Semana Revista
Petróleo, yields, BCE e inflação
Semana marcada pela escalada no Médio Oriente, o Brent de volta acima dos $100, yields soberanas a testarem máximos de vários anos, Bessent a desafiar os mercados obrigacionistas e um BCE num tom hawkish.
Esta semana ficou marcada pela intensificação do conflito no Médio Oriente, com ataques dos Houthis a instalações sauditas e a destruição, por parte dos Estados Unidos, de vários petroleiros iranianos, o que empurrou o Brent de novo acima da fasquia dos 100 dólares. Em paralelo, as yields soberanas globais dispararam para níveis não vistos há vários anos, com o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, a desafiar publicamente os mercados obrigacionistas. O Banco Central Europeu subiu os juros e assumiu um discurso claramente hawkish, enquanto nos Estados Unidos os dados de inflação de Agosto vieram reforçar as apostas numa subida de juros pela Reserva Federal já na próxima semana.

Esta semana foi dominada, uma vez mais, pela escalada do conflito no Médio Oriente e pelas suas repercussões directas sobre os mercados de energia e de dívida soberana. Os combates entre as forças houthis, apoiadas pelo Irão, e as forças sauditas intensificaram-se, com os rebeldes a tomarem controlo de cidades portuárias e ilhas estratégicas junto ao estreito de Bab-el-Mandeb, um dos corredores mais sensíveis para o transporte marítimo de energia a nível mundial. Ainda que o tráfego de navios no estreito não tenha, para já, sido significativamente afectado, o risco de os petroleiros terem de optar pela rota mais longa, contornando África, aumentou de forma clara ao longo da semana. A Arábia Saudita viu a sua produção de crude cair de forma acentuada, para cerca de 3,1 milhões de barris por dia em Agosto, face aos 5,1 milhões de barris em Julho, o nível mais baixo desde 2013, à medida que várias das suas instalações energéticas no sul do país foram alvo de ataques que provocaram incêndios. Do lado norte-americano, os Estados Unidos destruíram cinco petroleiros iranianos, tendo o Irão respondido com ataques a uma base utilizada pelas forças norte-americanas na Jordânia e a embarcações junto ao estreito de Ormuz. Correm ainda notícias de que um bloco de seis países do Golfo estará a considerar reunir-se com responsáveis iranianos já na próxima semana para discutir a situação no estreito de Ormuz, o que marcaria o primeiro encontro directo com Teerão desde o início da guerra, há mais de seis meses.

Nas commodities, o petróleo voltou a ser o grande protagonista da semana. O Brent chegou a tocar praticamente os 110 dólares por barril na noite de quinta-feira, o nível mais alto desde meados de Maio, tendo entretanto recuado para valores próximos dos 105 dólares, mas mantendo-se claramente acima da fasquia psicológica dos 100 dólares. No conjunto do ano, o crude acumula uma valorização superior a 60%. O gás natural europeu não ficou imune ao movimento, com o benchmark de referência a ultrapassar os 80 euros por MWh, um máximo plurianual não visto desde Janeiro de 2023. A plataforma de mercados de previsão Polymarket reviu em baixa, para cerca de 20%, a probabilidade de uma normalização da situação no estreito de Ormuz ainda este ano, reflectindo o pessimismo crescente quanto a uma resolução rápida do conflito.

A subida dos preços da energia continua a alimentar as expectativas de inflação no curto prazo. Os mercados apontam actualmente para uma inflação média de 3,6% na área euro nos próximos doze meses e de 2,7% nos Estados Unidos, valores que representam, em ambos os casos, uma subida de cerca de um ponto percentual face há um mês. Esta dinâmica ganhou particular relevância com a divulgação, esta sexta-feira, do índice de preços no consumidor norte-americano relativo a Agosto: a inflação homóloga fixou-se em 3,4%, em linha com as expectativas, mas o núcleo da inflação acelerou 0,3% em termos mensais, ligeiramente acima do previsto, com a taxa subjacente homóloga a situar-se em 2,4%. O relatório do índice de preços no produtor, divulgado na véspera, já tinha surpreendido pelo lado mais restritivo, com uma subida homóloga de 5,4%. Este conjunto de dados reforçou as apostas dos investidores numa subida de juros por parte da Reserva Federal na reunião da próxima semana, com o presidente Kevin Warsh a reiterar anteriormente em Jackson Hole o seu compromisso com o regresso da inflação à meta de 2% e a sublinhar que, caso os números não melhorem, "há trabalho a fazer".

O Banco Central Europeu surpreendeu igualmente os mercados esta semana, ao assumir um tom claramente mais hawkish do que o esperado. A instituição subiu a taxa de depósito em 25 pontos base, para 2,5%, uma decisão que Christine Lagarde classificou como "óbvia". A presidente do BCE afirmou ainda que a inflação deverá permanecer bem acima da meta durante um período prolongado, acrescentando que a decisão foi tomada por unanimidade e se revela robusta face aos três cenários que a instituição traçou para a economia da região. Esta postura mais dura surge numa altura em que a inflação na área euro atingiu 3,3% em Agosto, com a componente energética a disparar para 14,3% em termos homólogos, colocando pressão adicional sobre o Banco Central Europeu para continuar o ciclo de subidas nos próximos meses.

Do lado da dívida soberana, a semana ficou marcada por um movimento de vendas generalizado que colocou os mercados obrigacionistas globais sob forte pressão. A yield da obrigação do Tesouro norte-americano a 10 anos subiu quase 20 pontos base ao longo da semana, para cerca de 4,95%, aproximando-se perigosamente da fasquia dos 5%, um nível que não é testado desde 2023. O movimento não se ficou pelos Estados Unidos: as yields na Alemanha, na Austrália, no Japão e na Nova Zelândia dispararam em uníssono, elevando um indicador global de yields para o valor mais alto desde 2007. Este contexto de nervosismo generalizado levou o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, a assumir uma postura pouco habitual, desafiando publicamente os investidores a testarem a sua determinação. Numa intervenção na Southern Methodist University, Bessent afirmou ser "a casa" do mercado, numa referência à intervenção paralela do Tesouro no mercado cambial para apoiar o iene japonês, acrescentando que os investidores podiam "apostar contra ele se assim o desejassem". As palavras do secretário do Tesouro, no entanto, não impediram uma nova subida das yields: a operação de recompra de obrigações de longo prazo anunciada esta semana, no valor de 6 mil milhões de dólares, ficou aquém do que muitos investidores esperavam, e a yield a 10 anos acabou por atingir um máximo do ano, próximo dos 4,95%, com as maturidades a 20 e 30 anos a ultrapassarem os 5,3% em alguns momentos da semana. O desafio de Bessent aos mercados, lançado justamente na antecâmara desta operação, acabou assim por não produzir o efeito pretendido, com os investidores a continuarem a testar a resolução do Tesouro numa altura em que a dívida pública norte-americana ultrapassou os 40 mil milhões de dólares e o défice orçamental se aproxima dos 2 mil milhões.
No conjunto, a semana confirma um padrão que se tem vindo a consolidar desde o início do conflito no Médio Oriente: a energia mais cara a alimentar a inflação, a inflação mais persistente a forçar bancos centrais a manterem-se restritivos, e essa postura mais dura, por sua vez, a colocar pressão adicional sobre as yields soberanas, numa espiral que os mercados começam a olhar com crescente desconforto.

Dados Económicos
Nos Estados Unidos todos os olhos estiveram postos no último dia da semana, nos dados da inflação de Agosto.
Os preços mostraram uma subida mensal de 0,4%, em linha com as previsões do mercado, com a inflação homóloga a manter-se nos 3,4%. Já os preços, sem a energia e alimentos, mostraram uma subida mensal de 0,3%, acima dos 0,2% estimados pelo mercado, mas ainda assim a medida em termos homólogos caiu de 2,5% para 2,4%, tal como esperado pelos mercados.
No dia anterior, o índice de preços do produtor mostrou uma subida mensal de 0,4%, em linha com as previsões, mas com os números do mês anterior a serem revistos em alta para 0,1%. Excluindo alimentos e energia os preços subiram 0,2%, abaixo dos 0,3% estimados, mas com os números anteriores a serem revistos de 0,2% para 0,3%.
A semana começou com o índice de pequenas e médias empresas NFIB que mostrou uma queda de 99,8 para 98,7, abaixo dos 99,2 estimados, e ainda com os números do crédito ao consumo que subiram, inesperadamente, de 14,6 mil milhões de dólares para 18,1 mil milhões, contrariando estimativas que apontavam para uma queda para 13,2 mil milhões de dólares.
Os dados semanais do emprego da ADP mostraram uma subida dos 10 mil para 12 mil, e os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego caíram dos 207 mil para 206 mil.
As vendas de imóveis existentes mostraram uma queda de 2%, acelerando da de 1,7% do mês anterior.
A semana terminou com os dados preliminares da Universidade de Michigan. O índice de confiança do consumidor caiu mais do que o esperado pelo mercado, de 51,7 para 47,8, um mínimo só superado pelo que se registou em Abril deste ano. As expectativas de inflação voltaram a subir, as de curto prazo de 4% para 4,6% (face aos 3,9% esperados) e as de mais longo prazo de 3,3% para 3,4% (3,2% estimados).
Na Zona do Euro, relativamente a dados económicos, foi uma semana bastante pobre.
A semana começou com o PIB do segundo trimestre a ser revisto em alta, com o crescimento de 0,4% apresentado pelos números preliminares, para 0,6%, superando claramente as estimativas do mercado. Também a superar as estimativas do mercado esteve o índice de confiança do investidor Sentix que subiu dos 0,9 do mês anterior para 5,1, bem acima dos 2,1 esperados.
Na Alemanha, a produção industrial alemã do mês de Julho mostrou uma queda inesperada de 1,1%, contrariando previsões de um aumento de 0,3%, e ainda com o crescimento anterior de 0,2% a ser revisto em baixo para 0%, enquanto a balança comercial apresentou um excedente de 21,3 mil milhões de euros, acima dos 16,5 mil milhões estimados.
Em França, a balança comercial apresentou um défice de 6,7 mil milhões de euros, acima dos 5,8 mil milhões do mês anterior e dos 6 mil milhões estimados pelo mercado, e a produção industrial francesa mostrou uma queda inesperada de 0,4%, face a 0,2% estimados e ainda os números de Junho a serem revistos em baixo de um crescimento de 0,1% para uma redução de 0,1%.
Já em Itália os números da produção industrial superaram as estimativas do mercado ao mostrarem um aumento de 0,7%, face a 0,3% estimados, mas com os números do mês anterior a serem também revistos em baixo, de -1% para -1,1%. Os números do emprego do segundo trimestre mostraram uma subida da taxa de desemprego para 5,6%, face a 5,3% esperados, e ainda com a taxa do trimestre anterior a ser revista em alta de 5,3% para 5,5%.
No Reino Unido, as atenções estiveram voltadas para os números do crescimento económico, que voltaram a surpreender positivamente.
O PIB do mês de Julho mostrou um crescimento mensal de 0,4%, contrariando as previsões que apontavam para uma estagnação.
Os números da balança comercial de bens superaram também as estimativas do mercado ao apresentarem um défice de 21,0 mil milhões de libras, face aos 22,4 mil milhões de libras esperados.
Também acima das estimativas do mercado esteve a produção industrial que mostrou uma surpreendente subida de 0,2%, face a uma queda esperada de 0,1%.
A abrir a semana tivemos o índice de preço de imóveis da Lloyds que mostrou uma queda inesperada de 0,2%, face a uma subia do mesmo valor, o BRC Retail Sales Monitor mostrou um crescimento em termos homólogos de 0,5%, abaixo dos 1,2% do mês anterior, e o RICS House Price Balance teve uma revisão em alta no mês anterior de -30 para -29 e uma subida este mês para -28, bem acima dos -31 do consenso do mercado.
Na Suíça a semana começou com a taxa de desemprego a manter-se nos 3,1%, tal como esperado pelos mercados, e terminou com o índice de confiança do consumidor SECO a subir de -35 para -33, um pouco aquém dos -32 apontados pelo consenso de mercado.
Na China a semana foi de números do comércio internacional e de inflação.
A balança comercial mostrou um excedente de 119,1 mil milhões de dólares, abaixo dos 120,1 mil milhões esperados, mas bem acima dos 112,5 milhões do mês de Julho, com as exportações a acelerarem de 23,9% para 25% e as importações de 27,5% para 28,2%.
Os preços em Agosto mostraram uma subida mensal de 0,4%, bem acima dos 0,2% estimados e da queda no mês anterior de 0,1%, com a inflação, em termos homólogos, a subir de 0,5% para 0,8%, abaixo dos 0,9% estimados anteriormente.
A inflação à porta das fábricas, em termos homólogos, subiu de 3,5% para 3,8%, ficando acima dos 3,6% previstos pelo mercado.
No Japão, as atenções começaram por ir para os números dos rendimentos médios salariais que mostraram uma aceleração inesperada do mês anterior de 4% (revisto em alta) para 4,7%, bem acima dos 3,9% estimados pelos mercados.
Os empréstimos bancários, em termos homólogos, mantiveram o crescimento de 5,4%. A conta corrente mostrou um saldo positivo de 2,52 triliões de ienes, ficando acima dos 1,40 triliões do mês anterior e dos 2,4 triliões estimados, e a leitura final do PIB do segundo trimestre confirmou o crescimento trimestral de 0,4%. O índice de confiança dos observadores económicos subiu de 45,7 para 46,4.
Mais tarde os números preliminares das encomendas de maquinaria aceleraram dos 50,4% no mês de Julho, para 64,7% em Agosto, superando estimativas de 43%.
Por fim, o índice de preços do produtor, em termos homólogos, mostrou uma subida de 7,6%, com o número do mês anterior a ser revisto em alta 7,2% para 7,7%.
O índice manufactureiro BSI subiu de -1,8 para 7,6, superando o apontado pelo consenso de 2,5.
Na Nova Zelândia a semana começou com as vendas manufactureiras do segundo trimestre que mostraram um crescimento de 3,1%, em linha com o trimestre anterior revisto de 2,8%, e terminou com o índice manufactureiro BusinessNZ que caiu de 54,3 para 53,1, ficando abaixo dos 54,0 apontados pelo consenso do mercado.
Na Austrália foi também uma semana tranquila de indicadores económicos.
As vagas de emprego ANZ subiram do aumento de 1,9%, revisto em alta, do mês anterior, para 2,5%, ficando bem acima dos 0,5% estimados.
O índice de confiança do consumidor Westpac mostrou uma queda de 5,2%, bem mais do que a esperada de 3,6%, depois do aumento de 6% no mês de Agosto, e o índice de confiança empresarial NAB caiu de -7 para -8.

Bancos Centrais
O Banco Central Europeu decidiu na reunião desta semana subir a taxa de depósito em 25 pontos base, para 2,5%, colocando-a no limite superior do intervalo que considera compatível com uma política monetária neutra. A decisão era amplamente esperada pelos mercados, mas ganha uma dimensão adicional perante a recente escalada do conflito no Médio Oriente e a consequente subida dos preços do petróleo.
O BCE reconhece que o choque energético deverá manter a inflação acima do objectivo durante um período prolongado. As novas projecções apontam para uma inflação de 3% este ano, 2,5% em 2027 e 2,1% em 2028, enquanto a inflação subjacente deverá permanecer acima dos 2% ao longo de todo o horizonte. Ainda assim, a actividade económica foi revista em alta, com o crescimento previsto em 0,9% este ano, 1,4% em 2027 e 1,5% em 2028. Estas previsões, contudo, ainda não incorporam plenamente o recente aumento das yields obrigacionistas nem o novo patamar dos preços do petróleo.
Na conferência de imprensa, Christine Lagarde manteve uma postura cautelosa e evitou comprometer-se com o rumo dos próximos juros. Ao mesmo tempo, deixou várias indicações de que a próxima reunião permanece em aberto. A possibilidade de uma nova subida já em Outubro ganhou força depois de a Bloomberg ter noticiado que essa opção está a ser equacionada no BCE.
No fundo, a subida de 25 pontos base pode ser vista como uma espécie de seguro perante o risco de o choque energético se propagar à economia, mais do que como o início de um ciclo de aperto monetário claramente restritivo. Com a actividade ainda resiliente e as finanças públicas já pressionadas pela subida das yields, parece difícil que o BCE esteja disposto a arriscar uma recessão para responder a um choque essencialmente do lado da oferta.
Ainda assim, o banco central enfrenta um equilíbrio particularmente delicado. Petróleo elevado durante mais tempo poderá tornar a inflação mais persistente, mas uma resposta demasiado agressiva poderá penalizar o crescimento. Por isso, a única certeza neste momento parece ser a própria incerteza, com o rumo da política monetária a continuar dependente da evolução dos preços da energia e da forma como este choque se transmite ao resto da economia.
O Banco Central da Turquia manteve a taxa repo a uma semana em 37%, numa decisão amplamente esperada, deixando também inalterado o corredor de taxas, entre 35,5% e 40%.
A decisão reflecte a cautela perante o recrudescimento das tensões geopolíticas e a subida dos preços da energia, num momento em que a inflação continua elevada. A revisão em forte alta da previsão oficial de inflação para 2027, de 9% para 21%, reforça igualmente os riscos para o processo de desinflação.
Ainda assim, o banco central considera que a tendência subjacente da inflação continua a moderar-se, beneficiando da fraqueza da procura interna. A instituição mantém, por isso, uma abordagem reunião a reunião, sem fechar a porta a um novo aperto caso os riscos inflacionistas se agravem.

Mercados accionistas
A semana de 7 a 11 de Setembro ficou marcada por uma pressão generalizada sobre os mercados accionistas, num contexto de maior aversão ao risco, agravamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente e renovados receios em torno da inflação.
Na Ásia, a evolução foi sobretudo negativa, com o Hang Seng a liderar as perdas ao recuar 3,30%, enquanto o ASX 200 caiu 2,94% e o Nikkei 225 perdeu 1,55%. Os índices chineses também terminaram a semana em terreno negativo. Em sentido contrário, o Kospi destacou-se pela positiva, com uma subida de 3,33%, apoiado sobretudo pelo desempenho do sector dos semicondutores.
Na Europa, o ambiente também se deteriorou, com o STOXX 600 a registar a maior queda semanal desde o início de Julho. O DAX recuou 1,88%, o FTSE 100 perdeu 1,67% e o CAC 40 caiu 1,20%, num contexto marcado pela subida dos preços da energia, pelo aumento das yields e pelos receios de que uma inflação mais persistente limite a margem de manobra dos bancos centrais.
Nos Estados Unidos, as perdas foram mais moderadas, mas igualmente generalizadas. O Dow Jones recuou 1,58%, enquanto o S&P 500 perdeu 0,80% e o Nasdaq 0,66%. A tecnologia mostrou alguma resistência face aos restantes sectores, embora a subida das yields e a perspectiva de uma Fed mais restritiva tenham limitado o desempenho das acções.
O principal factor de pressão ao longo da semana voltou a ser a escalada das tensões no Médio Oriente. O agravamento do conflito entre os Estados Unidos e o Irão, os ataques a instalações energéticas sauditas e os riscos crescentes em torno do estreito de Ormuz e do Mar Vermelho fizeram o Brent superar os 100 dólares por barril. A subida do petróleo reacendeu os receios de inflação e contribuiu para a subida das yields obrigacionistas, penalizando sobretudo as avaliações dos activos de risco.
A evolução das taxas de juro ganhou ainda maior importância depois de o BCE adoptar um tom mais hawkish, num momento em que os mercados já começam a antecipar uma inflação mais persistente devido ao aumento dos preços da energia. Nos Estados Unidos, as expectativas de uma nova subida de juros pela Fed também se reforçaram, mantendo a pressão sobre as obrigações e limitando o potencial de recuperação das bolsas.
Setembro acrescenta ainda um factor sazonal desfavorável. Historicamente, este é um dos meses mais fracos para as bolsas norte-americanas, com uma maior volatilidade associada ao regresso dos investidores após o período de férias e à consequente revisão de posições.
Em Portugal, o PSI destacou-se pela positiva, com uma valorização de 1,45%, contrariando a tendência predominante nos principais mercados internacionais. O desempenho relativo do índice português reflecte, em particular, a evolução favorável de alguns dos seus pesos pesados, num contexto externo claramente mais adverso.
Para a próxima semana, a evolução dos preços da energia e da situação geopolítica continuará a ser determinante para o sentimento dos investidores. Uma estabilização do petróleo e das yields poderá aliviar a pressão sobre as avaliações, mas, enquanto persistirem os riscos de uma inflação mais elevada e de uma política monetária mais restritiva, o contexto deverá continuar a favorecer alguma cautela nos mercados accionistas.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
Mercado cambial
A escalada de tensões geopolíticas no Médio Oriente levou a uma subida dos preços do petróleo para máximos dos últimos quatro meses. Renovados receios inflacionistas que colocam os mercados a anteciparem bancos centrais com políticas monetárias mais restritivas e yields obrigacionistas em alta, impactaram os mercados financeiros globalmente durante esta semana, e o mercado cambial não foi excepção.
A isto juntou-se a primeira reunião de um maior banco global, o Banco Central Europeu, que subiu as suas taxas de juro em 25 pontos base como de resto descontado pelos mercados, mas com um posicionamento mais agressivo do que o esperado. Uma semana onde o mercado aguardou pela divulgação dos dados da inflação de Agosto nos Estados Unidos. Os números mostram um afastamento da meta dos 2% da Reserva Federal, e como tal a semana acabou com as probabilidades em torno de 90% para uma subida de taxas na próxima semana por parte da Fed.
Ainda assim, o dólar norte-americano registou uma semana de perdas. Os mercados continuam a olhar para o elevado nível de endividamento e, apesar do suporte dado pelas tensões geopolíticas e do petróleo de novo acima dos 100 dólares, índice DXY caiu de níveis de abertura a 99,10 pontos, para terminar em torno de 98,80, após ter atingido mesmo um mínimo de 98,60 pontos.
O EUR/USD negociou entre pressões dadas pelos elevados preços da energia, onde o preço do gás natural europeu (TTF) terminou a semana acima dos 80 euros por MW, o nível mais elevado desde finais de 2022, e um banco central mais hawkish do que o esperado pelos mercados. A volatilidade manteve-se bastante contida, com o preço a ficar entre um máximo de 1,1654 e um mínimo de 1,1569, terminando ligeiramente abaixo de 1,1600 (1,1598), após ter começado a semana um pouco acima, nos 1,1610.
O iene japonês começou a semana em ganhos acentuados que estabilizou após ter atingido novos máximos. Os mercados aguardam agora pela decisão do Banco do Japão na próxima semana, onde descontam já uma subida de taxas dos actuais 1% para 1,25%. O USD/JPY começou a semana em máximos, acima dos 156,00, para terminar a 153,47, após ter chegado a atingir um mínimo abaixo de 153, logo no início da semana. O EUR/JPY registou um padrão semelhante, começando a semana a negociar perto dos máximos a 181,20, para terminar junto ao mínimo de 177,85.
A libra esterlina registou também uma volatilidade contida durante esta semana, véspera de mais uma reunião do Banco de Inglaterra, onde os mercado espera por uma manutenção da sua actual taxa de juro nos 3,75%. O GBP/USD ficou confinado entre um mínimo de 1,3480 e um máximo de 1,3567, enquanto o EUR/GBP ficou entre 0,8569 e 0,8599.
O franco suíço registou uma semana de perdas significativas, pressionado pela subida generalizada das yields obrigacionistas das principais economias, pelas expectativas de subida de taxas de juro por parte dos grandes bancos centrais e onde o Banco Nacional da Suíça mantém a sua taxa de juro a 0%. O USD/CHF começou a semana em mínimos de 0,8067 para terminar em máximos a 0,8170. O EUR/CHF subiu de 0,9368 até aos 0,9472, onde terminou a semana, num máximo de quase seis meses, com o par impulsionado pela subida de taxas do BCE e do seu posicionamento mais hawkish.
Nos mercados emergentes, o rand sul-africano foi a moeda que mais perdeu durante esta semana, pressionado pelos preços elevados do petróleo e por um dólar mais firme, entre expectativas crescentes de uma subida de taxas da Fed na próxima semana. O rand recuou um pouco mais de 1%, tanto face ao dólar como face ao euro.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
Commodities
O petróleo
Os preços do petróleo voltaram a ser dominados pela geopolítica, com o Brent a abrir a semana nos 97,00 dólares por barril e a escalar até um máximo de 110 dólares, o valor mais elevado desde Maio, antes de recuar e fechar a semana nos 104,50 dólares. O crude norte-americano WTI seguiu uma trajectória semelhante, com a abertura nos 92,25 dólares a dar lugar a um pico de 104,50 dólares e um fecho semanal nos 100 dólares. A amplitude de variação superior a 13 dólares em ambos os benchmarks confirma que o mercado petrolífero permanece extremamente sensível a cada novo desenvolvimento no conflito entre Washington e Teerão.
O gatilho inicial da subida dos preços foi o ataque das forças norte-americanas a cinco petroleiros iranianos ligados à Guarda Revolucionária Islâmica, quatro deles no Golfo de Omã e um quinto junto ao terminal de exportação de Kharg, um dos principais pontos de escoamento do crude iraniano. A operação surgiu como resposta a tentativas de ataque com mísseis balísticos contra um navio de guerra norte-americano, repetidas por duas vezes em dias consecutivos, e levou a que o tráfego de embarcações no Estreito de Hormuz permanecesse praticamente nulo durante o fim de semana, um padrão que se tem tornado recorrente ao longo deste conflito. Os preços disparam para os máximos dos últimos meses, quando o conflito escalou e se intensificou entre forças houthis apoiadas pelo Irão e as forças sauditas, com os rebeldes a tomarem controlo de cidades portuárias e ilhas estratégicas junto ao estreito de Bab-el-Mandeb, um dos corredores mais sensíveis para o transporte marítimo de energia a nível mundial, ameaçando a sua interrupção à navegação.
Entretanto, bancos de investimento como a Goldman Sachs e o Bank of America reviram em alta as suas projecções para o Brent e o WTI, situando os preços alvo para o final de 2026 nos 85 e 80 dólares, respectivamente, e alertando que uma eventual manutenção da produção do Golfo Pérsico quatro milhões de barris diários abaixo dos níveis anteriores ao conflito poderia empurrar o Brent acima dos 120 dólares já em 2027.
O recuo registado na última sessão da semana, que levou o Brent a ceder mais de cinco dólares face ao máximo semanal, reflectiu alguma tomada de lucros e a expectativa em torno de um possível encontro na próxima semana de um bloco de seis países do Golfo com as autoridades iranianas para discutir a abertura do Estreito de Ormuz. Seria o primeiro encontro com a República Islâmica desde o início da guerra, há mais de seis meses.
Para as próximas semanas, o mercado deverá manter-se refém da evolução do conflito no Golfo Pérsico, com qualquer sinal de trégua ou, pelo contrário, de nova escalada, a determinar se os benchmarks consolidam acima dos 100 dólares ou regressam a um patamar mais próximo dos níveis observados antes do reacender das hostilidades.
Gráfico Fonte XTB xStation 5
O ouro
O ouro abriu a sessão desta semana nos 4.422,35 dólares por onça e serpenteou entre um máximo semanal de 4.443 dólares e um mínimo de 4.292,10 dólares, para fechar a semana nos 4.350 dólares. Ainda que longe do máximo histórico absoluto perto de 5.600 dólares atingido em Janeiro, a amplitude da oscilação desta semana ilustra a tensão entre dois vectores que continuam a disputar a direcção do metal amarelo: a procura estrutural por activos de refúgio, alimentada pela escalada militar no Médio Oriente, e a correcção técnica associada ao reforço do dólar norte-americano e às yields das obrigações soberanas.
O impulso ascendente esteve associado à intensificação dos confrontos entre os Estados Unidos e o Irão no Estreito de Hormuz, com ataques a petroleiros iranianos e a infraestruturas ligadas à Guarda Revolucionária, que reforçaram a procura por activos de refúgio num contexto de incerteza geopolítica prolongada. A este factor somou-se um dado relevante divulgado pelo Conselho Mundial do Ouro: os fundos cotados apoiados em ouro físico registaram, em Agosto, entradas líquidas de 18 mil milhões de dólares, a segunda maior captação mensal alguma vez registada, elevando as reservas destes veículos para um máximo histórico de 4.189 toneladas. Este movimento, protagonizado sobretudo por investidores norte-americanos e europeus, inverte o padrão observado na primeira metade do ano, quando os fundos cotados registavam saídas líquidas mesmo com os bancos centrais a comprar de forma consistente.
Por outro lado, a pressão sobre o preço do ouro nesta semana ficou associada à divulgação dos dados de inflação ao consumidor nos Estados Unidos, com o IPC a fixar-se em 3,4% em termos homólogos e a componente subjacente nos 2,4%, ainda acima da meta de 2% da Reserva Federal. Em termos mensais, os preços core surpreenderam ligeiramente em alta, com uma subida de 0,3%, acima dos 0,2% estimados pelo mercado, um sinal de que as pressões inflacionistas continuam mais persistentes do que o antecipado. O dado reforçou, ainda que de forma moderada, as probabilidades atribuídas a uma subida da taxa de juro directora na reunião da Reserva Federal marcada para a próxima semana, e a subida dos rendimentos da dívida norte-americana e o consequente reforço do dólar retiraram parte do fulgor ao ouro, que enfrenta nesta fase um dilema clássico: o mesmo enquadramento de inflação persistente e tensão geopolítica que sustenta a procura por cobertura é também aquele que pode justificar uma política monetária mais restritiva, encarecendo o custo de oportunidade de deter um activo sem rendimento.
Gráfico Fonte XTB xStation 5