte deverão desacelerar de 0,6% para 0,5%, e excluindo as encomendas da defesa, de 0,3% para 0,1%.
Na quinta-feira, além dos habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, que deverão continuar em torno dos actuais números (208 mil), teremos também a balança comercial que deverá apresentar um défice de 100 mil milhões de dólares, abaixo dos 101,4 mil milhões do mês anterior, e ainda os dados preliminares dos inventários grossistas, que deverão mostrar uma subida de 0,2%, em linha com o mês anterior.
Por fim, na sexta-feira, iremos ter o índice Chicago PMI, onde as estimativas apontam para uma ligeira subida de 57,6 para 57,8, e os números revistos da Universidade de Michigan, com as atenções a estarem voltadas principalmente para a revisão anual até Março de 2026 dos nonfarm payrolls.

Zona Euro
Por aqui teremos uma semana bastante mais tranquila, com os mercados a aguardar pelo último dia para conhecerem os dados da inflação do mês de Agosto em França e Espanha.
A semana começa com as atenções voltadas para a Alemanha onde iremos ter a divulgação do índice de confiança empresarial IFO que, segundo as estimativas, deverá mostrar uma subida de 86,6 para 87,3, e ainda para a segunda estimativa do PIB do segundo trimestre que deverá confirmar o crescimento de 0,2% da leitura preliminar.
Na quinta-feira, também na Alemanha, iremos ter o índice de confiança do consumidor GfK, onde as estimativas apontam para uma ligeira subida de -29,6 para -29,2.
Finalmente, na sexta-feira, iremos ter dados da inflação do mês de Agosto. Em França, as previsões apontam para uma subida mensal dos preços de 0,6%, em linha com o mês anterior, com a inflação anual a subir de 2,1% para 2,2%. Em Espanha, os preços em termos mensais deverão mostrar um aumento de 0,4%, acelerando dos 0,3% do mês de Julho, onde em termos homólogos a inflação deverá subir de 3,6% para 3,8%. Ainda em Espanha iremos ter números das vendas a retalho de Julho que deverão mostrar uma aceleração mensal dos 0,3% do mês anterior, para 0,5%. Na Alemanha teremos a taxa de desemprego que deverá manter-se nos 6,4%. A segunda estimativa do PIB do segundo trimestre em França deverá também confirmar a leitura preliminar de 0,2%.

Reino Unido
Uma semana praticamente vazia de indicadores económicos, onde iremos ter o índice CBI Realized Sales que as estimativas apontam para uma queda de -26 para -34.

Canadá
As atenções vão para os números do crescimento económico que serão divulgados no último dia da semana. O PIB do segundo trimestre deverá mostrar um crescimento de 0,8%, após a estagnação apresentada no trimestre anterior. Em Junho, em termos mensais, o PIB deverá mostrar um crescimento de 0,2%, desacelerando dos 0,3% no mês de Maio, e, segundos as estimativas, os números preliminares de Julho deverão mostrar um crescimento económico mensal de 0,1%.
Antes, teremos ainda os números da conta corrente do segundo trimestre, que deverão mostrar um défice de 2 mil milhões de dólares canadianos, após o de 7,2 mil milhões no trimestre anterior.

Suíça
Por aqui iremos ter a divulgação do índice de confiança económica UBS, onde as estimativas apontam para um recuo dos 10 no mês anterior, para 8, e o barómetro económico KOF onde o consenso aponta para uma subida dos 103,5 para 103,7.

Japão
Uma semana mais ligeira de indicadores económicos, com as atenções a irem para o último dia da semana onde iremos ter a divulgação dos dados da inflação da área de Tóquio. As previsões apontam para que a inflação anual se mantenha nos 2%, onde sem alimentos frescos, a medida observada mais atentamente pelo Banco do Japão, recue de 1,9% para 1,8%. Teremos ainda a taxa de desemprego que deverá permanecer nos 2,5%.

Nova Zelândia
Por aqui iremos ter os números das vendas a retalho referentes ao segundo trimestre, onde o consenso aponta para uma redução trimestral de 0,5%, após o aumento de 0,9% no trimestre anterior, com a medida em termos homólogos a cair de 4,5% para 3,2%.

Austrália
As atenções esta semana vão para os dados mensais da inflação do mês de Julho. Os preços deverão mostrar uma subida de 0,7%, após a redução de 0,1% em Junho, com a medida homóloga a cair de 3,8% para 3,2%. A medida acompanhada mais de perto pelo RBA, a trimmed mean que exclui 30% dos itens mais voláteis, deverá manter um crescimento de 0,3% em termos mensais, com a medida anual a cair de 3,6% para 3,5%.
Teremos ainda dados trimestrais da construção realizada que deverá mostrar um crescimento de 0,5%, desacelerando dos 3,4% apresentados no trimestre anterior, as despesas de capital privado que deverão mostrar uma redução de 1% após o crescimento de 6,5% anterior, e a despesa das famílias em Julho que deverão mostrar um aumento de 0,4%, desacelerando dos 0,8% no mês anterior.




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