A semana que começa
Adeus Agosto
Emprego nos EUA, inflação na Zona Euro, yields, Médio Oriente e guerra comercial EUA-Canadá marcam uma semana que contará ainda com decisões de juros do BoC e RBNZ.
A última semana de Agosto terminou com uma mensagem mais dura de Kevin Warsh em Jackson Hole e com os mercados a recalibrar as expectativas para a política monetária norte-americana. Setembro começa, por isso, com uma agenda económica particularmente relevante, que poderá definir o tom dos mercados nas próximas semanas.

O principal destaque estará no mercado de trabalho dos EUA, com a divulgação do relatório de emprego de Agosto. Depois dos sinais de alguma perda de dinamismo da economia e de uma inflação ainda elevada, os números da criação de emprego, da taxa de desemprego e da evolução dos salários serão determinantes para avaliar a margem de manobra da Fed. Um mercado de trabalho mais fraco poderá reforçar a expectativa de inalteração nas taxas, enquanto sinais de maior resistência poderão dar argumentos à ala mais hawkish do banco central.
Na Zona Euro, a atenção estará centrada na primeira estimativa da inflação de Agosto. Depois da recente subida dos preços da energia, será importante perceber até que ponto este efeito está a contaminar a inflação subjacente. A ausência de efeitos de segunda ordem continua a ser um factor positivo, mas uma nova aceleração dos preços poderá elevar as expectativas de subidas de taxas por parte do BCE.
As yields obrigacionistas continuarão igualmente sob escrutínio. Depois das fortes oscilações das últimas semanas, os mercados permanecem sensíveis à perspectiva de taxas de juro mais elevadas durante mais tempo e às preocupações em torno da sustentabilidade das contas públicas. A evolução das yields, sobretudo nos EUA, continuará a ter reflexos importantes nos mercados accionistas e cambiais.
No plano geopolítico, a evolução da situação no Médio Oriente continuará a ser acompanhada de perto. Qualquer agravamento das tensões poderá voltar a impulsionar os preços do petróleo e, consequentemente, as expectativas de inflação. Em sentido contrário, sinais de desanuviamento poderão aliviar a pressão sobre a matéria-prima.
Também a guerra comercial entre os EUA e o Canadá continuará no radar dos investidores. Depois da imposição de novas tarifas e da resposta de Ottawa, o risco de uma nova escalada mantém-se elevado, com potenciais consequências para o crescimento, a inflação e as cadeias de abastecimento.
Os primeiros dias de Setembro serão ainda marcados pelas decisões de Banco do Canadá e RBNZ. Enquanto o BoC deverá manter-se em pausa, avaliando o impacto das tarifas sobre a economia, o banco central da Nova Zelândia deverá voltar a subir os juros. Em ambos os casos, mais importante do que a decisão em si será a orientação deixada para os próximos meses.
Entre inflação, emprego, juros, yields, petróleo e comércio internacional, Setembro começa assim com vários factores capazes de provocar alterações significativas nas expectativas dos mercados.

Dados Económicos
Estados Unidos da América
Esta semana todas as atenções estarão de novo voltadas para os dados do mercado de trabalho, com a divulgação do relatório dos nonfarm payrolls pelo Bureau of Labor Statistics, no último dia da semana.
O consenso aponta para que o relatório do emprego do mês de Agosto mostre a criação de cerca de 50 mil postos de trabalho, após a inesperada queda de 23 mil empregos no mês de Julho. Os ganhos médios salariais, segundo as estimativas, deverão mostrar uma aceleração dos 0,1% no mês passado, para 0,2% e a taxa de desemprego deverá subir de 4,1% para 4,2%, com a taxa de participação a manter-se nos 61,4%.
Mas será uma semana bastante bem preenchida de dados de primeira linha, além dos nonfarm payrolls.
Após um primeiro dia vazio de indicadores relevantes, na terça-feira iremos ter os primeiros dados do mercado de trabalho com os números das vagas de emprego JOLTS, onde as estimativas apontam para uma subida das 7,36 milhões para 7,39 milhões. Também em destaque estará a divulgação do índice manufactureiro do ISM que deverá manter-se em expansão, mas que deverá recuar dos 55,6 para 55,2. O PMI manufactureiro final da S&P Global deverá confirmar os 53,2 da leitura preliminar.
Na quarta-feira teremos os números privados do emprego ADP onde o consenso aponta para a criação de 49 mil postos de trabalho, acima dos 44 mil apresentados no mês passado. Teremos também os dados das encomendas às fábricas, que após a redução de 0,3% no mês de Junho, deverão voltar a mostrar uma queda em Julho, desta vez de 0,1%, e ainda a divulgação do relatório do Beige Book da Fed.
Na quinta-feira, o destaque irá para o índice de serviços do ISM, onde o consenso também aponta que continue em expansão e recue ligeiramente dos 54,1 no mês passado, para 53,9. Como sempre, teremos os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego, possivelmente a mostrarem uma pequena subida dos 203 mil da semana anterior. Já o Challenger Job Cuts deverá mostrar uma subida dos 33,4 mil no mês de Julho, para 62 mil em Agosto. Iremos ter os números da balança comercial que deverão apresentar um défice de 86,4 mil milhões de dólares, após os 73,3 mil milhões no mês anterior.
Zona Euro
O destaque da semana vai para os dados da inflação na Zona Euro, com a semana a começar com os números na Alemanha, onde as previsões apontam para um aumento mensal nos preços em Agosto de 0,3%, após o aumento de 0,8% no mês anterior. A inflação em termos homólogos deverá subir de 2,8% para 2,9%.
Seguem-se na terça-feira os dados agregados na Zona Euro, onde os preços em termos mensais deverão apresentar um aumento de 0,3%, acelerando dos 0,2% do mês anterior, com a inflação anual a subir de 2,9% para 3,2%. A inflação subjacente, sem alimentos nem energia, segundo as previsões, deverá manter-se nos 2,5%. Iremos ter também os números em Itália, onde a inflação anual deverá subir de 2,9% para 3,1%. A taxa de desemprego na Zona Euro deverá manter-se nos 6,3% e em Itália deverá cair de 5,7% para 5,6%. Os números finais do PMI manufactureiro deverão confirmar a leitura preliminar de 52,8. Ainda relativamente a PMIs, teremos os da actividade industrial em Espanha e Itália, em que o primeiro deverá mostrar um crescimento de 50,2 para 50,4, e o segundo de 51,3 para 51,6. Na Alemanha, as vendas a retalho deverão mostrar um aumento de 0,4%, após a queda de 1,1% registada no mês anterior.
Na quinta-feira teremos mais dados da actividade económica, desta vez do sector de serviços. Os números finais da Zona Euro deverão confirmar a leitura preliminar de 51,7. Em Espanha, o índice deverá, segundo as estimativas, subir de 58,3 para 58,8 e em Itália de 52,5 para 53,3. Teremos ainda o índice de preços no produtor que, após a queda de 0,3% no mês anterior, deverá agora mostrar uma subida de 1,3%.
A semana termina com os números das vendas a retalho que deverão mostrar um aumento de 0,2%, após a queda de 0,3% no mês anterior. Teremos também os números das vendas em Itália que deverão mostrar um crescimento de 0,2%, depois da redução de 0,1% anterior. Na Alemanha, teremos os números das encomendas às fábricas, que após o aumento de 3,1% em Junho, deverão mostrar um crescimento de 0,2% em Julho.
Reino Unido
Uma semana tranquila de indicadores económicos que começa na terça-feira com os dados do mercado imobiliário. O índice de preço dos imóveis da Nationwide deverá mostrar uma subida de 0,1%, em linha com o mês anterior. Teremos também os números de aprovações de hipotecas que deverão mostrar um ligeiro crescimento de 58 mil para 59 mil e os empréstimos a particulares deverão mostrar uma redução dos 9,5 mil milhões de libras, para 9,2 mil milhões. Iremos ter ainda os números finais do PMI manufactureiro que deverá manter os 51,5 iniciais.
Teremos mais PMIs na quinta e sexta-feira. Primeiro o número final do sector de serviços que poderá confirmar a leitura preliminar de 52,8 e depois o PMI da construção, onde as estimativas apontam para uma subida de 44,7 para 45,9, mantendo-se em contracção.
Canadá
Por aqui, o destaque da agenda económica vai também para os dados do mercado de trabalho a divulgar no último dia da semana. A taxa de desemprego deverá manter-se nos 6,4%, mesmo com uma taxa de participação a poder subir de 65,1% para 65,2%. As estimativas apontam para um crescimento de 10 mil postos de trabalho em Agosto, 6 mil dos quais em part-time e os restantes 4 mil a tempo inteiro.
A semana começará com o PMI manufactureiro que deverá mostrar uma queda de 53,5 para 52,7, mas mantendo-se em expansão.
Mais tarde teremos o PMI de serviços, onde as estimativas apontam também para uma pequena queda de 49,1 para 49, com o PMI composto a ceder de 49,7 para 48,9.
Ainda na quinta-feira teremos os números da balança comercial de Julho onde as previsões apontam para um excedente de 2,2 mil milhões de dólares canadianos, após o de 3,9 mil milhões no mês anterior.
No último dia da semana teremos ainda o índice Ivey PMI, onde o consenso aponta para uma queda de 55,1 para 54,7.
Suíça
A semana começa com os números das vendas a retalho que deverão mostrar um aumento mensal em Julho de 0,3%, acima dos 0,2% do mês anterior, com a medida homóloga a recuar dos 1,5% para 1,3%, e ainda o índice PMI manufactureiro que deverá mostrar uma subida de 53,2 para 53,5.
Termina com a inflação, onde as estimativas apontam para uma subida de 0,4% para 0,7%, e com os números do PIB do segundo trimestre, onde as previsões mostram um crescimento económico trimestral de 1,5%, acelerando dos 0,4% do trimestre anterior, com a medida anual a subir de 0,3% para 1,7%.
China
É semana de PMIs. Começamos logo nas primeiras horas com a divulgação dos índice oficiais. O PMI de serviços deverá, segundo as estimativas, mostrar uma subida de 49 para 50,4 e voltar para terreno de expansão, enquanto o manufactureiro sobe de 49,2 para 49,7, mas continua em contracção. O índice geral deverá mostrar uma actividade económica de volta à expansão, subindo de 49,3 para 50,2.
Mais tarde teremos o índice privado da RatingDog. O PMI manufactureiro deverá mostrar uma subida de 50,9 para 51,2 e o de serviços de 50,4 para 50,8, com o índice composto a subir de 50,8 para 51, mantendo-se em terreno de expansão.
Japão
Por aqui teremos uma semana com uma agenda económica bem preenchida.
Começamos com os números preliminares da produção industrial do mês de Julho, onde as estimativas apontam para uma redução de 0,7%, após o crescimento de 1,9% no mês anterior. Os números das vendas a retalho deverão mostrar um crescimento em termos homólogos de 3,1%, acelerando dos 0,6% do mês de Junho. O número do início de construção de imóveis deverá mostrar um crescimento de 7,7%, abrandando dos 18,6% apresentados no mês anterior. Por fim, o índice de confiança do consumidor de Agosto deverá mostrar uma ligeira subida de 34,9 para 35.
Na terça-feira iremos ter os números dos gastos de capital do segundo trimestre onde as previsões mostram um aumento de 0,2% em termos homólogos, após a estabilização registada no trimestre anterior.
A semana termina com os números da despesa das famílias que, em Julho, deverão mostrar um crescimento mensal de 3,6%, após a redução registada no mês anterior de 6,4%, onde em termos homólogos deverão apresentar uma queda de 1%, melhor do que a de 3,3% no mês de Junho.
Nova Zelândia
Uma semana com uma agenda económica bastante ligeira que começa com o índice de confiança empresarial ANZ que deverá mostrar uma queda de 56,1 para 55,7, e termina com os números das licenças de construção do mês de Julho que, após a queda no mês anterior de 3,6%, deverão mostrar agora um aumento de 2,5%.
Austrália
Esta semana o destaque vai para os números do crescimento económico do segundo trimestre, onde as previsões apontam para um PIB a crescer em termos trimestrais 0,2%, desacelerando dos 0,3% registados no primeiro trimestre, com a medida homóloga a desacelerar dos 2,5% para 1,6%.
A semana começa com os números dos lucros empresariais brutos do segundo trimestre que deverão, segundo as estimativas, mostrar um crescimento de 2%, após a queda de 1,3% no trimestre anterior. Teremos ainda o número do crédito no sector privado que deverá mostrar um aumento de 0,7%, desacelerando do de 0,8% no mês anterior.
Na terça-feira iremos ter os números da conta-corrente que deverão mostrar um saldo negativo de 29,7 mil milhões de dólares australianos e ainda os números de licenças de construção do mês de Julho que deverão mostrar uma queda de 4,8%, após o aumento de 7,2% no mês anterior.
A semana termina com os números da balança comercial de bens do mês de Julho, que deverá mostrar um excedente de 1,2 mil milhões de dólares australianos, recuando dos 1,9 mil milhões do mês anterior.

Bancos Centrais
Banco do Canadá
O Banco do Canadá deverá manter as taxas de juro inalteradas na reunião desta quarta-feira, apesar do aumento dos riscos para a economia provocado pelas novas tarifas norte-americanas e pela subida dos preços do petróleo.
Os últimos dados económicos permitem, contudo, alguma tranquilidade. O PIB cresceu 3,2% em termos anualizados no segundo trimestre e a inflação subjacente tem permanecido próxima do objectivo desde Abril.
O actual nível de tarifas ainda não parece suficiente para travar a recuperação económica, mas uma nova escalada da guerra comercial com os EUA poderá alterar o cenário. Nesse caso, as subidas de juros esperadas para 2027 poderão ser adiadas ou, num cenário mais adverso, substituídas por cortes.
Por agora, o Banco do Canadá deverá permanecer em modo de espera, avaliando o impacto efectivo das tarifas antes de definir os próximos passos.
O Reserve Bank of New Zealand
O RBNZ deverá subir as taxas de juro em 25 pontos base na reunião desta semana, em linha com as expectativas do mercado. A decisão parece estar totalmente descontada, pelo que a atenção estará sobretudo na orientação para os próximos meses.
O banco central neozelandês deverá manter a porta aberta a novas subidas, mas as expectativas do mercado para 2027 parecem particularmente agressivas. As novas projecções poderão, contudo, introduzir algum risco de revisão em baixa. Os preços do petróleo estão abaixo dos níveis assumidos nas previsões anteriores, reduzindo potencialmente as pressões inflacionistas.
Assim, mais do que a subida de Setembro, será a mensagem do RBNZ que poderá determinar a reacção do dólar neozelandês. Uma posição menos agressiva do que a actualmente descontada poderá pressionar o NZD.