A semana que começa
BCE, Inflação e Geopolítica
Esta semana será marcada por dois grandes focos de atenção: a reunião de política monetária do BCE e os dados de inflação dos EUA, que poderão ajudar a definir as expectativas para a reunião da Fed na semana seguinte.
Esta semana promete manter os mercados sob elevada tensão, com a agenda macroeconómica a cruzar-se com uma geopolítica particularmente instável no Médio Oriente e no Leste europeu. Serão cinco dias em que os investidores terão de conciliar dados de inflação, uma reunião de política monetária de peso e desenvolvimentos militares e diplomáticos que continuam a moldar os preços da energia e o apetite pelo risco.

No plano económico, a atenção máxima estará reservada para sexta-feira, dia 11, quando o Bureau of Labor Statistics norte-americano divulgar o índice de preços no consumidor relativo a Agosto. Depois de a inflação homóloga ter abrandado ligeiramente para 3,4% em Julho, com a inflação subjacente a situar-se em 2,5%, este será o último grande indicador antes da reunião do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) agendada para meados de Setembro. Um valor acima do esperado reforçaria as probabilidades de uma subida de taxas da Reserva Federal, enquanto uma leitura mais benigna da inflação poderá levar à continuação dos actuais níveis de taxa de juro.

Ainda na frente dos bancos centrais, o Banco Central Europeu reúne-se esta quinta-feira, dia 10, naquela que será a primeira das grandes decisões de política monetária globais da semana. Com a taxa de depósito actualmente em 2,25%, a instituição liderada por Christine Lagarde enfrenta o dilema de conciliar uma economia da área do euro que mostra resiliência com o impacto inflacionista do choque energético provocado pela guerra no Médio Oriente. As novas projecções macroeconómicas de Setembro, elaboradas exclusivamente pelos serviços técnicos do BCE, deverão ser especialmente escrutinadas, num momento em que a incerteza geopolítica e o comércio internacional continuam a condicionar o outlook para o crescimento e os preços na região.

O conflito entre os Estados Unidos e o Irão continuará, de resto, bem no centro das atenções do mercado. Depois de uma escalada durante o fim de semana, com o Comando Central norte-americano a reivindicar a destruição de petroleiros associados à Guarda Revolucionária Islâmica em retaliação a ataques com mísseis contra navios de guerra dos EUA, a tensão no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz mantém-se num nível historicamente elevado. Teerão acusa Washington de atingir também embarcações junto à estratégica ilha de Kharg, fundamental para as exportações petrolíferas iranianas, alimentando receios sobre eventuais perturbações mais duradouras ao fluxo de crude por uma das rotas mais importantes do mundo para o transporte de energia.

A frente diplomática Rússia-Ucrânia soma-se a este quadro de incerteza. Os enviados norte-americanos Steve Witkoff e Jared Kushner deslocam-se a Moscovo e a Kiev, numa tentativa de aproximar posições e destravar as negociações de paz. Moscovo insiste, contudo, em que qualquer solução terá de considerar a situação no terreno, que classifica como cada vez mais favorável às suas forças, ao passo que Kiev garante manter contacto praticamente permanente com a equipa norte-americana. Qualquer sinal de avanço, ou pelo contrário de impasse, tende a ter reflexo imediato no sentimento de risco na Europa e nos activos ligados à região.

Nos mercados cambiais, o iene japonês continuará a merecer atenção redobrada. Depois de se ter aproximado da fasquia psicológica dos 160 face ao dólar, o par USD/JPY recuou de forma acentuada na sequência de especulação sobre uma nova intervenção das autoridades japonesas, cenário que já se verificou este ano em coordenação com Washington. A combinação entre o diferencial de taxas de juro, a subida dos preços da energia, que penaliza particularmente uma economia fortemente importadora como a nipónica, e a postura ainda cautelosa do Banco do Japão mantém a moeda vulnerável a novos episódios de volatilidade.

As yields da dívida soberana permanecem, entretanto, em níveis elevados, com a taxa a 10 anos do Tesouro norte-americano perto dos 4,8%, reflectindo tanto as apostas numa Fed mais hawkish como o prémio de risco geopolítico embutido nos mercados de obrigações. Do lado das matérias-primas, o petróleo Brent continua a negociar perto dos 95 dólares por barril, sustentado pela escassez de capacidade de refinação a nível global e pelas perturbações associadas ao conflito no Médio Oriente, enquanto o gás natural europeu, negociado no TTF holandês, se mantém acima dos 70 euros por MWh, um patamar que ilustra a persistência do prémio de risco energético no continente.
Dados Económicos

Estados Unidos da América
Numa semana mais curta, que começa com um feriado, o do Dia do Trabalhador, as atenções dos mercados guardam-se para os dois últimos dias.
Na quinta-feira, as atenções vão para os dados da inflação à porta das fábricas. Após a estabilidade de preços mostrada no mês de Julho, o índice de preços no produtor de Agosto deverá mostrar uma subida mensal de 0,4%. Se excluídos os alimentos e a energia, os preços deverão mostrar um aumento de 0,3%, acelerando dos 0,2% do mês anterior.
Teremos também os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego que deverão continuar em torno dos 205 mil, e ainda as vendas de imóveis existentes, onde as estimativas apontam para um redução de 0,2%, desacelerando da queda do mês anterior de 1,7%.
Mas o grande destaque da semana fica mesmo guardado para sexta-feira, com a divulgação do índice de preços do consumidor de Agosto. As previsões mostram uma subida mensal dos preços de 0,4%, acelerando dos 0,1% do mês de Julho, com a inflação homóloga a manter-se nos 3,4%. Já a inflação subjacente, sem os preços da energia e alimentos, deverá mostrar uma queda de 2,5% para 2,4%, com os preços em termos mensais a manterem um aumento de 0,2%.
Ainda na sexta-feira, iremos ter os dados preliminares da Universidade de Michigan. O índice de confiança do consumidor, segundo o consenso, deverá mostrar uma queda dos 51,7 para 51,2, enquanto as expectativas de inflação deverão recuar, com as de curto prazo de 4% para 3,9% e as de mais longo prazo de 3,3% para 3,2%.
Antes, a semana começará com o índice de pequenas e médias empresas NFIB, onde as estimativas apontam para uma queda de 99,8 para 99,2, os números do crédito ao consumo que deverão cair de 14,2 mil milhões de dólares para 13,2 mil milhões e os dados semanais do emprego da ADP.
Zona Euro
Por aqui teremos uma agenda económica bastante mais vazia de dados de primeira linha.
A semana começa com o índice de confiança do investidor Sentix, onde o consenso aponta para uma subida de 0,9 para 2,1, com a revisão do PIB do segundo trimestre que deverá manter o crescimento trimestral de 0,4% e ainda a produção industrial alemã do mês de Julho, com as estimativas a apontarem para uma aceleração dos 0,2% do mês anterior, para 0,3%.
Na terça-feira é dia de números da balança comercial do mês de Julho, referentes às duas maiores economias da Zona Euro. A Alemanha deverá apresentar um excedente de 16,5 mil milhões de euros, após os 15,4 mil milhões do mês anterior, e em França a balança comercial deverá mostrar um défice de 6 mil milhões de euros, acima do de 5,8 mil milhões no mês anterior.
Quarta-feira teremos os números da produção industrial francesa que deverão mostrar uma aceleração dos 0,1% do mês de Junho, para 0,2% em Julho.
Na quinta-feira é a vez de Itália apresentar os números da produção industrial, que após a queda de 1% mostrada em Junho, deverá em Julho mostrar um aumento de 0,3%.
Finalmente, na sexta-feira, teremos a taxa de desemprego do segundo trimestre em Itália, que se deverá manter nos 5,3%.
Reino Unido
O destaque da semana está também no último dia da semana. O PIB do mês de Julho, segundo as previsões, deverá mostrar uma estagnação, após o crescimento em Junho de 0,3%. Iremos ter os números da balança comercial de bens que deverão apresentar um défice de 22,4 mil milhões de libras, recuando dos 23 mil milhões do mês anterior. Teremos ainda a produção industrial, com as estimativas a apontarem para uma redução mensal em Julho de 0,1%, após a queda de 0,2% no mês anterior.
A semana começa com o índice de preço de imóveis da Lloyds, que deverá mostrar um crescimento de 0,2% após a estabilização no mês anterior.
Teremos também o BRC Retail Sales Monitor que deverá mostrar um crescimento em termos homólogos de 1,2%, acelerando dos 1% do mês anterior, e o RICS House Price Balance, onde as estimativas apontam para uma queda de -30 para -31.
Suíça
A semana começa com a divulgação da taxa de desemprego que se deverá manter nos 3,1%, e termina com o índice de confiança do consumidor SECO, onde o consenso mostra um recuperação dos -35 para -32.
China
Por aqui teremos os importantes números da balança comercial e ainda os não menos importantes da inflação.
Na balança comercial, as previsões apontam para um aumento do excedente de 112,5 mil milhões de dólares apresentados em Julho, para um excedente de 120,1 mil milhões em Agosto.
A inflação, segundo as estimativas, deverá mostrar uma subida de 0,5% para 0,9%, em termos homólogos, com os preços em Agosto a mostrarem uma subida mensal de 0,2%, após a queda de 0,1% mostrada em Julho. A inflação à porta das fábricas, em termos homólogos, deverá subir de 3,5% para 3,6%.
Japão
As atenções começam por ir para os números dos rendimentos médios salariais, com as estimativas a apontarem para uma desaceleração dos 4% no mês anterior, para 3,9%. Os empréstimos bancários deverão acelerar dos 5,4% do mês anterior, para os 5,5%. O saldo da conta corrente deverá subir dos 1,40 triliões de ienes para 2,4 triliões e a leitura final do PIB do segundo trimestre deverá confirmar o crescimento trimestral de 0,4%. O índice de confiança dos observadores económicos deverá subir de 45,7 para 46,3.
Mais tarde teremos os números preliminares das encomendas de maquinaria que deverão abrandar do aumento de 50,4% no mês de Julho, para 43% em Agosto.
Por fim, o índice de preços do produtor, em termos homólogos, deverá acelerar dos 7,2% no mês anterior para 7,4%, e o índice manufactureiro BSI deverá subir de -1,8 para 2,5.
Nova Zelândia
A semana começa com as vendas manufactureiras do segundo trimestre, que deverão mostrar uma queda de 1%, depois do aumento de 2,8% no trimestre anterior, e termina com a divulgação do índice manufactureiro BusinessNZ, com o consenso a mostrar uma queda de 54,3 para 54,0.
Austrália
Por aqui será também uma semana tranquila relativamente a indicadores económicos, que começa com as vagas de emprego ANZ que deverão desacelerar do aumento de 0,8% no mês anterior, para 0,5%.
Mais tarde iremos ter o índice de confiança do consumidor Westpac, que deverá mostrar uma queda de 3,6%, depois do aumento de 6% no mês de Agosto, e o índice de confiança empresarial NAB deverá cair de -6 para -8.
Bancos Centrais

Banco Central Europeu
O BCE deverá voltar a subir as taxas de juro na reunião desta semana, com um aumento de 25 pontos base, para 2,50%, praticamente totalmente antecipado pelos mercados. A aceleração da inflação da zona euro para 3,3% em Agosto, sobretudo devido aos preços da energia, e a resiliência da economia deverão justificar este novo aumento.
As novas projeções económicas do BCE serão, por isso, importantes para perceber o que poderá acontecer depois de Setembro. Embora a actividade económica continue a mostrar alguma resistência, a inflação deverá permanecer acima da meta de 2% durante mais algum tempo, mantendo os riscos para os preços inclinados em sentido ascendente.
O cenário-base aponta, contudo, para que Setembro marque o fim do actual ciclo de aperto monetário. As expectativas de inflação de longo prazo continuam ancoradas e a inflação subjacente recuou para 2,4%, sugerindo que, para já, o aumento dos preços da energia não está a gerar efeitos de segunda ordem suficientemente fortes para obrigar o BCE a avançar mais.
O principal risco está numa nova escalada dos preços da energia. Se a guerra no Médio Oriente prolongar a pressão sobre o petróleo e o gás e começar a contaminar salários, serviços e expectativas de inflação, o BCE poderá ser obrigado a manter o ciclo e realizar mais uma subida, eventualmente em Dezembro.
Para os mercados, a decisão de Setembro será, assim, pouco relevante em si mesma, dado que já está amplamente descontada. O foco estará sobretudo no discurso de Christine Lagarde e nas novas projecções, procurando sinais sobre se os 2,50% representam o pico das taxas ou apenas mais uma etapa num ciclo que poderá prolongar-se caso as pressões inflacionistas se intensifiquem.
O Banco Central da Turquia
Banco central turco deverá manter taxa inalterada após ajuste na liquidez. O BCT deu, no final de Agosto, um passo relevante no sentido de normalizar as condições de liquidez do sistema, ao retomar os seus leilões semanais. Esta medida técnica teve um efeito imediato e visível: o custo efectivo de financiamento recuaram directamente para o nível da taxa directora, situando-se nos 37%, depois de terem estado ancorados nos 40%. Tratou-se, assim, de um alinhamento entre o custo real do dinheiro no mercado e a orientação de política monetária formalmente definida pelo banco central, eliminando um diferencial que se vinha a revelar cada vez menos justificável.
Nesta quinta-feira, o BCT reúne-se para a sua decisão de Setembro, e tudo aponta para uma manutenção da taxa directora nos níveis actuais. A recente normalização da liquidez retira, para já, margem e urgência a um novo corte imediato, permitindo à instituição consolidar o ajuste já efectuado antes de avançar com novos passos na trajectória de flexibilização monetária.