Semana Revista
Avisos e incerteza

Semana Revista Avisos e incerteza

A ofensiva económica contra o Irão, a escalada comercial entre EUA e Canadá, a inflação, os resultados da NVIDIA e Jackson Hole marcaram uma semana em que os mercados procuraram sinais sobre os próximos passos da Fed.

Uma semana de avisos e incerteza Da nova ofensiva económica dos EUA contra o Irão à escalada da guerra comercial com o Canadá, passando pelos dados de inflação, pelos resultados da NVIDIA e pelo discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole, os investidores tiveram várias razões para manter uma postura prudente.




A chamada “Operation Economic Outcast”, apresentada pelo secretário do Tesouro Scott Bessent no âmbito do que a Administração Trump tinha baptizado de “economic D-Day”, acabou por ter um impacto mais limitado do que o inicialmente antecipado. Bessent ameaçou com sanções secundárias os países e entidades que continuem a fazer negócios com o Irão, dando-lhes um prazo para interromper essas relações. Foram também anunciadas novas sanções contra cerca de 60 entidades, indivíduos e navios ligados a sectores considerados essenciais para a economia iraniana, incluindo activos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo.

No entanto, o que se esperava ser uma ofensiva decisiva acabou por se revelar sobretudo um aviso. Bessent não avançou, para já, com sanções directas aos principais parceiros comerciais do Irão nem contra instituições financeiras estrangeiras. A razão é evidente: uma aplicação mais agressiva das medidas obrigaria provavelmente Washington a atingir empresas chinesas, aumentando o risco de retaliação de Pequim e de uma nova perturbação da economia mundial. O Irão, por seu lado, prometeu retaliar e mostrou confiança na resistência dos seus principais parceiros comerciais. Assim, o “Dia D económico” ficou mais próximo de um tiro de aviso do que de uma ruptura imediata.





Na frente comercial, a relação entre os EUA e o Canadá deteriorou-se significativamente. Depois do fracasso das negociações, Donald Trump avançou com tarifas de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares de produtos canadianos, ao abrigo de uma disposição raramente utilizada da Tariff Act de 1930. O Canadá respondeu com a mesma moeda. O primeiro-ministro Mark Carney anunciou tarifas de valor equivalente sobre produtos norte-americanos e, posteriormente, duplicou para 50% as tarifas canadianas sobre aço e alumínio dos EUA. Mais de 700 produtos, incluindo leite, mobiliário, vestuário, consolas de videojogos, smartphones e outros equipamentos electrónicos, serão abrangidos.

A disputa ultrapassou entretanto a dimensão estritamente comercial e ganhou contornos políticos e simbólicos. Donald Trump decidiu esta semana passar a designar, na utilização oficial do Governo norte-americano, o Lago Ontário como “Lake America”, numa nova provocação a Ottawa. A medida aplica-se apenas à utilização federal norte-americana e não altera o nome reconhecido internacionalmente do lago, com mais de 400 anos. Mark Carney e a governadora de Nova Iorque recusaram acompanhar a decisão, com o primeiro-ministro canadiano a recordar que o nome “Lago Ontário” é anterior à própria existência dos EUA e do Canadá como nações. Mais do que um episódio de semântica, o caso ilustra a crescente tensão política entre os dois países, numa guerra comercial que ameaça prolongar-se e acrescentar pressão sobre os preços e as cadeias de abastecimento.





No plano macroeconómico, os dados de inflação voltaram a merecer atenção.

Nos EUA, o índice PCE, a medida de inflação preferida da Reserva Federal, subiu 3,7% em Julho em termos homólogos, ligeiramente acima dos 3,6% esperados e mantendo o ritmo registado no mês anterior. O núcleo do PCE, que exclui alimentação e energia, cresceu 3,3%, em linha com as previsões, enquanto a variação mensal foi de 0,2%. Os números não alteram significativamente o cenário, mas confirmam que a inflação continua demasiado elevada para permitir à Fed baixar a guarda.

Na Zona Euro, as primeiras estimativas de inflação de Agosto em algumas das principais economias também mostraram o impacto do aumento dos preços da energia. Em França, a inflação acelerou para 2,7% e, em Espanha, para 4,5%, sobretudo devido aos combustíveis. Ainda assim, os dados não revelaram sinais preocupantes ao nível da inflação subjacente, que continuou a moderar-se nos dois países. Seis meses depois do início da guerra com o Irão, o choque energético continua, por enquanto, sem produzir efeitos de segunda ordem significativos.





Entre os resultados empresariais, o grande destaque voltou a ser a NVIDIA. A fabricante de semicondutores apresentou receitas trimestrais de 96,22 mil milhões de dólares, mais do dobro das registadas um ano antes e acima dos 92,17 mil milhões esperados pelo mercado. O lucro ajustado por acção também superou as previsões, atingindo 2,22 dólares.

Mais importante do que os números do trimestre foi, contudo, a perspectiva para o futuro. A NVIDIA prevê um crescimento das receitas de cerca de 70% no próximo exercício, sinalizando que a procura por capacidade de computação para inteligência artificial continua extremamente forte. A empresa admite, porém, que a escassez de componentes de memória continuará a limitar a velocidade a que consegue aumentar a produção. Os resultados reforçam a tese de que o investimento em inteligência artificial ainda tem vários anos pela frente, mas também elevam as expectativas em torno de uma das operações mais importantes e valorizadas do mercado accionista.





Finalmente, todas estas questões ficaram parcialmente subordinadas ao encontro anual de Jackson Hole, onde Kevin Warsh acabou por deixar uma mensagem claramente mais dura do que a esperada. O presidente da Fed reconheceu a resiliência da economia norte-americana e considerou o mercado de trabalho estável, com uma taxa de desemprego de 4,1%. Mas, no que diz respeito à inflação, mostrou-se muito menos confortável. Apesar de os últimos dados do PCE e do CPI terem sido melhores do que o esperado, Warsh considera que ainda não existem sinais de uma melhoria significativa das tendências subjacentes dos preços.

Warsh foi particularmente claro ao reafirmar que o objectivo de inflação de 2%, medido pelo PCE, é um compromisso firme da Fed. Se o banco central não estiver confiante de que a inflação está a convergir para esse nível de forma clara e a uma velocidade suficiente, “tem trabalho a fazer”. A mensagem deixa assim aberta, e até reforça, a possibilidade de a próxima alteração das taxas de juro ser uma subida, colocando Warsh potencialmente em rota de colisão com Donald Trump, que tem pressionado repetidamente a Fed para reduzir os juros. Depois de ter evitado pronunciar-se claramente sobre essa possibilidade em Julho, Warsh eliminou agora grande parte da ambiguidade. Jackson Hole terminou, por isso, com uma Fed aparentemente mais preocupada com a persistência da inflação do que com a necessidade de apoiar o crescimento, reforçando a sua credibilidade no combate à subida dos preços.


A semana termina, assim, com vários focos de incerteza em aberto. A guerra comercial entre Washington e Ottawa pode ainda escalar, a ofensiva económica contra o Irão poderá ganhar uma dimensão mais concreta e a inflação continua a limitar a margem de manobra dos bancos centrais. Ao mesmo tempo, os resultados da NVIDIA mostram que o entusiasmo em torno da inteligência artificial permanece intacto. Jackson Hole poderá agora ajudar a definir qual destes factores terá maior peso na direcção dos mercados nas próximas semanas.





Dados Económicos


Nos Estados Unidos, na agenda económica desta semana estava a medida preferida da Fed para a inflação, e foi para aí que foram as atenções do mercado. O Core PCE do mês de Julho saiu exactamente em linha com o esperado pelos mercados mostrando, em termos mensais, um aumento de 0,2%, acelerando dos 0,1% do mês anterior, com a medida anual a manter-se nos 3,3%. Já o PCE mostrou uma subida mensal de 0,2%, acima dos 0,1% estimados, com a medida em termos homólogos a ficar nos 3,7%. Os números da despesa pessoal mostraram uma desaceleração dos 0,3% em Junho, para 0,2% em Junho, enquanto os rendimentos pessoais mostraram uma aceleração de 0,2% para 0,4%, acima dos 0,3% previstos. Tivemos também a segunda estimativa do PIB do segundo trimestre, que confirmou o crescimento apresentado na leitura preliminar de 1,5%.
Sob o olhar atento dos mercados esteve também a divulgação da revisão anual até Março de 2026 dos números do relatório do emprego do Bureau of Labour Statistics. Os números mostraram uma revisão em baixo de 79 mil empregos, bastante inferior à anterior revisão de 911 mil.
A semana começou com a divulgação do índice de actividade nacional da Fed de Chicago, onde os -0,02 do mês anterior foram revistos em alta para 0,06, mas a leitura deste mês veio em queda para -0,08, face a 0,1 estimado pelo mercado.
Seguiu-se na semana o indicador de confiança do consumidor da Conference Board que caiu para o nível mais baixo desde o início do ano, de 90,2 (revisto em baixo de 90,8) para 89,4.
Tivemos também dados do mercado imobiliário, com o índice de preço dos imóveis S&P/Case Shiller a mostrar uma aceleração dos 1,6% anterior para 2,1%, acima dos 1,8% esperados, enquanto as vendas de imóveis novos mostraram uma queda de 10,5& em Julho, bem maior do que a estimada de 1,3%.
No mercado de trabalho, os dados semanais do emprego da ADP mostraram 11.750 pedidos em média das quatro semanas, acelerando dos 9.500 pedidos apresentados nos números da semana passada. Mais tarde, os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego surpreenderam de novo em baixa, caindo dos 207 mil na semana anterior, para 203 mil.
Tivemos também os números das encomendas de bens duradouros que superaram as previsões do mercado, mostrando um crescimento de 1,1%. Uma aceleração mensal dos 0,3% no mês anterior bem acima dos 0,7% esperados, onde se excluídas as encomendas da defesa, o crescimento foi de 1,3%, bem maior do que os 0,1% estimados. Sem os itens de transporte as encomendas desaceleraram de 1,1% (revistos em alta de 0,6%) para 0,4%.
A balança comercial apresentar um défice de 118,8 mil milhões de dólares, acima dos 101,4 mil milhões do mês anterior e dos 100 mil milhões previsto, e ainda os dados preliminares dos inventários grossistas que aumentaram 1,3%, acelerando dos 0,3% revistos em alta do mês anterior.
Por fim, na sexta-feira, o índice Chicago PMI caiu inesperadamente de 57,6 para 47,1, face a uma esperada subida ligeira para 57,8, enquanto o índice de confiança do consumidor da Universidade de Michigan foi revisto em alta de 51,0 para 51,7, e as expectativas de inflação de curto prazo de 4,3% para 4% e a 5 anos a manter-se nos 3,3%.

Na Zona do Euro foi uma semana tranquila relativamente a indicadores económicos mais relevantes.
A semana começou com as atenções voltadas para o índice alemão de confiança empresarial IFO que subiu de 86,7 para 88,8, acima dos 87,3 estimados e para o nível mais elevado de um ano. Ainda na Alemanha, a segunda estimativa do PIB do segundo trimestre surpreendeu também o mercado ao rever em alta a leitura preliminar do crescimento trimestral de 0,2% para 0,3%.
Na quinta-feira, também na Alemanha, o índice de confiança do consumidor GfK superou as estimativas que apontavam para uma ligeira subida de -29,4 para -29,2, subindo para -26,6, o valor maia elevado desde Fevereiro.
Na sexta-feira as atenções foram para os dados da inflação de Agosto divulgados em França e em Espanha. Em França, os preços registaram uma subida mensal de 0,7%, acima dos 0,6% esperados e do mês anterior, com a inflação anual a subir de 2,1% para 2,4%, acima dos 2,2% estimados. Em Espanha, os preços em termos mensais subiram 0,7%, bem acima dos 0,4% estimados, onde a inflação em termos homólogos subiu de 3,6% para 4,3%, também acima dos 3,8% esperados pelo mercado. Ainda em Espanha, os números das vendas a retalho de Julho desiludiram os mercados ao mostrarem uma queda de 0,9%, face a um aumento esperado de 0,5%. Na Alemanha a taxa de desemprego manteve-se nos 6,4%. A segunda estimativa do PIB do segundo trimestre em França reviu em baixo a leitura preliminar de um crescimento de 0,2%, para uma estagnação, com o número do trimestre anterior a ser revisto também em baixo de -0,1% para -0,2%.

No Reino Unido tudo o que tivemos para observar foi a divulgação do índice CBI Realized Sales que caiu mais do que o estimado pelo mercado, -26 para -48.

No Canadá, as atenções foram para os números do crescimento económico divulgados no último dia da semana. O PIB do segundo trimestre apresentou um crescimento de 0,8%, em linha com o previsto e após a estagnação apresentada no trimestre anterior. Em Junho, em termos mensais, o PIB manteve o crescimento de 0,3% mostrado no mês de Maio, ficando acima das estimativas que apontavam para 0,2%, enquanto os números preliminares de Julho desiludiram ao mostrarem uma estagnação, face a um crescimento esperado de 0,1%.
Tivemos também os números da conta corrente do segundo trimestre, que surpreenderam os mercados ao apresentarem um saldo positivo de 8,8 mil milhões de dólares canadianos, contra um défice estimado de 2 mil milhões e o de 8,3 mil milhões, revisto em alta, do trimestre anterior.

Na Suíça o índice de confiança económica UBS subiu inesperadamente de 10,0 para 12,1, face a um recuo estimado para 8, tal como o barómetro económico KOF que superou a subida esperada dos 103,5 para 103,7, mostrando 106,7, o valor mais elevado desde Janeiro de 2022.

No Japão foi uma semana mais ligeira de indicadores económicos, com as atenções a irem para o último dia da semana onde tivemos a divulgação dos dados da inflação da área de Tóquio. A inflação anual subiu de 1,8%, revista em baixo do mês anterior, para 1,9%, ficando abaixo dos 2% estimados, onde sem alimentos frescos, a medida observada mais atentamente pelo Banco do Japão, subiu dos 1,7% revistos em baixo do mês de Julho, para 1,8%, em linha com o esperado. Tivemos ainda a taxa de desemprego que, surpreendentemente, caiu dos 2,5% para 2,4%.

Na Nova Zelândia as atenções estiveram nos números das vendas a retalho referentes ao segundo trimestre que mostraram uma redução trimestral de 0,5%, em linha com as previsões, mas excluindo as vendas automóveis de gasolina mostraram um aumento de 0,7%, desacelerando dos 1,1% do trimestre anterior, mas acima do crescimento esperado de 0,3%.

Na Austrália os olhos estiveram colocados nos números da inflação de Julho, que se mostraram acima das previsões do mercado. Em termos mensais os preços subiram 1%, bem acima dos 0,7% estimados, com a medida homóloga a cair de 3,8% para 3,5%, mas a ficar bem acima dos 3,2% esperados pelo mercado. A medida acompanhada mais de perto pelo RBA, a trimmed mean que exclui 30% dos itens mais voláteis, mostrou uma aceleração mensal dos 0,3% no mês anterior e do esperado pelo mercado, para 0,5%, com a medida anual a manter-se nos 3,6% face a uma queda estimada para 3,5%.
Já os dados trimestrais da construção realizada mostraram uma redução de 2,1%, contra um crescimento previsto de 0,5%, mas com o crescimento apresentado no trimestre anterior a ser revisto em alta dos 3,4% para 4,3%.
As despesas de capital privado mostraram uma redução de 3,6%, bem maior do que a de 1% prevista, e a despesa das famílias em Julho mostrou um aumento de 1,1%, acima dos 0,4% esperados, com o número do mês anterior a ser revisto em alta de 0,8% para 1%.





Mercados accionistas

Wall Street atravessou a semana sob o signo de dois catalisadores concorrentes: os resultados da Nvidia, apresentados a meio da semana, e o discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole, na sexta-feira, a sua primeira intervenção de peso enquanto presidente da Reserva Federal.
As perspectivas robustas divulgadas pela fabricante de semicondutores deram um novo fôlego ao sector tecnológico, ajudando o Nasdaq a liderar os ganhos da semana com uma valorização de 0,85%. O S&P 500 avançou 0,45% e o Dow Jones somou 0,53%.
O discurso de Warsh interpretado como moderadamente hawkish no imediato, o presidente da Fed sublinhou que a inflação continua acima do objectivo de 2% e que esse deve ser, para já, o foco predominante da instituição, mas que, ainda assim, não retirou aos investidores a confiança de fecharem a semana em terreno positivo. Pelo meio, os mercados absorveram também as tensões comerciais entre os Estados Unidos e o Canadá, com o anúncio de novas tarifas sobre automóveis e aço, e a queda acentuada da PayPal, penalizada pelo fim do interesse da Advent e da Stripe na sua aquisição.

Na Ásia, o desempenho foi nitidamente desigual. O Nikkei valorizou 0,59% e o ASX 200 avançou 0,37%, num tom moderadamente construtivo, mas os mercados chineses foram os que mais captaram as atenções: o Shanghai Composite disparou 1,20%, aproximando-se da fasquia psicológica dos 4.000 pontos, sustentado pela força persistente das acções tecnológicas e ligadas à inteligência artificial, num contexto em que Pequim continua a preferir apoios direccionados a um pacote de estímulo alargado. O CSI 300 terminou a semana praticamente estável, com uma ligeira perda de 0,21%, reflectindo essa mesma cautela sobre a amplitude do suporte de política económica. Já a Kospi sul-coreana recuou 1,79%, penalizada pela volatilidade nos títulos de semicondutores após um período de fortes ganhos, e o Hang Seng cedeu 1,63%, também ele a devolver parte do avanço acumulado nas semanas anteriores, num movimento de realização de mais-valias transversal à região tecnológica asiática.

Na Europa, o contraste mais evidente deu-se entre a Alemanha e a França. O DAX destacou-se com uma subida de 1,71%, um desempenho que analistas têm vindo a qualificar como desproporcional face ao estado ainda pouco dinâmico da economia germânica, sugerindo que o índice está a ser mais impulsionado pela composição das suas maiores cotadas — com forte exposição internacional — do que pelos indicadores domésticos. Em sentido inverso, o CAC 40 recuou 0,98%, penalizado por um clima de instabilidade orçamental e política que se agravou com o primeiro debate presidencial francês, dominado pelas contas públicas deterioradas do país, e por uma sessão particularmente negativa na quinta-feira para a banca gaulesa, com quedas acentuadas na Société Générale e no BNP Paribas. A Fitch tem também sob avaliação a notação soberana francesa, um factor adicional de pressão sobre o índice parisiense. O FTSE 100 manteve-se praticamente inalterado, com uma valorização marginal de 0,07%, enquanto o Euro Stoxx 50 fechou a semana com um ganho moderado de 0,37%. Em Lisboa, o PSI-20 destacou-se pela positiva, a somar 0,81%, acompanhando o tom mais construtivo verificado em Frankfurt e Londres.

Gráfico Fonte XTB xStation 5





Mercado cambial

Após um início de semana morno, marcado por uma volatilidade praticamente inexistente, o mercado cambial terminou os últimos dias em forte movimento, com o discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole a funcionar como o principal catalisador.

O presidente da Fed procurou esclarecer algumas ambiguidades deixadas pela sua intervenção de Julho e foi particularmente firme na defesa do compromisso do banco central com a estabilidade de preços. Warsh reafirmou que o PCE continua a ser a referência para o objectivo de inflação de 2% e considerou que os dados mais recentes, apesar de melhores do que o esperado, ainda não demonstram uma melhoria suficientemente clara das pressões subjacentes. A mensagem foi inequívoca: se a inflação não estiver a convergir para os 2% a um ritmo suficiente, a Fed “tem trabalho a fazer”, deixando no ar a possibilidade de novas subidas das taxas de juro.

A reacção dos mercados foi imediata. A probabilidade de uma subida de juros na reunião de Setembro passou de cerca de 35% para 60%, enquanto as yields dos Treasuries subiram, sobretudo nos prazos mais curtos. O dólar acompanhou o movimento e recuperou fortemente. O índice DXY, que iniciou a semana junto dos mínimos de 98,70, terminou perto dos máximos, nos 99,60. O EUR/USD, depois de permanecer praticamente toda a semana em torno de 1,1650, caiu para um mínimo abaixo de 1,1580.

A subida das yields norte-americanas penalizou igualmente as divisas de menor retorno. O USD/JPY ultrapassou os 160,00 pela primeira vez em Agosto, depois de ter iniciado a semana próximo de 159,00, reacendendo os receios de uma nova intervenção das autoridades japonesas. O EUR/JPY, contudo, manteve-se relativamente estável, em torno dos 185,50. No franco suíço, o movimento foi semelhante: o USD/CHF subiu de 0,8000 para perto de 0,8100, enquanto o EUR/CHF avançou de 0,9350 para próximo de 0,9400.
A libra registou uma semana de perdas moderadas. O EUR/GBP manteve-se relativamente estável, próximo de 0,8560, mas o GBP/USD recuou de máximos acima de 1,3650 até um mínimo abaixo de 1,3530, pressionado pela recuperação do dólar.

Entre as divisas europeias, a coroa sueca foi a que mais sofreu. Apesar de as minutas da última reunião do Riksbank terem revelado uma posição mais hawkish, admitindo uma subida dos juros mais cedo do que o mercado esperava, a forte recuperação do dólar e a subida das yields globais acabaram por dominar. A coroa perdeu cerca de 1,5% face ao dólar e 0,6% perante o euro.

Nas divisas emergentes, o real brasileiro passou do destaque positivo da semana anterior para o negativo. A moeda perdeu cerca de 1,1% face ao dólar e 0,3% face ao euro, acompanhando a pressão generalizada sobre as divisas de maior risco após a intervenção de Warsh.

A semana terminou, assim, com uma alteração clara do equilíbrio no mercado cambial. O dólar recuperou terreno e as expectativas de uma Fed mais restritiva ganharam força, deixando a reunião de Setembro como o próximo grande teste para as divisas.

Gráfico Fonte XTB xStation 5





Commodities

O petróleo

O mercado petrolífero iniciou a semana sob o efeito residual do anúncio, feito pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, de uma campanha de sanções que classificou como “sem precedentes” para isolar o Irão da economia global, numa tentativa de pressionar Teerão a flexibilizar o controlo sobre o Estreito de Ormuz. O Brent abriu nos 91,90 dólares e tocou uma máxima de 92,05, enquanto o WTI arrancou nos 86,50 dólares, reflectindo ainda o prémio de risco acumulado ao longo de duas semanas de subidas superiores a 10%.

A partir daí, contudo, a narrativa alterou-se de forma consistente. As sanções anunciadas revelaram-se, na prática, menos agressivas do que os mercados temiam, reduzindo o receio de uma disrupção física imediata do fornecimento iraniano. Em paralelo, o Irão e Omã alcançaram um acordo sobre a partilha de receitas relativas às águas do estreito, um passo que os mercados interpretaram como sinal de avanço nas negociações para uma normalização gradual do tráfego marítimo, apesar de Teerão ter sublinhado que o entendimento com Omã não implica, por si só, uma reabertura imediata da via. A Goldman Sachs estimou que as exportações de petróleo do Golfo Pérsico já recuperaram para cerca de dois terços dos níveis anteriores ao conflito, entre 15 e 16 milhões de barris diários, ainda distantes dos 22 a 24 milhões pré-guerra, mas muito acima do mínimo de 5 a 6 milhões registado em Março. A Arábia Saudita, por seu lado, tem vindo a construir alternativas logísticas para escoar crude para a Ásia sem depender inteiramente de Ormuz, procurando contornar também os riscos associados aos ataques houthis no Mar Vermelho.

Este conjunto de factores empurrou as cotações para mínimos semanais mais acentuados de 84,60 dólares no Brent e 79,60 no WTI, antes de uma recuperação parcial nas sessões finais, motivada por um foco crescente nas disrupções ao fornecimento russo. Os ataques ucranianos continuados a refinarias e portos russos têm limitado a capacidade de Moscovo para exportar crude e produtos refinados, introduzindo um contrapeso à narrativa de alívio da oferta proveniente do Médio Oriente. Esta dinâmica ajudou a travar a queda e a levar o Brent a fechar a semana nos 88,30 dólares e o WTI nos 83,45, ainda assim bem abaixo dos níveis de abertura e dos máximos semanais.

Gráfico Fonte XTB xStation 5



O ouro

O ouro iniciou a semana junto dos 4.610 dólares por onça e prolongou o forte desempenho de Agosto, sustentado pelo dólar mais fraco, pelas compras dos bancos centrais e pela procura por activos de refúgio. O movimento levou o metal a tocar os 4.697 dólares, aproximando-se da resistência dos 4.700, antes de inverter a tendência.

A divulgação do PCE norte-americano, com a inflação a acelerar para 3,7% em Julho, acima dos 3,6% esperados, voltou a alimentar os receios de uma subida dos juros pela Fed em Setembro. O dólar e as yields dos Treasuries subiram, pressionando o ouro. O discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole, mais agressivo do que o esperado pelos mercados, levou a um aumento de expectativas de subida de taxas em Setembro e a uma valorização do dólar, pressionando mais o metal amarelo.

Apesar dos fundamentos de médio prazo permanecerem favoráveis, com as compras dos bancos centrais, a preocupação com a dívida norte-americana, a procura por activos de refúgio e um dólar estruturalmente mais fraco, o ouro terminou a semana em mínimos, recuando até aos 4.445 dólares.

Gráfico Fonte XTB xStation 5



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