A semana que começa
Fed, BoJ e petróleo em foco
A evolução do conflito no Médio Oriente, o petróleo e as reuniões da Fed, BoJ e BoE vão dominar uma semana marcada também pelos dados de inflação no Reino Unido e Canadá e pelo emprego britânico.

A semana de 14 a 18 de Setembro deverá começar com os mercados ainda muito condicionados pela evolução do conflito entre o Irão e os Estados Unidos e pelos riscos em torno do Golfo. Uma eventual nova escalada poderá impulsionar ainda mais o petróleo, num momento em que o Brent já negoceia acima dos 100 dólares, reforçando os receios de uma nova vaga inflacionista e complicando a actuação dos bancos centrais.

O grande destaque da semana será, contudo, a reunião da Reserva Federal dos Estados Unidos, que termina na quarta-feira. Depois dos dados recentes de inflação e emprego, o mercado estará particularmente atento à decisão de política monetária, às novas projeções económicas e, sobretudo, ao discurso de Kevin Warsh. A questão central será perceber se a Fed avança para uma subida dos juros ou mantém as taxas, mas adopta um tom mais restritivo perante a persistência das pressões inflacionistas.
Também o Banco do Japão estará no centro das atenções, com a reunião marcada para sexta-feira. O mercado atribui uma elevada probabilidade a uma subida de 25 pontos-base, para 1,25%, o que colocaria os juros japoneses em máximos de várias décadas.
No Reino Unido, o Banco de Inglaterra reúne na quinta-feira, depois da divulgação dos dados de emprego e, na véspera, dos números da inflação. Com a inflação ainda acima do objetivo de 2%, os dados poderão influenciar a composição do voto do Comité de Política Monetária e a percepção do mercado sobre os próximos passos do banco central.

A agenda económica será relativamente ligeira nos Estados Unidos e na Zona Euro, mas contará ainda com alguns indicadores relevantes. No Canadá, a inflação de Agosto será acompanhada de perto, enquanto no Reino Unido serão divulgados os dados do mercado de trabalho e da inflação. Nos EUA, as vendas a retalho e alguns indicadores de actividade completarão uma semana em que a política monetária, o petróleo e a geopolítica deverão continuar a dominar a atenção dos mercados.

Dados Económicos
Estados Unidos da América
Em semana de reunião da Reserva Federal, a agenda económica é bastante mais irrelevante, mas ainda assim com dados interessantes.
A semana começa com os dados semanais do mercado de trabalho da ADP e com o índice manufactureiro de Nova Iorque, onde as estimativas apontam para uma queda de 20,6 para 14,1.
Na quarta-feira teremos o destaque da semana, relativamente a dados económicos, os números das vendas a retalho. Em termos mensais, as previsões mostram que as vendas em Agosto aumentaram 0,9%, após a queda de 0,6% no mês anterior. Se excluídas as vendas automóveis, sobem 0,5%, com o grupo de controlo a mostrar uma queda de 0,1%, melhor que a de 0,4% no mês de Julho. Iremos ter ainda os inventários empresariais que deverão mostrar um aumento de 0,3% e ainda o índice de mercado imobiliário NAHB, que deverá cair de 35 para 34.
Quinta-feira teremos mais dados do mercado imobiliário. As licenças de construção em Agosto deverão mostrar uma diminuição de 1,6%, o início de construção de imóveis um aumento de 9% e as vendas pendentes de imóveis um aumento de 0,3%, após a contracção de 2,3% no mês anterior. Teremos também os habituais números semanais de novos pedidos de subsídio de desemprego que deverão mostrar uma subida dos 205 mil para 209 mil e ainda o índice manufactureiro da Fed de Filadélfia, onde as estimativas apontam para uma queda de 47,4 para 28,9.
A semana termina com a divulgação dos números da produção industrial de Agosto, que deverão mostrar um crescimento de 0,1%, desacelerando dos 0,2% registados no mês anterior.
Zona Euro
Uma semana ligeira de indicadores económicos que começa com o indicador alemão de confiança económica ZEW, onde o consenso aponta para uma subida dos 31,4 do mês anterior, para 39,9. O mesmo indicador, relativamente à Alemanha, deverá mostrar uma subida de 34,2 para 42,7. Teremos ainda números da balança comercial, com as previsões a apontarem para um excedente de 3,7 mil milhões de euros, mais do dobro dos 1,8 mil milhões de euros do mês anterior.
Na quarta-feira teremos os números da produção industrial, com as estimativas a mostrarem uma queda de 0,5%, na quinta-feira os dados finais da inflação de Agosto e na sexta-feira os números da conta corrente de Julho que deverão mostrar um saldo positivo de 30,7 mil milhões de euros.
Na Alemanha iremos ter o índice de preços grossistas de Agosto que deverá mostrar uma subida de 0,1% em termos mensais, e ainda o índice de preços no produtor que deverá mostrar uma subida de 0,6%, desacelerando dos 1,1% do mês anterior.
Em Itália, a balança comercial deverá mostrar um excedente de 4,77 mil milhões de euros, após os 4,23 mil milhões de euros do mês anterior.
Reino Unido
As atenções começam por ir para os dados do mercado de trabalho, onde as previsões apontam para que a taxa de desemprego se mantenha nos 4,9%. Os ganhos médios incluindo bónus deverão mostrar uma desaceleração de 4,1% para 3,9% e o número de pedidos de subsídio de desemprego deverá mostrar uma queda de 5.000. A variação de emprego, segundo as previsões, deverá mostrar um aumento de 70 mil empregos.
Na quarta-feira é a vez de termos os dados da inflação do mês de Agosto. Os preços deverão mostrar um aumento mensal de 0,5%, acelerando dos 0,3% do mês anterior, com a inflação em termos homólogos a subir de 2,9% para 3,1%. Sem alimentos nem energia, os preços mensalmente deverão subir 0,3%, com a inflação subjacente anual a subir de 2,6% para 2,7%.
A semana irá terminar com o indicador de confiança do consumidor GfK e com os números das vendas a retalho de Agosto. O consenso aponta para uma queda na confiança do consumidor de -14 para -16, enquanto as vendas deverão mostrar uma redução mensal de 0,2%, ainda assim melhor do que a queda de 0,5% no mês anterior. Excluindo as vendas de combustíveis, as estimativas apontam para uma redução de 0,1%, após a redução de 0,9% no mês de Julho.
Canadá
A semana começa com os mercados de olhos postos nos dados da inflação de Agosto. Os números devem mostrar que os preços estabilizaram em termos mensais, após o aumento de 0,5% no mês anterior, com a medida homóloga a manter-se nos 3%, onde sem energia e alimentos se mantém nos 2,3%. O CPI trimmed-mean, a medida mais observada pelo Banco do Canadá, deverá manter-se nos 1,9%.
Na terça-feira iremos ter os números das vendas grossistas, com as estimativas a apontarem para uma redução de 0,5%, após o crescimento de 2,8% registado em Junho.
Na quarta-feira teremos os números do início de construção de imóveis, onde as previsões mostram uma subida em Agosto dos 229,1 mil em Julho, para 235 mil, e as licenças de construção de Julho deverão mostrar uma redução de 5,6%, após o aumento de 18,5% em Junho.
China
Os mercados irão ter um número interessante de dados económicos mensais, que deverão fornecer mais informações sobre a força da economia em Agosto. A produção industrial deverá crescer a um ritmo ligeiramente mais acelerado, de 4,8%, enquanto as vendas a retalho deverão aumentar 0,8%. O investimento em imobilizado, por sua vez, deverá sofrer uma nova quebra, de 7,0%. Serão também divulgados indicadores da oferta monetária, prevendo-se que os novos empréstimos em yuan atinjam os 480 mil milhões de yuans, recuperando da queda de 340 mil milhões de yuan registada em Julho. O índice de preços de imóveis deverá mostrar uma queda em termos homólogos de 3,1%, após os -3,2% de Julho. A taxa de desemprego deverá manter-se nos 5,2%.
Japão
As atenções começam por ir para os números das encomendas de maquinaria, excluindo navios e centrais energéticas, onde as estimativas apontam para uma redução em Julho de 1,1%, após o crescimento do mês anterior de 9,7%.
Teremos também os números da balança comercial de Agosto, onde as previsões apontam para um défice de 1 trilião de ienes, após os 690 mil milhões apresentados no mês anterior.
Por fim, poucas horas antes da decisão de taxas do Banco do Japão, iremos ter a divulgação dos dados nacionais da inflação. As previsões apontam para uma subida mensal dos preços de 0,2%, com a medida homóloga a subir de 2,0% para 2,1%, e sem alimentos frescos, a medida mais observada pelo BoJ, a manter-se inalterada nos 1,8%.
Nova Zelândia
Uma semana bem preenchida de indicadores económicos, onde se destaca a divulgação do PIB relativo ao segundo trimestre. A economia neozelandesa, segundo as previsões, deverá mostrar um crescimento trimestral de 0,1%, recuando dos 0,8% apresentados no primeiro trimestre, com a medida homóloga a subir de 1,5% para 2,3%.
A semana irá começar com a divulgação do índice de serviços BusinessNZ onde o consenso mostra uma queda de 52,6 para 52,3.
Mais tarde, na quarta-feira, o índice de confiança do consumidor Westpac deverá mostrar uma subida de 80,4 para 85,9, e os números da conta-corrente do segundo trimestre deverão mostrar um saldo negativo de 2,3 mil milhões de dólares neozelandeses, face aos 1,01 mil milhões do trimestre anterior.
Por fim, na quinta-feira, a balança comercial de Agosto deverá mostrar um défice de 1,3 mil milhões de dólares neozelandeses, após os 1.949 milhões no mês anterior.

Bancos Centrais
Fed deverá voltar a subir juros
A Reserva Federal deverá voltar a subir as taxas de juro em 25 pontos base na reunião desta semana, num contexto marcado pela persistência da inflação e por sinais de maior resistência da economia norte-americana.
Depois do discurso hawkish de Kevin Warsh em Jackson Hole, os dados de Agosto parecem ter reforçado essa posição. A inflação homóloga subiu para 3,4%, enquanto a inflação subjacente avançou 0,3% em termos mensais, acima do ritmo necessário para que a inflação regresse ao objectivo de 2%. O mercado de trabalho também revelou maior resistência do que o esperado.
A grande questão será, contudo, saber se esta subida representa o início de um novo ciclo de aperto monetário. Apesar de o mercado já descontar novas subidas, a Fed poderá limitar-se a esta decisão, encarando-a como uma recalibração da política monetária e não como o início de um novo ciclo.
Para o dólar, uma subida dos juros poderá contribuir para alguma estabilização, reforçando a credibilidade da Fed, já a manutenção de taxas levará certamente a uma forte perda dessa credibilidade, certamente seguida de uma penalização do dólar.
O Banco de Inglaterra deverá manter juros
O BoE deverá manter a taxa de referência inalterada em 3,75% na reunião de Setembro, provavelmente com uma votação de 6-3, repetindo o resultado de Julho.
A economia britânica continua a mostrar alguma resistência, com o PIB a crescer 0,4% em Julho, impulsionado pelos serviços, enquanto o mercado de trabalho revela sinais de arrefecimento moderado. O crescimento dos salários também continua a desacelerar e as expectativas de inflação das empresas para os próximos 12 meses recuaram para 3,8%.
A evolução dos preços da energia continua, contudo, a ser um factor de risco. Andrew Bailey mantém uma posição prudente e considera que as expectativas do mercado para várias subidas dos juros incorporam um prémio de risco excessivo, defendendo uma abordagem de esperar para ver.
A decisão deverá ainda confirmar uma redução do ritmo de redução do balanço da instituição, com o quantitative tightening a poder abrandar para cerca de 50 mil milhões de libras nos próximos 12 meses.
O Banco do Japão deverá acelerar subida
O Banco do Japão deverá subir a taxa de referência em 25 pontos base, para 1,25%, na reunião de 18 de Setembro. A decisão está amplamente descontada pelos mercados, pelo que o principal foco estará no sinal deixado por Kazuo Ueda sobre o ritmo das próximas subidas.
A persistência das pressões inflacionistas deverá justificar a decisão, com os dados de Agosto a serem conhecidos no próprio dia da reunião. O consenso aponta para uma inflação global de 2,0% e uma inflação subjacente de 1,8%.
Com o mercado já a descontar uma nova subida até ao final do ano, uma decisão sem alteração poderia penalizar fortemente o iene. Por isso, será importante perceber se o BoJ sinaliza uma abordagem mais rápida ao aperto monetário, depois de um ciclo marcado pela prudência.
Ainda assim, a estratégia de crescimento do Governo japonês deverá limitar a margem para uma aceleração significativa. O cenário base passa por mais duas subidas de 25 pontos base, em Janeiro e Abril de 2027, levando a taxa para 1,75%.
Para o iene, a reacção dependerá sobretudo da comunicação de Ueda. Um BoJ mais hawkish poderá reforçar a pressão descendente sobre o USD/JPY, enquanto uma mensagem demasiado cautelosa poderá desencadear uma nova recuperação do par.
O Banco do Brasil deverá cortar juros
O Banco Central do Brasil deverá voltar a cortar a taxa Selic em 25 pontos base, para 13,75%, na reunião desta semana. A decisão está praticamente descontada pelo mercado, depois de a inflação de Agosto ter surpreendido pela positiva.
O IPCA registou uma deflação de 0,32% no mês, a mais acentuada em quatro anos, levando a inflação homóloga para cerca de 4,2%, abaixo do limite superior da meta. Ao mesmo tempo, a actividade económica continua a desacelerar, embora permaneça relativamente resiliente.
O principal foco estará, por isso, na comunicação do Comité de Política Monetária. Apesar da melhoria recente da inflação, as expectativas permanecem acima do centro da meta de 3%, levando o banco central a deverá manter uma postura prudente e dependente da evolução dos dados.