Semana Revista
NFP reforça taxas na Fed
Petróleo e yields sobem com a escalada no Médio Oriente, enquanto o iene ganhou força e os bancos centrais retomam a actividade. Nos EUA, os NFP surpreenderam e reforçam as expectativas de uma subida da Fed em Setembro.
Esta semana ficou marcada pelo regresso da tensão geopolítica ao centro das atenções dos mercados. A escalada das hostilidades entre os Estados Unidos e o Irão, com novos ataques norte-americanos contra posições iranianas junto ao Estreito de Ormuz e a resposta de Teerão com mísseis contra a Jordânia, voltou a colocar em causa a estabilidade de uma das principais rotas mundiais de transporte de energia. Apesar de a troca de ataques ter sido, até ao momento, limitada, o risco de uma nova escalada aumentou e penalizou o sentimento dos investidores. Os ataques a dois superpetroleiros agravaram ainda mais as preocupações sobre a circulação de petróleo na região.

O petróleo foi, naturalmente, um dos principais beneficiários desta deterioração do cenário geopolítico. O Brent, que no início da semana negociava em torno dos 90 dólares por barril, ultrapassou os 95 dólares e chegou a superar os 97 dólares, atingindo máximos desde meados de Junho. A redução dos fluxos de petróleo através de Ormuz começa a tornar-se mais evidente, enquanto o ritmo de libertação das reservas estratégicas norte-americanas é inferior ao observado nos meses de Verão. Também os produtos refinados, como a gasolina e o gasóleo, se aproximaram dos máximos registados após o início da guerra com o Irão. Na Europa, o gás natural agravou igualmente a pressão sobre os mercados energéticos, com o TTF a superar os 70 euros por MWh, níveis muito elevados para o período pós-guerra.

A subida do petróleo voltou a colocar a inflação no centro das preocupações dos bancos centrais e ajudou a prolongar a subida das yields das obrigações soberanas. Nos Estados Unidos, a yield da Treasury a 10 anos ultrapassou os 4,80%, enquanto a dívida alemã a 10 anos chegou perto dos 3,40%. Na maturidade a 30 anos, a yield norte-americana regressou aos 5,29%, anulando praticamente a descida observada depois de Scott Bessent ter anunciado, em Agosto, a expansão do programa de recompra de dívida do Tesouro. A combinação entre petróleo mais caro, inflação potencialmente mais persistente, comentários menos acomodatícios por parte de responsáveis de bancos centrais e uma oferta elevada de dívida voltou a pressionar o mercado obrigacionista.

No Japão, o movimento foi particularmente expressivo. A yield da dívida pública a 10 anos atingiu os 3% pela primeira vez desde 1996, depois de comentários de Bessent terem reforçado as expectativas de uma política monetária mais agressiva por parte do Banco do Japão. A possibilidade de uma subida mais rápida das taxas japonesas teve também um impacto significativo no mercado cambial, com o iene a valorizar-se de forma acentuada.
O USD/JPY recuou para perto dos 155, depois de ter estado próximo da importante barreira dos 160. A subida do iene ganhou força depois de o responsável do Banco do Japão, Takata, ter admitido a possibilidade de uma subida de 50 pontos base ou de aumentos consecutivos das taxas, o que representaria uma aceleração significativa face ao actual ritmo de normalização. Embora as expectativas de uma subida de maior dimensão tenham entretanto sido parcialmente reduzidas, a aproximação da reunião de 18 de Setembro e o risco de uma eventual intervenção no mercado cambial deverão continuar a limitar a pressão vendedora sobre o iene.

Nos Estados Unidos, a política da Reserva Federal permaneceu igualmente no centro das atenções. Christopher Waller afirmou estar inclinado a apoiar a manutenção das taxas de juro na reunião de Setembro caso os dados de inflação confirmem a continuação do processo de desinflação. No entanto, deixou uma importante ressalva: se a inflação acelerar, estará disposto a apoiar uma subida das taxas. Waller sublinhou mesmo que poderá não ser necessária uma aceleração muito significativa dos preços para o levar a defender uma política monetária mais restritiva. A mensagem mantém, por isso, todas as opções em aberto e coloca uma importância acrescida nos próximos dados de inflação.
A posição de Waller contrastou, em parte, com a de John Williams, que considerou ainda não existir uma justificação convincente para uma subida das taxas e afirmou observar sinais de uma descida gradual da inflação, à medida que alguns dos efeitos das tarifas comerciais começam a desaparecer. Também Michael Barr defendeu uma abordagem dependente dos dados, admitindo apoiar a manutenção das taxas se a inflação continuar a aproximar-se dos 2%, mas alertando para uma resposta decisiva caso a moderação dos preços não seja suficientemente rápida.

Na frente macroeconómica
Na Zona Euro, a inflação de Agosto veio reforçar as preocupações do Banco Central Europeu. A inflação homóloga acelerou de 2,9% para 3,3%, atingindo o ritmo mais elevado em quase três anos, embora a inflação subjacente tenha recuado ligeiramente, de 2,5% para 2,4%. O resultado ficou em linha com as expectativas, mas a subida da inflação global, conjugada com a forte valorização da energia, deverá obrigar o BCE a rever em alta as suas previsões de inflação na reunião de 10 de Setembro. A grande questão será saber se essa revisão justificará uma resposta mais cautelosa ou uma postura mais agressiva por parte do banco central.
Nos Estados Unidos, o relatório de emprego de Agosto surpreendeu pela positiva e veio reforçar a expectativa de uma política monetária mais restritiva. A economia criou 162 mil postos de trabalho, quase três vezes mais do que os 55 mil esperados pelo mercado, enquanto os dados de Junho e Julho foram revistos em alta num total de 55 mil empregos. A taxa de desemprego manteve-se nos 4,1%, mas a subida da participação da população activa de 61,4% para 61,6% dá maior consistência à leitura. O crescimento dos salários manteve-se moderado, em 0,3% em termos mensais e 3,1% em termos homólogos. Os números retiram força ao argumento de uma deterioração do mercado de trabalho e voltam a colocar uma subida das taxas pela Fed em Setembro em cima da mesa, com a probabilidade implícita nos mercados a superar os 60%. Depois da mensagem hawkish de Kevin Warsh em Jackson Hole e dos comentários de Christopher Waller, os dados da inflação de Agosto, conhecidos na próxima semana, serão agora determinantes para confirmar ou travar essa expectativa.

Bancos Centrais
A semana ficou ainda marcada pelas primeiras decisões de política monetária. A Nova Zelândia sobe juros e Canadá mantém política inalterada.
O Reserve Bank of New Zealand (RBNZ) subiu esta semana a sua taxa directora em 25 pontos base, para 2,75%, prosseguindo o processo de remoção gradual do estímulo monetário. A decisão surge num contexto de aceleração da inflação, que subiu para 4,1% no segundo trimestre, impulsionada sobretudo pela subida dos preços dos combustíveis. Ainda assim, o banco central neozelandês sublinhou que a inflação subjacente, as expectativas de crescimento salarial e as próprias expectativas de inflação continuam compatíveis com o regresso da inflação à banda de tolerância entre 1% e 3% até meados de 2027, e ao ponto médio de 2% já no decurso do próximo ano.
Na justificação da decisão, o RBNZ apontou para uma recuperação económica que deverá ganhar força e amplitude, a par de uma melhoria gradual das condições no mercado de trabalho, como factores que tornam apropriado continuar a retirar estímulo monetário, preservando ao mesmo tempo o apoio ao crescimento e ao emprego. A lógica subjacente é a de que agir agora reduz o risco de o banco central ter de intervir de forma mais agressiva no futuro. Esta postura reflete-se na trajectória de juros actualizada, que foi ligeiramente revista em baixa face às projecções de Maio: os novos números apontam para apenas mais uma subida antes do final do ano, o suficiente para colocar a política monetária em terreno neutro. Este cenário ficou aquém do que os mercados antecipavam, quando davam como certas duas subidas adicionais, incluindo a desta semana, e atribuíam cerca de 25% de probabilidade a uma terceira.
O Banco do Canadá optou por manter a taxa directora inalterada em 2,25%, uma decisão amplamente antecipada e já totalmente reflectida nos preços de mercado antes da reunião. O comunicado manteve um tom globalmente equilibrado, embora com uma inflexão ligeiramente mais hawkish: Tiff Macklem reiterou estar "preparado para ajustar a política monetária conforme necessário", ao mesmo tempo que assinalou que "os riscos ascendentes para a inflação aumentaram" e que as novas tarifas comerciais introduzem maior incerteza nas perspetivas de crescimento.

Dados Económicos
Nos Estados Unidos, a semana começou com as atenções voltadas para os dados do mercado de trabalho a divulgar no último dia pelo Bureau of Labor Statistics, no último dia da semana.
Os números do mês de Agosto superaram largamente as estimativas que apontavam para um aumento de cerca de 55 mil postos de trabalho, para mostrarem 162 mil, com a taxa de desemprego a manter-se nos 4,1% e a taxa de participação a subir dos 61,4% para 61,6%. Os ganhos médios salariais mostraram uma aceleração dos 0,1% no mês passado, para 0,3%.
Anteriormente, logo nos primeiros dias da semana, os números das vagas de emprego JOLTS, tinham mostrado 7,27 milhões de vagas, acima dos 7,18 milhões revistos em baixo no mês anterior, mas abaixo dos 7,39 milhões estimados pelo mercado. Os números privados do emprego ADP saíram abaixo do aumento de 49 mil empregos esperados, para mostrarem um aumento de 38 mil. Isto quando os números do Challenger Job Cuts mostrou uma subida dos 33,4 mil no mês de Julho, para 52,9 mil em Agosto, ficando abaixo dos 62 mil estimados, e os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego mostraram uma pequena subida dos 204 mil da semana anterior, para 206 mil.
Os mercados estiveram também atentos aos dados de actividade económica do ISM. O índice manufactureiro caiu de 55,6 para 54,6, ficando abaixo dos 55,2 estimados, enquanto o de serviços subiu mais do que o esperado, de 54,1 para 55,4, face aos 54,2 estimados, ambos mantendo-se solidamente em terreno de expansão.
Os dados finais da actividade económica da S&P Global reviram em alta a leitura do índice manufactureiro de 53,2 para 53,9 e em baixo o de serviços, de 56,8 para 56,5, mantendo a leitura preliminar do índice composto nos 56.
Os números das encomendas às fábricas mostraram um aumento de 0,9% em Julho, contrariando estimativas de uma queda de 0,1%.
Os números da balança comercial apresentaram um défice de 88,6 mil milhões de dólares, superior aos 86,4 mil milhões estimados.
Na Zona do Euro, as atenções estiveram focadas nos dados da inflação do seu agregado. Após os anteriores dados em França e Espanha, recebemos os números da Alemanha e de Itália. Na Alemanha, os preços em Agosto, em termos mensais, aumentaram 0,2%, abaixo dos 0,3% estimados, com a inflação anual a subir de 2,8% para 2,9%, em linha com o esperado pelos mercados. Já em Itália a inflação anual subiu de 2,9% para 3,3%, bem acima dos 3,1% previstos. Os dados agregados da Zona Euro mostraram um aumento mensal dos preços de 0,4%, acima dos 0,3% estimados e dos 0,2% do mês anterior, com a inflação em termos homólogos a subir de 2,9% para 3,3%, ficando acima dos 3,2% previstos, enquanto a inflação subjacente, sem alimentos nem energia, veio abaixo das previsões, caindo dos 2,5% do mês de Julho, para 2,4% em Agosto.
Tivemos ainda dados da inflação à porta das fábricas de Julho, com o índice de preços no produtor a mostrar uma subida mensal de 1,6%, ficando acima dos 1,3% previstos no mercado.
Tivemos também dados do mercado de trabalho, com a taxa de desemprego do mês de Julho nos 6,4%, em linha com o mês de Junho que viu a taxa ser revista em alta de 6,3% para 6,4%.
A semana terminou com os números das vendas a retalho que mostraram uma queda inesperada de 0,6%, face a um aumento esperado de 0,2%.
Tivemos dados da actividade económica em Espanha e Itália. Espanha mostrou uma queda inesperada na actividade manufactureira de 50,2 para 49,5, tal como o índice de serviços que caiu de 58,3 para 57,9, face a uma subida esperada para 58,8. Em Itália, a actividade manufactureira também mostrou uma queda inesperada, de 51,3 para 49,6, mas a actividade de serviços superou as estimativas ao subir de 52,5 para 55,2, bastante acima dos 53,3 esperados pelo mercado.
Na Alemanha, as vendas a retalho em Julho caíram inesperadamente 3,4%, face a um aumento esperado de 0,4%, enquanto os números das encomendas às fábricas superaram largamente as estimativas do mercado ao mostrarem um crescimento de 2,5%, bem acima dos 0,2% esperados.
Os números das vendas a retalho em Itália mostraram também uma queda inesperada de 0,4%, contrariando o crescimento estimado pelo mercado de 0,2%.
No Reino Unido foi uma semana ligeira de indicadores económicos. O índice de preço dos imóveis da Nationwide subiu 0,2%, acima do 0,1% estimados, com os números do mês anterior a serem revistos em baixo mostrando agora uma queda de 0,1%. Os números de aprovações de hipotecas caíram de 58 mil para 56 mil, face a um ligeiro aumento esperado para 59 mil e os empréstimos a particulares mostraram uma redução dos 9,5 mil milhões de libras para 6,3 mil milhões, bem abaixo dos 9,2 mil milhões estimados pelo mercado.
A leitura final do PMI manufactureiro reviu em alta os números preliminares de 51,5 para 51,7, enquanto o sector de serviços foi revisto em baixo de 52,8 para 52,5. O PMI da construção caiu de 44,7 para 44,3, contrariando uma subida esperada para 45,9.
No Canadá foi também semana de dados do emprego, atraindo especial atenção do mercado.
A taxa de desemprego manteve-se nos 6,4%, mas com a taxa de participação a cair de 65,1% para 65%. A economia canadiana reduziu inesperadamente em Agosto 41,7 mil postos de trabalho, face a estimativas que apontavam para um crescimento de 10 mil, com esta queda a mostrar-se mais expressiva nos empregos a tempo inteiro (-35,9 mil).
A semana começou com o PMI manufactureiro que mostrar uma queda de 53,5 para 53,0, ficando acima dos 52,7 estimados e manteve-se em expansão. Mais tarde, o PMI de serviços mostrou uma queda maior do que o estimado, de 49,1 para 46,8, com o PMI composto a ceder de 49,7 para 47,8, também abaixo dos 48,9 esperados pelo consenso de mercado.
Tivemos também os números da balança comercial de Julho que apresentaram um excedente de 800 milhões de dólares canadianos, ficando bem abaixo das previsões que apontavam para um excedente de 2,2 mil milhões.
Por fim, o índice Ivey PMI surpreendeu pela positiva os mercados ao subir de 55,1 para 64,3, face ao consenso do mercado que apontava para uma queda para 54,7.
Na Suíça a semana começou com os números das vendas a retalho que superaram as estimativas do mercado ao aumentarem mensalmente, em Julho, 2,3%, bem acima dos 0,3% esperados, com a medida homóloga a avançar dos 1,9% revistos em alta do mês de Junho, para 2,3%. Tivemos ainda a divulgação do índice PMI manufactureiro que também superou as expectativas ao subir de 53,2 para 57,1, face a 53,5 esperados.
A semana terminou com a inflação que mostrou uma subida maior do que a prevista de 0,4% para 0,8%, e com os números do PIB do segundo trimestre com um crescimento económico trimestral de 1,5%, acelerando dos 0,5% revistos em alta do trimestre anterior e em linha com as previsões do mercado, mas com a medida anual a superar as estimativas ao subir de 0,3% para 2,3%, face a 1,7% esperados.
Na China o PMI manufactureiro oficial mostrou uma subida de 49,2 para 49,8, mas continua em contracção, enquanto o de serviços manteve-se nos 49. O índice geral subiu de 49,3 para 49,5, desiludindo os mercados que esperavam vê-lo de volta a terreno de expansão.
Mais tarde, o índice privado da RatingDog, contrariamente ao índice oficial, mostrou o PMI manufactureiro a subir de 50,9 para 51,5 e o de serviços de 50,4 para 51,4, ambos superando as estimativas do mercado. O índice composto subiu de 50,8 para 52,1, acima dos 51 estimados pelo mercado.
No Japão tivemos uma semana com uma agenda económica bem preenchida.
Começamos com os números preliminares da produção industrial do mês de Julho que surpreendentemente mostraram um aumento de 0,1%, contra uma redução estimada de 0,7%. Os números das vendas a retalho também superaram as estimativas do mercado ao mostrarem um crescimento em termos homólogos de 4%, face aos 3,1% estimados e aos 0,6% do mês de Junho. O número do início de construção de imóveis cresceu 8,2%, também acima dos 7,7% esperado. Por fim, o índice de confiança do consumidor de Agosto também ficou acima das expectativas ao subir de 34,9 para 35,5, face aos 35 do consenso do mercado.
Mais tarde, os números dos gastos de capital do segundo trimestre aumentaram 1,6% em termos homólogos, face a um aumento estimado de 0,2%.
A semana terminou com os números da despesa das famílias que se mostraram abaixo das estimativas do mercado. Mensalmente aumentaram 0,5%, bem abaixo dos 3,6% estimados, onde em termos homólogos mostraram uma queda de 3,6%, maior do que a do mês anterior de 3,3% e a esperada de 1%.
Na Nova Zelândia tivemos uma semana tranquila, com o índice de confiança empresarial ANZ a cair de 56,1 para 53,7, abaixo dos 55,7 esperados, com os números das licenças de construção voltando a cair no mês de Julho, desta vez 4,3%, face a um aumento esperado de 2,5%.
Na Austrália as atenções foram principalmente para a divulgação dos números do crescimento económico do segundo trimestre, que superaram as previsões dos mercados. O PIB mostrou um crescimento trimestral de 0,4%, acima dos 0,2% estimados e dos 0,3% do trimestre anterior. A medida homóloga caiu de 2,5% para 2,1%, mas ficou bem acima dos 1,6% esperados pelos mercados.
A semana começou com os números dos lucros empresariais brutos do segundo trimestre que mostraram um crescimento de 1,8%, ficando abaixo dos 2% estimados, com a queda do trimestre anterior a ser revista de 1,3% para 1,5%. Tivemos ainda o número do crédito no sector privado que mostrou um aumento de 0,6%, abaixo dos 0,7% estimados e dos 0,8% no mês anterior.
Mais tarde, a conta-corrente mostrou um saldo negativo de 30 mil milhões de dólares australianos e os números de licenças de construção do mês de Julho mostraram uma queda de 3,6%, uma queda menor do que a estimada de 4,8%.
A semana terminou com os números da balança comercial de bens do mês de Julho, que superou as estimativas do mercado ao apresentar um excedente de 1,92 mil milhões de dólares australianos, bem acima dos 1,2 mil milhões esperados.

Mercados accionistas
Bolsas perdem terreno sob pressão
Esta semana ficou marcada por uma combinação pouco favorável para os mercados accionistas: a subida das yields obrigacionistas, a incerteza em torno do próximo passo da Reserva Federal e a escalada do conflito entre os Estados Unidos e o Irão aumentaram a aversão ao risco. No final, as principais praças asiáticas e europeias terminaram a semana em terreno negativo, enquanto Wall Street conseguiu manter-se praticamente inalterada.
O ponto de partida já era pouco confortável. As declarações de Kevin Warsh em Jackson Hole, na semana anterior, tinham reforçado a possibilidade de uma política monetária mais restritiva caso a inflação não desse sinais convincentes de abrandamento. A mensagem contribuiu para a subida das yields e levou os investidores a reavaliar as expectativas para a trajectória das taxas da Fed, num contexto em que o mercado já vinha a ser pressionado pelo aumento dos preços da energia e pelos riscos inflacionistas associados ao conflito no Médio Oriente.
A semana trouxe, contudo, uma mudança temporária de tom. Na quinta-feira, o governador da Fed Christopher Waller afirmou que estaria disposto a apoiar a manutenção das taxas de juro na reunião de 15 e 16 de Setembro caso os próximos dados confirmassem uma evolução favorável da inflação. Waller deixou, no entanto, a porta aberta a uma subida dos juros se os números da inflação surpreenderem pela positiva. As suas declarações reduziram momentaneamente as expectativas de uma subida das taxas e deram algum alívio aos mercados accionistas e obrigacionistas.
Esse alívio acabou por ser colocado à prova poucas horas depois. Os dados do mercado de trabalho norte-americano relativos a Agosto revelaram uma criação de 162 mil postos de trabalho, muito acima dos 56 mil esperados pelos economistas. A taxa de desemprego manteve-se nos 4,1%, enquanto o valor de Julho foi revisto em alta para um aumento de 21 mil empregos.
O relatório devolveu força às expectativas de uma Fed mais restritiva e provocou uma nova subida das yields. Para os mercados accionistas, a leitura não é totalmente linear: um mercado de trabalho mais robusto reduz os receios de uma desaceleração económica acentuada, mas também dá à Fed maior margem para manter ou até subir as taxas de juro. O resultado é um ambiente em que a economia continua resiliente, mas o custo do dinheiro permanece uma ameaça à valorização das empresas.
Em paralelo, a escalada do conflito entre os Estados Unidos e o Irão continuou a pesar sobre o sentimento. A possibilidade de uma perturbação prolongada do abastecimento energético, particularmente através do Estreito de Ormuz, mantém os preços do petróleo elevados e acrescenta um novo foco de pressão sobre a inflação. Para as bolsas, a combinação de petróleo mais caro e yields mais elevadas é particularmente penalizadora, uma vez que aumenta simultaneamente os custos das empresas e a taxa de desconto utilizada na avaliação dos activos.
Na Ásia, o desempenho foi claramente negativo. O Nikkei perdeu 2,09%, o Kospi recuou 1,50%, o ASX 200 caiu 0,95%, o Shanghai Composite deslizou 0,56% e o Shenzhen Composite perdeu 1,33%. A excepção foi o Hang Seng, que conseguiu uma valorização marginal de 0,26%.
Na Europa, a pressão também foi significativa. O Euro Stoxx 50 caiu 1,41%, o DAX recuou 1,96% e o CAC 40 perdeu 1,46%, enquanto o FTSE 100 praticamente ficou estável, com uma subida de 0,06%. Em Lisboa, o PSI 20 terminou a semana com uma queda de 0,45%.
Wall Street revelou maior capacidade de resistência. O Dow Jones recuou 0,27%, enquanto o S&P 500 avançou 0,09% e o Nasdaq ganhou 0,40%. A estabilidade dos índices norte-americanos esconde, contudo, uma semana marcada por fortes oscilações nas expectativas de política monetária, com os investidores divididos entre o impacto positivo de uma economia ainda resiliente e o risco de taxas de juro mais elevadas durante mais tempo.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
Mercado cambial
O iene foi a grande estrela da semana, com ganhos superiores a 2%, enquanto o dólar recuperou parte das perdas após os fortes dados do emprego nos EUA. Fed, yields e tensão no Médio Oriente dominaram o mercado cambial.
O mercado cambial atravessou uma semana marcada por fortes oscilações nas expectativas em torno da política monetária da Fed, pela subida das yields obrigacionistas e pela escalada do conflito entre os Estados Unidos e o Irão. Apesar de alguma recuperação no final da semana, o dólar terminou com um desempenho relativamente contido, enquanto o iene foi a grande excepção entre as principais moedas, com uma valorização superior a 2%.
O dólar iniciou a semana pouco alterado face aos níveis de fecho da semana anterior, mas a subida das yields dos Treasuries e o reforço das expectativas de uma possível subida das taxas de juro da Fed em Setembro deram inicialmente suporte à moeda norte-americana. O mercado continuava a digerir as declarações de Kevin Warsh em Jackson Hole, que tinham deixado uma mensagem claramente mais dura relativamente à inflação e à necessidade de manter uma política monetária restritiva.
O sentimento acabou, contudo, por mudar com as declarações de Christopher Waller. O governador da Fed mostrou-se aberto a manter as taxas inalteradas na reunião deste mês, caso os próximos dados confirmem uma evolução favorável da inflação. As suas palavras levaram a uma revisão das expectativas do mercado e pressionaram o dólar, com o índice DXY a recuar para 98,80 pontos.
A publicação dos dados do mercado de trabalho norte-americano voltou a inverter parcialmente este movimento. Os Nonfarm Payrolls de Agosto revelaram uma criação de 162 mil postos de trabalho, muito acima dos cerca de 55 mil esperados pelo mercado. O número reforçou a percepção de que a economia norte-americana continua a revelar alguma resiliência e voltou a alimentar a possibilidade de uma Fed mais restritiva, permitindo ao dólar recuperar parte das perdas.
O EUR/USD apresentou uma volatilidade relativamente reduzida ao longo da semana. O par iniciou o período pouco abaixo de 1,1600 e terminou ligeiramente acima desse nível, depois de se ter movimentado entre um mínimo de 1,1566 e um máximo de 1,1641. A incapacidade do euro para consolidar ganhos mais expressivos reflectiu, em grande medida, a incerteza em torno da trajectória das taxas norte-americanas e o impacto que as yields continuam a exercer sobre o dólar.
O iene foi a moeda que mais se destacou entre as principais divisas. O USD/JPY caiu de níveis próximos de 160 no início da semana para um mínimo perto de 155, antes de recuperar para acima de 156. A moeda japonesa beneficiou da forte subida das yields das obrigações nipónicas, com a yield a 10 anos a atingir 3%, um nível que não era observado desde 1996, depois de declarações de Scott Bessent, secretário do Tesouro norte-americano, defenderem uma política monetária mais agressiva por parte do Banco do Japão.
A expectativa de uma possível subida mais acentuada das taxas do BoJ também contribuiu para a valorização do iene. O governador Takata admitiu a possibilidade de uma subida de 50 pontos base ou de aumentos consecutivos, muito acima do ritmo actual de apenas duas subidas por ano. Apesar das expectativas de um movimento desta dimensão terem posteriormente diminuído, a forte queda do USD/JPY para junto dos 155 reacendeu também a especulação sobre uma eventual intervenção das autoridades japonesas.
No conjunto da semana, o iene valorizou mais de 2% tanto face ao dólar como face ao euro. O EUR/JPY recuou de níveis superiores a 185 para um mínimo próximo de 180, terminando em torno de 181,50.
O franco suíço terminou pouco alterado face ao dólar, mas registou alguma volatilidade à medida que o mercado foi ajustando as expectativas em torno das taxas de juro. O USD/CHF movimentou-se entre 0,8050 e 0,8155, terminando perto de 0,8100. Face ao euro, o franco manteve uma evolução mais negativa: o EUR/CHF chegou a atingir 0,9434, um novo máximo de mais de um ano, antes de recuar para 0,9372 e terminar ligeiramente acima de 0,9400.
Também a libra esterlina terminou a semana com perdas ligeiras face ao dólar. O GBP/USD iniciou a semana em 1,3532, atingiu um máximo de 1,3565 e um mínimo de 1,3474, terminando em 1,3510. Face ao euro, a evolução foi mais desfavorável: o EUR/GBP passou de um mínimo próximo de 0,8550 para 0,8590, depois de ter ultrapassado 0,8600, um nível que não era observado desde o início de Julho.
Entre as principais moedas, o dólar neozelandês foi o que apresentou a pior evolução. O Banco da Reserva da Nova Zelândia (RBNZ) subiu a sua taxa directora em 25 pontos base, para 2,75%, em linha com o esperado. Apesar de sinalizar a possibilidade de novos aumentos, o banco central apontou para um ritmo de aperto mais gradual e manteve uma avaliação prudente sobre a economia. A indicação de que a trajectória das taxas poderá ficar abaixo do que o mercado tinha anteriormente descontado acabou por penalizar o NZD.
Nas moedas emergentes, o real brasileiro e o rand sul-africano destacaram-se pela positiva, com ganhos superiores a 1% tanto face ao euro como ao dólar. Em sentido contrário, a lira turca continuou sob pressão, renovando mínimos face ao dólar e permanecendo próxima dos mínimos históricos face ao euro.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
Commodities
O petróleo
O petróleo teve uma das semanas mais fortes do ano, com o Brent a valorizar cerca de 8,8% e a aproximar-se dos 98 dólares por barril, num movimento impulsionado pela retoma dos confrontos directos entre os Estados Unidos e o Irão e pelo aumento dos receios de uma disrupção prolongada no Estreito de Ormuz.
O Brent abriu a semana nos 89,50 dólares por barril e encerrou nos 95,85 dólares, depois de atingir um máximo de 97,60 dólares e um mínimo de 89,00 dólares. O WTI acompanhou a tendência, com uma subida de cerca de 9,4%, dos 84,70 para os 91,25 dólares, depois de ter negociado entre os 84,10 e os 93,10 dólares. Os preços regressaram, assim, a níveis que não eram vistos há várias semanas.
A escalada começou com a retoma dos ataques directos entre Washington e Teerão, reacendendo os receios de uma interrupção do fornecimento de crude através de Ormuz. O Irão respondeu com ataques contra aliados regionais dos Estados Unidos, incluindo Kuwait, Jordânia e Bahrein, aumentando ainda mais a percepção de risco em torno do transporte marítimo de petróleo. A Agência de Informação sobre Energia dos Estados Unidos admite, entretanto, que a produção da região poderá só regressar à normalidade no início de 2027.
O petróleo voltou, assim, a ficar refém da geopolítica. Enquanto persistirem os confrontos entre Washington e Teerão e o tráfego através de Ormuz permanecer condicionado, o prémio de risco deverá continuar a sustentar os preços e a limitar o espaço para uma recuperação da oferta.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
O ouro
Numa semana marcada por elevada volatilidade, o ouro terminou ligeiramente abaixo do nível de abertura, nos 4.430 dólares por onça, depois de oscilar entre um mínimo de três semanas nos 4.282,60 dólares e um máximo de 4.510,90 dólares. A amplitude do movimento, superior a 228 dólares, confirma a sensibilidade do metal precioso às alterações nas expectativas de política monetária.
As declarações de Kevin Warsh, no final da semana anterior, reforçaram as expectativas de uma subida das taxas da Fed em Setembro e pressionaram o ouro para os mínimos da semana. O movimento acabou por ser parcialmente revertido depois de Christopher Waller admitir que só defenderia uma subida caso os próximos dados de inflação surpreendessem em alta. A queda do dólar e das yields dos Treasuries deu também suporte ao metal precioso.
No entanto, a divulgação de dados do mercado de trabalho norte-americano mais fortes do que o esperado voltou a aumentar as probabilidades de uma subida das taxas em Setembro, levando o ouro a recuar dos máximos semanais.
Em paralelo, a escalada das tensões entre os Estados Unidos e o Irão continuou a sustentar a procura por activos de refúgio. Assim, apesar da ligeira perda semanal, o ouro mantém-se apoiado por um contexto de elevada incerteza, com a evolução das expectativas para a Fed e da situação geopolítica no Médio Oriente a continuarem a ser os principais factores a acompanhar.
Gráfico Fonte XTB xStation 5